Vítimas e autor de massacre na Líbia ficam cara a cara

Ibrahim Tajouri, acusado de matar prisioneiros, afirma que cumpriu ordens superiores. Sobreviventes perderam parentes em massacre

BBC Brasil |

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Dois sobreviventes de um massacre de prisioneiros na Líbia se encontraram com o homem, atualmente detido, que confessou ter participado das execuções.

O encontro ocorreu na presença do repórter da BBC Feras Kilani. O jornalista foi preso em março do ano passado por forças do ex-líder Muamar Khadafi e detido na fazenda de Khalat al-Farjan, perto de Trípoli, onde foi espancado e submetido a encenações de execuções.

Kilani consegui escapar do local 22 horas após ser detido.

Meses depois, quando tropas rebeldes avançavam rumo à capital líbia, os guardas receberam ordens de matar todos os prisioneiros. Kilani diz que o local onde foi detido foi também palco de uma das piores atrocidades registradas no conflito.

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Hussein al-Lafi e seus três irmãos estavam entre os cerca de 50 prisioneiros mantidos em um pequeno armazém quando os guardas começaram o ataque.

Relato
"Os vi jogando granadas de mão", disse Hussein, dizendo que a primeira caiu no meio do local, entre os homens.

"Entre a segunda e a terceira granada, Ibrahim Tajouri veio e começou a atirar", disse ele, citando o nome de um dos supostos líderes do massacre.

Hussein disse como procurou por seus irmãos mas nenhum deles sobreviveu ao ataque.

"Quando os tiros terminaram, empurrei alguns corpos que estavam sobre mim", afima. Seu irmão Jamal estava sobre outra pilha de corpos.

"Seus olhos estavam abertos, o chamei 'Jamal, Jamal', mas ele não respondeu."

Seu segundo irmão, Usama, foi atingido no coração e ombros. A parte inferior de sua perna havia desaparecido.

Seu irmão mais velho, Mohammad estava perto da parede. "O toquei e pude sentir havia perdido a perna. Ele me disse: 'Fuja, salve-se e conte ao mundo que fomos massacrados'."

Na confusão de explosões e tiros, Hussein foi um dos poucos que conseguiram escapar. Os que ficaram para trás não tiveram chance. Os soldados mataram todos os feridos, um a um, e incendiaram o local

Ordens superiores
Alguns dias após o massacre, Ibrahim Tajouri se entregou aos rebeldes que assumiram o controle da cidade. Ele permanece detido.

Ele é acusado pelo massacre e concordou em falar à BBC sem a condição de anonimato. Tajuri diz que seguiu ordens superiores.

"Quando os rebeldes entraram em Trípoli, Mohammad Mansour, o comandante da prisão, deu ordens de matar os prisioneiros."

"Ele veio ao centro de detenção onde os prisioneiros estavam sendo mantidos, nos ameaçou com um revólver e disse que devíamos matá-los naquela hora. Daí pegamos algumas granadas de mão e as jogamos nos prisioneiros."

O repórter da BBC perguntou a Tajouri como ele se sentia agora sobre ter participado do incidente.
"Tomei drogas. Não controlava meus atos. Minha consciência está cheia de arrependimento pelo que fiz. Peço perdão a eles."

Outro prisioneiro, Bashir al-Sadeq, era mantido no local e testemunhou as ações de Tajouri.

"Sim, ele entrou e descarregou mais de três cargas de munição", disse ele. Os dois aceitaram o convite da reportagem para se encontrarem pela primeira vez com Tajouri desde o ocorrido.

Sadeq confrontou o ex-guarda: "Quando você entrou, matou um grupo que incluía Mohammed Allafi. Ele estava de joelhos e você o alvejou nas costas. Era meu irmão."

"Você então se virou e atirou no grupo que incluía os egípcios e o velho palestino que devia ter uns 80 anos de idade. Você descarregou quase quatro cargas de munição."

"Você matou xeque Ramada, disparando nele pelo menos quatro vezes. Não me diga que não se lembra."
"Não me lembro. Estava sob a influência de drogas", respondeu Tajouri.

Perguntado sobre o que ele diria aos dois homens, o ex-guarda afirmou que "pediria perdão. Perdão nesta e na próxima vida."

Mas Hussein, que perdeu seus três irmãos, disse que "se tivesse uma arma, o mataria. Mas esperamos que ele seja julgado rapidamente."

"Uma reconciliação nacional só pode acontecer depois que eles forem punidos por lei. Sem justiça não há reconciliação."

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