Êxodo expõe desafio para reconstrução de zona rural do Haiti

Terremoto revela necessidade de reconstrução do setor agrícola do país, no qual está concentrada 66% da força de trabalho haitiana

Vicente Seda, iG Rio de Janeiro |


O terremoto que arrasou o Haiti, especialmente Porto Príncipe, já tem claros reflexos nas zonas rurais do país. Segundo a ONU, cerca de 500 mil pessoas fugiram da capital devastada depois do terremoto, que atingiu o país há um mês. A maioria busca refúgio em casas de parentes no interior em vez de ir para acampamentos montados pelo governo e agências de ajuda.

O êxodo começou nos primeiros dias após a tragédia, mas, com cerca de 70% da população concentrada na capital devastada, o foco das ações humanitárias continua centralizado na região urbana.

Mas, para o diretor geral da Action Aid para as Américas, o engenheiro agrônomo Adriano Campolina, é necessário e urgente um novo planejamento dessas ações. Há notícias de acúmulo de pessoas de Porto Príncipe em algumas zonas rurais, que são regiões carentes, com estrutura ainda mais precária que a capital, explicou.

Action Aid
Campolina trabalha em distribuição de alimentos no Haiti

Campolina (de preto) durante distribuição de alimentos no Haiti

Segundo o diretor-geral, a reconstrução do país tem de estar inserida em um contexto de recuperação econômica da população mais marginalizada. No Haiti, 80% estão abaixo da linha de pobreza ¿ vivem com menos de US$ 2 por dia. O país, segundo avaliação do Banco Mundial, é o segundo país com maior taxa de risco para empréstimos.

A questão não é tanto a quantidade de suprimentos, que parece substancial, mas a logística de distribuição, explicou Campolina. Assim como a Action Aid, há ONGs e agências que já estão pensando na mudança de estratégia. Na semana passada, começamos a diagnosticar outras regiões do país para direcionarmos o trabalho, disse. Por enquanto, a Action Aid concentra suas ações em Mariani, perto de Carrefour, o epicentro do terremoto.

Renascimento do setor agrícola

Campolina, que já foi diretor da Action Aid para o Oeste da África, diz que a concentração urbana em Porto Príncipe é uma conseqüência da crise agrícola haitiana, que teria sido agravada pelo fato de o país ter seguido a cartilha do Banco Mundial e do FMI na década de 90.

O Haiti baixou suas tarifas e recebeu uma inundação de produtos baratos e subsidiados na origem ¿ Estados Unidos e Europa, disse. Segundo ele, esse foi um dos motivos para o país ter acabado com seus próprios mecanismos de subsídio e com sua capacidade de apoio à agricultura e à pesquisa agrícola.

Mas, apesar da concentração urbana em Porto Príncipe, dois terços dos haitianos dependem da estrutura agrícola, de acordo com o site The World Factbook, base de dados da CIA (Agência Americana de Inteligência dos EUA).

No setor, que já havia sido seriamente atingido por quatro furacões em 2008, está 66% da força de trabalho do país, o mais pobre das Américas. Os principais cultivos são manga, café, cana de açúcar, milho, sorgo e arroz, e também há extrativismo de madeira. Dos 34% restantes, 25% estão envolvidos em serviços diversos e 9% na área industrial (refinamento de açúcar, farinha, produção têxtil, cimento e pequenas linhas de montagem com peças importadas).

Action Aid
Haitianos recebem doação da Action Aid

Haitianos recebem alimentos doados pela Action Aid

Para restaurar o setor, Campolina defende que a reconstrução das zonas rurais ocorra de forma a protegê-las de desastres naturais. O Haiti passou por 80 anos de bloqueio econômico, o que causou o uso em excesso do recurso mais abundante, a terra, com um amplo desmatamento, explicou.

Segundo ele, o país necessita de um tipo de agricultura que reconstrua a sustentabilidade da produção, com base nos pequenos agricultores. Além disso, recomenda o plantio de árvores para não deixar o solo tão exposto. Nas montanhas, onde fizemos um trabalho de produção sustentável de café, foi observada uma proteção maior a alguns desastres, como tempestades tropicais, relatou.

Desafios da reconstrução

Um dos principais desafios da reconstrução do Haiti, opina Campolina, será garantir que não ocorra de forma que aliene ou exclua ainda mais os pobres, situação que costuma ocorrer em desastres desse tipo. Para exemplificar sua preocupação, citou um episódio que testemunhou após o tsunami que atingiu a Ásia, em 2004.

No sul da Índia, onde uma comunidade de pescadores foi destruída, o governo queria refazer a vila a 500 metros da costa, morro acima. O plano criaria dificuldades para a comunidade local e estimularia a especulação imobiliária por grupos interessados em hotéis no local onde ficava a comunidade antes do tsunami.

O Haiti deve passar por problema similar. Como será a construção? Privilegiará os grandes supermercados e as casas de classe média e alta ou escolas públicas e hospitais? Aí entra a questão de qual mão de obra será utilizada, de onde virão os materiais. Tem de pensar se isso atenderá o interesse de um pequeno grupo ou de fato contribuirá para a economia popular, completou.

*Com informações da BBC Brasil

***Matéria publicada pela primeira vez em 12 de fevereiro, no aniversário de 1 mês do terremoto do Haiti

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