Superintendente regional do Iphan relata como foi reconstruir Goiás Velho, cidade atingida por forte enchente

"Como explicar para uma senhora de 90 anos, que há 60 deles guarda sua tesourinha na gaveta, ao lado da cama, que a sua casa não está mais lá. O trabalho de reconstrução de uma cidade envolve muito mais do que valores, é a memória de uma população. São essas pessoas que fizeram a história e souberam preservar 300 anos de cultura."

Responsável por coordenar a reconstrução de Goiás Velho em 2001, Salma Saadi, superintendente regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Goiás, contou ao iG os desafios para devolver à população a rotina que lhes dava vida. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Fortes chuvas destroem marcos do município de Goiás
AE
Fortes chuvas destroem marcos do município de Goiás

A enchente - A enchente atingiu Goiás Velho em 31 de dezembro de 2001. Eram por volta das 6h quando o Rio Vermelho, afluente do Araguaia, começou a encher. Às 11h, veio a tromba dágua, com ondas fortes: 19 pontes foram destruídas, 170 imóveis foram atingidos total ou parcialmente. A cidade tinha recebido em 7 de dezembro daquele ano o título de Patrimônio da Humanidade do Fundo da Organização das Nações Unidades para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Às 23h, o leito do rio já tinha baixado. A cena era assustadora. A praça onde ficava a Cruz do Anhanguera, em frente à casa da poetisa Cora Coralina (1889-1985), por exemplo, era um buraco. Por sorte, ninguém morreu. Foram cerca de 120 pessoas envolvidas diretamente na reconstrução da cidade, que demorou dois anos para ser concluída.

Prioridades - Foi preciso definir quais eram as prioridades. Vimos primeiro as casas em pior estado, aquelas com risco iminente de desmoronar. Segundo, a idade do morador. Atendemos os mais idosos primeiro. Nessas horas é preciso considerar a idade das pessoas. Percebemos que os mais velhos normalmente entram em um processo de depressão. 

Psicólogos - Equipes de psicólogos se juntaram ao grupo que trabalhava na reconstrução da cidade. Era preciso dar assistência às pessoas que tinham perdido seus bens. Muitas não queriam deixar suas casas e entraram em um processo de tristeza.

Comitê Gestor - É fundamental ter um comitê gestor para que as decisões fiquem concentradas e os problemas possam ser administrados. É fundamental que as pessoas saibam a quem procurar. No comitê decidimos qual seria a rotina de trabalho - nove frentes foram abertas. Toda tarde, por exemplo, a gente recolhia todo material colocado nos contêineres. Depois, era feita uma seleção. Separávamos álbuns de fotos, documentos, tudo que pudesse ser reaproveitado, restaurado e representasse a memória ou história das pessoas de Goiás Velho. Também foi decisão do comitê contratar empresas localizadas na cidade para que a economia local pudesse girar.

Entulho - Espalhamos 31 contêineres pela cidade. Enquanto limpávamos a lama, colocávamos nos contêineres todos os chamados entulhos originados com a destruição. Contratamos uma empresa de restauro emergencial. Eles entraram em cada imóvel e fizeram uma seleção do que poderia ser aproveitado. Reaproveitamos telhas, madeiras. Fizemos o que existe na França, onde existem lojas que você só compra entulhos de obras. Usamos tudo que poderia ser reaproveitado.

Doação - A mobilização e solidariedade foram de extrema importância no trabalho de reconstrução. Recebemos, por exemplo, do Ibama a doação de 12 caminhões grandes de madeira. Eram madeiras apreendidas porque foram extraídas de forma ilegal. Além disso, alguns monumentos da cidade foram adotados por grandes empresas. 

Voluntários - Diversas campanhas se espalharam pela cidade. A igreja fez a campanha do cimento e arrecadou 162 sacos. A prefeitura de Goiânia emprestou quatro caminhões-pipa e lavamos toda a cidade. O Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea) mandou um engenheiro à cidade para trabalhar na reconstrução. Arquitetos e engenheiros de Goiás Velho se juntaram ao grupo e catalogaram casa por casa que havia sido atingida pela enchente. Açougues doaram frangos. O grupo das senhoras da melhor idade fizeram uma campanha na qual vendiam chás e iguarias de Goiás que arrecadou R$ 3,5 mil. Cantores que nasceram no Estado fizeram shows e arrecadaram R$ 16 mil. Ao todo, foram gastos quase R$ 10 milhões para reconstruir ou restaurar os imóveis atingidos.

Doenças - Um dos pontos que nos preocupava eram as doenças. Por isso, vacinamos toda a população contra leptospirose.

São Luiz do Paraitinga

Soldados do exército e voluntários retiram imagens sacras e sinos em meio aos escombros da igreja matriz São Luiz de Tolosa
AE
Soldados do exército e voluntários retiram imagens sacras e sinos em meio aos escombros da igreja matriz São Luiz de Tolosa

São Luiz do Paraitinga, cidade turística localizada a 182 quilômetros de São Paulo, utilizará a experiência de Goiás Velho para reconstruir o município destruído pelas águas do Rio Paraitinga, que transbordou com as fortes chuvas no começo deste ano.

Prédios históricos, entre eles a igreja matriz São Luiz de Tolosa, construída no século 19, foram destruídos. Segundo balanço do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), 300 imóveis foram afetados pela chuva. Mais de 4 mil pessoas foram obrigadas a sair de casa. ( veja imagens da destruição )

Os prejuízos ainda são somados, mas apenas com o cancelamento do carnaval - um dos mais tradicionais do Estado de São Paulo - cerca de R$ 20 milhões deixarão de ser arrecadados. Em janeiro, foram liberados, por meio do PAC das Cidades Históricas, R$ 10 milhões para a reconstrução e restauração dos imóveis na cidade.

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