Em 1755, Lisboa foi devastada por terremoto seguido de tsunami e incêndios

Devastação abriu caminho para a modernização da capital portuguesa e provocou impacto na filosofia e teologia do século 18

Luísa Pécora, iG São Paulo |

Na manhã de 1º de novembro de 1755, Dia de Todos os Santos, Lisboa foi cenário de uma das maiores tragédias da história. Um terremoto seguido por tsunami e incêndios deixou milhares de mortos e igrejas destruídas no extremamente devoto Reino de Portugal, ironia que impactou o pensamento da época. A devastação da cidade, antes de traçado medieval, também possibilitou o nascimento do desenho atual das ruas da capital portuguesa.

O epicentro do terremoto foi a sudoeste da região do Algarve, a cerca de 300 quilômetros de Lisboa. Sua força foi tão grande - entre 8,7 e 9 graus, segundo estimativas atuais dos geólogos - que provocou um tsunami que afetou todo o Oceano Atlântico, do Oeste da Europa à América do Norte, e o Caribe e a costa do Brasil. Por fim, a ação de saqueadores e o fogo de velas acesas em meio aos destroços causaram múltiplos incêndios que duraram cinco dias e colaboraram para a destruição da quase totalidade da capital portuguesa.

Como há dados imprecisos sobre a população portuguesa antes de 1755, a estimativa do número de mortos varia de 10 mil a 100 mil. Cidades como Cascais, Setúbal e Peniche tiveram cerca de 1.500 mortes, e acredita-se que o tremor tenha causado vítimas também na Espanha e no Marrocos. Além de ter destruído ou danificado 23 mil construções, o tremor arruinou 87% das igrejas e 86% dos conventos e monastérios de Lisboa.

Chris Adams/ 2003
Convento do Carmo, que foi destruído pelo tremor

Reconstrução

Segundo o estudo The Opportunity of a Disaster: The Economic Impact of the 1755 Lisbon Eartquake (A Oportunidade de um Desastre: O Impacto Econômico do Terremoto de Lisboa de 1755, em tradução livre), todo tipo de construção temporária foi proibida até que todos os escombros fossem retirados das ruas e um plano para toda a cidade fosse definido. O alinhamento das novas ruas e o plano de reconstrução do centro de Lisboa só foram aprovados três anos depois da tragédia.

Na capital portuguesa, diz o estudo, os esforços de reconstrução foram direcionados principalmente para o centro da cidade, completamente destruído pela tragédia. Antes de 1755, Lisboa lembrava uma cidade medieval, com ruas estreitas, desalinhadas e desorganizadas.

Como o terremoto destruiu praticamente todo o centro de Lisboa, o governo português viu isso como uma oportunidade para redesenhar a cidade e transformá-la em uma metrópole moderna, menos vulnerável a terremotos, indica o economista e escritor português Álvaro Santos Pereira, que elaborou o estudo na Universidade de York, Reino Unido.

Entre 1755 e 1838, cerca de 340 documentos sobre a reconstrução de Lisboa foram emitidos. As ruas da cidade se tornaram mais amplas e alinhadas, enquanto o governo incentivou a padronização de materiais e das fachadas dos prédios.

Reprodução
Gaiola, estrutura criada em Portugal, no século 18, para resistir a terremotos

Além disso, foi introduzida uma nova técnica de construção, a chamada gaiola, na qual uma estrutura tridimensional de madeira era embutida nas paredes de alvenaria. O objetivo era utilizar a madeira para dar resistência às construções, sem deixar de optar pela alvenaria, mais resistente a incêndios.

Crenças estremecidas

A tragédia estarreceu o mundo católico por ter atingido a capital de um reino que, por sua religiosidade e seu esforço de evangelização das colônias, acreditava que passaria incólume pelo castigo divino.

O desastre estremeceu as bases da filosofia otimista do alemão Gottfried Wilhelm Leibniz, que defendia que se vive no melhor dos mundos possíveis. Para ele, o mundo segue uma ordenação divina e os acontecimentos respeitam a vontade de Deus, que é justo e bom.

Reprodução
Gravura feita em Portugal sobre terremoto de Lisboa, de 1755

O francês Voltaire ironizou essa tese no conto filosófico Candide, de 1759. Na obra, o personagem Dr. Pangloss se mantém otimista até mesmo diante das maiores tragédias, como o terremoto de Lisboa. Para o francês, pensamentos similares ao de Leibniz poderiam levar a uma atitude passiva e, ao contrário, defendia a interferência do homem nos acontecimentos por meio de uma ação política racional.

Rousseau utilizou a destruição do tremor como um argumento contra as cidades, seguindo sua teoria do bom selvagem. De acordo com o pensador francês, a natureza do homem é boa, mas acaba sendo deformada pelos maus costumes ligados à organização social e, particularmente, aos vícios desenvolvidos no interior das cidades.

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