Reconstrução da cidade, destruída em 1871, ditou processo de desenvolvimento das metrópoles americanas nas décadas seguintes

O planejamento moderno das metrópoles dos EUA foi consequência direta de um incêndio de grandes proporções que devastou a cidade de Chicago no final do século 19, no ano de 1871.

"A cidade passou por um rápido processo de reconstrução que ditou o desenvolvimento das áreas urbanas do país nas décadas seguintes", disse ao iG Carl Smith, o professor de história da Universidade Northwestern.

"Após a tragédia, houve um esforço de reconstrução coordenado que modernizou a forma de desenvolvimento em toda a Costa Leste do país", afirmou Smith, autor de The Plan of Chicago: Daniel Burnham and the Remaking of the American City (O Plano de Chicago: Daniel Burnham e a Remodelação da Cidade Americana, em tradução livre).

Segundo o historiador, até o chamado Grande Incêndio de Chicago não havia planejamento urbano e regulamentação para as construções da cidade, que crescia de forma rápida e desordenada. Esse cenário caótico, aliado a um verão muito seco, foi a condição perfeita para que o fogo se alastrasse de forma devastadora na noite de domingo de 8 de outubro de 1871.

Modelo de construção para a Costa Leste dos EUA
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Modelo de construção para a Costa Leste dos EUA

Possível causa: uma vaca

As causas do incêndio são desconhecidas, mas diz a lenda que uma vaca teria iniciado o incêndio. Segundo essa versão, o animal teria derrubado um lampião de querosene sobre o feno de um celeiro que ficava atrás da casa de Patrick e Catherine O'Leary, na Rua DeKoven.

O casal tinha uma pequena produção de leite no celeiro. Apesar de não haver provas concretas, a suspeita fez com que a família levasse o crédito pela tragédia.

Após o início do fogo, os bombeiros, exaustos por combater outro grande incêndio no dia anterior, foram enviados inicialmente para o bairro errado. Quando finalmente chegaram à casa da família O'Leary, as chamas já estavam fora de controle. O incêndio se espalhou rapidamente a leste e norte. Casas de madeira, pontes, prédios comerciais e indústrias foram consumidos em poucas horas.

Depois de dois dias de fogo intenso, a chuva começou a cair sobre a cidade. Na manhã de 10 de outubro de 1871, o incêndio diminuiu e apagou naturalmente. A devastação foi completa no coração da cidade. A tragédia deixou pelo menos 300 mortos, 100 mil desabrigados e prejuízo estimado de US$ 200 milhões (em valores de 1871).

Renascimento das cinzas

O incêndio foi um dos eventos mais marcantes do final século 19 nos EUA, e é reconhecido até hoje como um marco importante para o futuro da cidade.

"Após o incêndio, a cidade aprovou novas regras para construção, com regulamentações específicas para o uso de materiais resistentes ao fogo, como tijolos e metal", contou Smith.

Ruínas nas ruas Dearborn e Monroe
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Ruínas nas ruas Dearborn e Monroe

O professor explica que as mudanças não foram bem aceitas pela classe trabalhadora de Chicago, uma vez que os materiais requeridos eram muito mais caros que madeira. "Foi só com a pressão das empresas seguradoras, que ameaçaram não pagar a indenização pelos danos do incêndio, que os cidadãos passaram a adotar as novas medidas", explicou.

Em 1885, menos de 15 anos após o incêndio, Chicago testemunhou a inauguração do primeiro arranha-céus dos EUA, um edifício de dez andares feito com estrutura de metal resistente ao fogo, que acabou definindo a Escola de Arquitetura de Chicago. Esse tipo de estrutura foi usada em cidades como Nova York e Boston anos depois, disse o historiador.

Segundo Smith, a reconstrução da cidade ocorreu muito rapidamente porque a economia nacional e internacional tinham muito a perder com a crise em Chicago.

"Naquela época, a cidade era a principal 'ponte' entre as regiões mais desenvolvidas do Leste dos Estados Unidos e as regiões agrícolas no Oeste", disse. "O Grande Incêndio de Chicago, no final das contas, foi o que transformou a cidade no que ela é hoje", concluiu o professor.

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