Renascimento de Nova Orleans privilegia áreas turísticas

Cidade atingida por enchente após passagem do Furacão Katrina, em 2005, sofreu perda de população principalmente de bairros pobres

Leoleli Camargo, de Nova Orleans |

Os efeitos do furacão Katrina, que açoitou por oito horas Nova Orleans em 29 de agosto de 2005, ainda são visíveis na cidade do sul dos EUA, na Louisiana, quase cinco anos após a tragédia. Muitas pessoas ainda estão sem poder voltar para suas casas porque milhares de moradias populares tiveram de ser demolidas e deram lugar a grandes espaços vazios no cenário da cidade.

A reconstrução vem sendo privilegiada nas áreas turísticas e populares. No French Quarter, bairro de arquitetura francesa e espanhola onde ocorrem os famosos shows de jazz, e no Garden District, com mansões históricas dos séculos 19 e início dos 20, é difícil encontrar vestígios da tragédia. Mas continuam destruídas áreas de baixa renda, como o Lower Ninth Ward, um dos locais mais devastados pelas águas.

Visto da parte alta de uma ponte, o bairro ainda parece deserto. A vida demora a voltar ao normal não porque as pessoas temam que a cidade volte a inundar com a passagem de um novo furacão, mas porque ainda não receberam das companhias de seguro o dinheiro necessário para a reconstrução.

No Lower Ninth Ward e em outros bairros pobres muitas das casas atingidas foram passando de geração em geração informalmente, sem obedecer à lei de propriedades dos EUA. Quando a água se foi, nem o governo nem as companhias de seguro souberam quem tinham de ressarcir e, por isso, muita coisa ficou abandonada, relata Nick Carroll, 23 anos, voluntário da entidade Common Ground Relief, uma ONG de apoio às famílias atingidas pela enchente.

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Casas abandonadas desde a passagem do Katrina, no bairro de Lower Ninth Ward, em Nova Orleans

Delimitada pelo Rio Mississipi e o Lago Pontchartrain, quase metade de Nova Orleans está abaixo do nível do mar, o que a torna extremamente vulnerável a inundações por furacões ou tempestades fortes.

Quando o Katrina atingiu a cidade em 2005, diques, represas e bombas de drenagem construídos entre 1.700 e 1.800 fracassaram em conter a violenta elevação dos níveis das águas. A falha do sistema em mais de 50 pontos permitiu a inundação de 85% de Nova Orleans e deixou mais de 700 mortos e 5 mil feridos na cidade.

A tormenta, a terceira mais forte a já atingir os EUA, causou uma ampla destruição ao longo da Costa do Golfo (do centro da Flórida ao Texas). No total, o furacão causou mais de 1.800 mortes, sendo mais de 1.500 delas só na Louisiana. Além disso, deixou prejuízos estimados entre US$ 80 bilhões e US$ 110 bilhões na Costa do Golfo.

Êxodo

Segundo dados de 2008 do censo dos EUA, a população de Nova Orleans atualmente é de quase 312 mil, número bem inferior aos quase 455 mil que viviam nela antes da tragédia. Aqueles que deixaram Nova Orleans e não retornaram foram em sua maioria negros de baixa renda, de acordo com o Centro de Dados da Comunidade da Grande Nova Orleans.

O último levantamento do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano de Nova Orleans estima que cerca de 3 mil famílias continuam vivendo em trailers, sem poder voltar para suas casas ou propriedades, que permanecem destruídas.

Próximo ao estádio de futebol Superdome, para onde foi boa parte dos desabrigados nos dias subseqüentes à tragédia, uma importante área hospitalar nunca mais se recuperou. O Hospital de Caridade (conhecido pela população apenas como Charity), um dos maiores centros de triagem que recebia majoritariamente a população pobre, segue fechado e com destino incerto - provavelmente será demolido.

Enchentes subestimadas

A tradição de enchentes da cidade fez com que a maior parte de suas antigas construções fosse erguida bem acima do solo. Nessas casas, todo o espaço livre abaixo da área habitada ficava vazio, com paredes construídas de modo a facilitar a drenagem da água.

Com o passar das décadas, no entanto, as grandes inundações foram rareando. Menos receosas, as pessoas começaram a construir suas casas no nível da rua. Muitas transformaram o espaço inútil no primeiro andar em depósito, garagem ou até mesmo local de habitação. Foi um grande erro, diz Carroll, da Common Ground Relief.

A sede onde o voluntário trabalha funciona em uma típica construção antiga, em Lower Ninth Ward. Erguida a poucos metros de onde uma barreira de água se rompeu, ela foi uma das poucas que conseguiram resistir à força da enxurrada.

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