Iara Lee, que ficou conhecida por participar em frota humanitária a Gaza em 2010, conta como sensação de abandono faz muitos pensarem em aderir à luta armada

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Cineasta e ativista brasileira Iara Lee em ação
Arquivo pessoal
Cineasta e ativista brasileira Iara Lee em ação
A ativista e cineasta brasileira Iara Lee passou cerca de três semanas na fronteira da Turquia com a Síria, onde entrevistou e filmou refugiados sírios para o documentário "The Suffering Grasses" (As Gramas Sofridas).

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De origem coreana, Iara, de 46 anos, ficou conhecida por estar entre os 450 ativistas presos e deportados por Israel após o incidente com a frota de ajuda humanitária a caminho de Gaza, em 2010.
Na época, ela integrava o grupo do navio Mavi Marmara, que liderava a frota e foi interceptado por tropas israelenses em uma ação que deixou nove ativistas mortos .

Para fazer o documentário, a brasileira viajou para o sul da Turquia, onde vivem mais de 15 mil refugiados deslocados pela violência entre o Exército Livre da Síria e tropas leais ao governo do presidente Bashar al-Assad.

Há mais de um ano, o líder sírio enfrenta grupos pró-democracia que exigem sua renúncia, num conflito que já deixou mais de 9 mil mortos , segundo a ONU. Iara fundou a rede Culturas de Resistência, uma organização que promove a "solidariedade global". Ela também possui cidadania americana e esteve envolvida em projetos de ativismo na Coreia do Norte, Irã, Líbano e Territórios Palestinos.

Nessa entrevista exclusiva à BBC Brasil, Iara relata a luta de refugiados para encontrar "humanidade" em meio ao abandono e desespero dos campos da fronteira turca:

BBC Brasil: O que lhe chocou mais durante seu tempo entre os refugiados?

Iara Lee: As pessoas estão em um desespero tão grande que aceitam soluções violentas para resolver a situação. O desejo de vingança é algo que precisa ser dominado. Também é muito impressionante a força das crianças após perderem pais ou mães, a maturidade delas para lidar com as adversidades e expressar sua dor. Isso é mais poderoso que bombas e armas. É triste ver que uma criança tem de ser tão adulta quando deveria passar seus dias brincando. Hoje, elas fazem desenhos, poemas e canções sobre o conflito.

BBC Brasil: E por que o nome do seu documentário será As Gramas Sofridas?
Iara Lee: Trata-se de uma alusão ao ditado que diz: quando elefantes vão à guerra, é a grama que sofre. Esse filme é sobre "elefantes", mas feito para as "gramas", ou seja, os refugiados.

BBC Brasil: Qual a situação geral dos refugiados?
Iara Lee: A situação humanitária não é tão ruim, mas eles não querem só comida e alojamento. Querem voltar para suas casas. Não existe uma mobilização política para resolver a situação deles e isso os deixa desesperados, amargurados. Muitos até defendem uma intervenção da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). O desespero é tamanho que vários consideram apelar para a violência caso não recebam ajuda. Ou seja, ir para a luta armada. Tentamos pregar que o uso da violência contra violência não dá certo.

BBC Brasil: Como foram as filmagens na fronteira turca?
Iara Lee: Antes de tudo, tivemos de conquistar a confiança das pessoas, que suspeitam muito de estrangeiros. Retratamos a luta das pessoas para sobreviver, seus medos e suas alegrias também. Há histórias bonitas a serem contadas, não só mortes, torturas e tristezas. Queríamos mostrar que as pessoas ainda têm humanidade mesmo em situações extremas, mostrar a coragem delas durante a guerra.

Equipe da cineasta brasileira Iara Lee grava documentário em campo de refugiados sírios na Turquia
Arquivo pessoal/ Iara Lee
Equipe da cineasta brasileira Iara Lee grava documentário em campo de refugiados sírios na Turquia
BBC Brasil: Quais obstáculos vocês encontraram?
Iara Lee: Autoridades governamentais geralmente tentam atrapalhar nosso trabalho. Dessa vez não foi diferente. Às vezes, íamos aos campos e eles (as autoridades) não nos deixavam entrar por razões diversas. Tínhamos de voltar no dia seguinte. Minha cinegrafista usava hijab (véu islâmico), o que facilitava um pouco a relação com algumas pessoas.

BBC Brasil: Que mensagem o filme quer passar para o resto do mundo?
Iara Lee: O objetivo do filme é mostrar o drama daqueles pegos no fogo cruzado do conflito, mas também tentamos explicar o conflito, as motivações do regime sírio e dos opositores, além de outros atores geopolíticos como os Estados Unidos, Rússia, China, Turquia, Líbano, Israel e países do Golfo. Queremos ajudar a mobilizar a comunidade internacional em favor de uma solução pacífica para a Síria. Só assistencialismo não é suficiente.

BBC Brasil: Como será divulgado o documentário?
Iara Lee: A estratégia de divulgação ainda não está bem definida, mas o colocaremos na internet para atingir um número maior de pessoas.

Campo de refugiados na fronteira da Turquia com a Síria: população foi pega no fogo cruzado do conflito
Arquivo pessoal/ Iara Lee
Campo de refugiados na fronteira da Turquia com a Síria: população foi pega no fogo cruzado do conflito

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