Tsunami da Ásia ajudou a acabar com conflito separatista na Indonésia

Consequência inesperada de tragédia na Província de Aceh trouxe paz e permitiu trabalho de quase 500 agências estrangeiras

Leda Balbino, IG São Paulo |

Antes do tsunami de 26 de dezembro de 2004, a Província de Aceh, no norte da ilha de Sumatra, vivia desde 1976 sob um conflito entre o governo da Indonésia e os separatistas do Movimento pelo Aceh Livre. Mas sete meses depois da tragédia, as partes envolvidas assinaram um histórico acordo para pôr fim à violência. "É possível dizer que o tsunami foi uma bênção. Não vivemos mais com medo", afirmou  Azwar Hasan, chefe local da ONG Forum Bangun Aceh ao jornal britânico "The Independent".

A paz inesperada foi uma consequência direta das ondas de 30 metros que avançaram 12 quilômetros no território da província, a área mais devastada pelo tsunami que atingiu 13 países do Oceano Índico. Distante apenas 200 quilômetros do epicentro do terremoto de 9,15 graus que causou o tsunami, sua superpovoada faixa costeira de 800 quilômetros de extensão ficou plana. Perante 166 mil mortos e 500 mil desabrigados, não havia por que manter num impasse negociações há muito tempo proteladas.

O fim da violência permitiu que quase 500 agências estrangeiras e o governo indonésio atuassem para recuperar a região. Os trabalhos foram centralizados na Agência de Reabilitação e Coordenação de Aceh-Nias, criada especificamente para coordenar a reconstrução. Cinco anos depois da tragédia, 140 mil casas, 1.700 escolas, 996 prédios governamentais, 36 aeroportos e portos, 363 pontes e quase 37 mil quilômetros de estradas foram construídos.

Tudo financiado por doações estrangeiras que totalizaram US$ 6,7 bilhões, valor que superou em muito os estimados US$ 4,9 bilhões de prejuízo, disse ao iG o especialista Homi Kharas, da Brookings Institution, em Washington. "Essa alta quantia foi resultado do aumento imprevisto de preços no setor de construção", conta Kharas, em referência à escassez de materiais de construção logo após o início dos trabalhos, o que aumentou os custos. "Em parte, também foi resultado do desejo de reconstruir melhor do que antes", completou.

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Tsunami devastou Aceh, na Indonésia, e mais 12 países

O desejo de construir melhor para evitar uma ampla destruição em futuros desastres teve pelo menos uma conseqüência ruim, aponta o acadêmico Camillo Boano, professor da Unidade de Desenvolvimento de Construção e Design Urbano da University College London. "Com o objetivo de fazer construções mais resistentes, usou-se muita madeira, o que acabou causando problemas no meio ambiente", afirmou.

Outros países atingidos

Além da Indonésia, outros três países foram seriamente afetados pelo tsunami de 2004, que deixou no total quase 227 mil mortos, 2 milhões de desabrigados, 500 mil construções destruídas e prejuízo de US$ 10,7 bilhões. O Sri Lanka contabilizou mais de 35 mil mortos e prejuízos de 1,5 bilhão, enquanto a Índia teve mais de 16 mil mortes e US$ 2,6 bilhões em danos e a Tailândia perdeu mais de 8 mil vidas.

Segundo o engenheiro brasileiro André Dantas, o tsunami afetou sociedades, governos e comunidades que possuíam níveis diferentes de preparação e de infraestrutura para o desastre.

No Sri Lanka, conta, a situação após a tragédia foi similar ao caos experimentado pelo Haiti, cuja região da capital, Porto Príncipe, foi arrasada por um terremoto em 12 de janeiro. Já na Indonésia e na Tailândia, as instituições e organizações locais foram eficientes em utilizar e coordenar os recursos disponíveis, afirmou o brasileiro, que trabalha no Departamento de Engenharia de Recursos Civis e Naturais da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia.

Um exemplo específico é o da Ilha de Pipi, no sul da Tailândia. "Ela foi totalmente destruída, mas depois de 6 meses já estava pronta para receber os turistas de que tanto depende", afirmou Dantas. "A razão principal foi a capacidade da comunidade local de gerenciar os poucos recursos de forma eficiente e inteligente. Os moradores da ilha trabalharam juntos até que tudo estivesse restabelecido", completou.

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