Empresas e países veem reconstrução como oportunidade de negócios

Trabalho, porém, pode ser tarefa inglória por causa das denúncias de irregularidades e disputas por liderança

Patrick Cruz, iG São Paulo |

Três meses depois dos ataques terroristas do 11 de Setembro de 2001, foi criada a Paladin Capital, empresa de private equity (especializada na compra de participações em outras empresas). Ela viu nos atentados uma grande tragédia, mas também uma oportunidade para investimentos em segurança nacional. Dois anos depois, a Paladin ¿ que tinha entre seus fundadores o ex-diretor da CIA James Woolsey, conselheiro do ex-presidente George H. W. Bush (1989-1993) ¿ já havia levantado US$ 300 milhões com investidores.

O caso mostra como as tragédias, sejam guerras, ataques ou desastres naturais, são uma oportunidade de negócios. E exemplos não faltam.

A invasão do Iraque em 2003, liderada pelos EUA, foi pródiga em relatos de como grandes empreiteiras e empresas de segurança faturavam com a investida militar. Um dos casos mais notórios foi o da Halliburton e de sua subsidiária, a KBR, que, até 2006, já tinham obtido receita superior a US$ 17 bilhões apenas em contratos relacionados às operações no Iraque. A empresa ficou a cargo de tarefas que iam da reconstrução da infraestrutura ao reparo de campos de extração de petróleo destruídos.

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Manifestantes protestam em 2004 contra atuação de empresas americanas no Iraque

Americanos protestam em 2004 contra atuação de empresas no Iraque

O Veritas Capital, outro fundo de private equity, amealhou estimados US$ 1,44 bilhão somente até 2006 por conta de sua estratégia de negócios: o fundo especializou-se na compra e venda de participações em companhias ligadas às indústrias aeroespacial ou de defesa. Washington Group International, Fluor e Perini alcançaram, cada uma, receitas superiores a US$ 650 milhões para reparar campos de petróleo, escolas, usinas elétricas, bases militares ou sistemas de abastecimento de água no Iraque.

Além do lucro

Mas, apesar de ser um campo fértil para os negócios, os esforços de reconstrução também podem ser uma tarefa inglória. No caso do Iraque, além da enormidade de dinheiro necessária para o trabalho, há casos de desconfiança, acusações mútuas de irregularidades e disputa pela liderança da reconstrução. Esses problemas não apenas ampliam os custos, mas também tornam mais morosa a tarefa.

Os iraquianos decretaram 30 de junho como feriado. Essa data, em 2009, marcou o início da saída das tropas americanas do país.

Enquanto diminui o número de soldados ianques, cresce o controle que o Iraque tem de sua reconstrução ¿ esforço que já consumiu mais de US$ 120 bilhões, dos quais mais de US$ 55 bilhões dos EUA. A violência afugentou muitas empresas americanas, que chegaram a despender até 25% de seus orçamentos em segurança.

Em novembro, havia 396 empresas exibindo seus produtos na edição mais recente da Feira Comercial de Bagdá, em novembro. Há duas ou três participantes americanas, mas não me lembro de seus nomes, disse Hashem Mohammed Haten, diretor-geral da empresa iraquiana de feiras, segundo o jornal americano The New York Times. A baixa presença dos EUA no evento mostra que, agora, os iraquianos já não fazem tanta questão de dar aos americanos os contratos da reconstrução.

O orçamento do Iraque para 2010 prevê US$ 20 bilhões, ou 27,5% do total, para novos projetos, segundo a Câmara de Comércio Brasil-Iraque. Como a produção de petróleo está em nível praticamente idêntico ao do período pré-guerra ¿ foram 2,48 milhões de barris por dia no fim de janeiro ¿, o dinheiro do petróleo está financiando a retomada. E é raro alguma empresa dos EUA vencer uma licitação.

Briga por liderança

Enquanto no Iraque o orgulho nacional vem colocando as rédeas da reconstrução nas mãos do governo iraquiano, ainda não está claro quem liderará o trabalho no Haiti, onde um terremoto destruiu a região de Porto Príncipe há um mês.

AP
Porto Príncipe destruída: ainda não se sabe quem liderará reconstrução
Porto Príncipe destruída: ainda não se sabe quem liderará reconstrução

Em 25 de janeiro, o primeiro-ministro haitiano, Jean-Max Bellerive, disse que o país tinha condições de assumir a reconstrução. Cinco dias depois, porém, o embaixador do Haiti em Washington, Raymond Joseph, publicou artigo no jornal The Wall Street Journal defendendo a liderança dos Estados Unidos.

E tudo isso ocorreu depois de o Brasil, que com 1,3 mil soldados lidera desde 2004 a Missão de Estabilização da ONU no país, já ter declarado que deveria ser dele a dianteira no processo. Embora a opinião não seja unânime, relatos afirmam que a maior parte da população haitiana se mantém simpática à presença brasileira em território haitiano.

O orçamento para a reconstrução do Haiti foi estimado em US$ 3 bilhões pelo ministro do Turismo Patrick Delatour, embora o dado não tenha sido confirmado. O trabalho deverá durar dez anos, de acordo com prognósticos iniciais, e com alto risco de ser infestado por casos de corrupção.

O alerta foi feito no início deste mês pela Transparência Internacional. O ambiente da nação caribenha é ideal para corrupção, afirmou na ocasião Roslyn Hees, assessora da ONG. Entram nesse universo não apenas compras superfaturadas e desvios de verbas, mas também a troca de alimentos por sexo. No IPC de 2009, o Haiti não ficou tão mal colocado quanto o Iraque: três posições acima, empatou com países como Burundi e Turcomenistão.

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