Destruição de guerra estimulou concorrência entre governo e Hezbollah no Líbano

Acostumados a renascer dos escombros após séculos de tragédias, população libanesa desenvolveu cultura da reconstrução

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

Em julho de 2006, Beirute, capital do Líbano, preparava-se para receber milhares de turistas naquele que prometia ser o melhor verão das últimas décadas. O governo conseguira reconstruir a cidade a partir das ruínas de mais de 15 anos de uma guerra civil impiedosa na qual, em determinado momento, 17 grupos religiosos guerreavam entre si em praça pública.

Pontos turísticos como a praça l'Etoile voltaram a ser cartões postais. Embora a reconstrução ainda estivesse em andamento e algumas cicatrizes da guerra civil (1975-1990) continuassem visíveis, a "Paris do Oriente" estava novamente em pé com seus restaurantes sofisticados de mesas na rua e xícaras de café a US$ 5.

Tudo mudou quando o grupo xiita Hezbollah sequestrou dois soldados israelenses na região da fronteira. Israel reagiu descarregando dezenas de bombas de 500 quilos cada, capazes de destruir metade de um quarteirão, diariamente nos bairros xiitas. "Chovem bombas no verão quente do Líbano-2006", estampava uma bem humorada camiseta vendida nas ruas da cidade.

AP
Centro de Beirute, destruído em Guerra Civil

Depois de um mês de bombardeios, o saldo era de US$ 50 bilhões em prejuízos materiais. Mais de 100 pontes, 20 linhas de transmissão de energia, uma usina termoelétrica, antenas de telefonia, dezenas de estradas, pelo menos 15 mil casas no sul do Líbano e 19 mil apartamentos no Dahiye, o subúrbio xiita de Beirute, foram danificados em um mês de combate. Além disso, houve prejuízos no comércio, indústria, agricultura e turismo.

Passados mais de três anos, os parentes dos milhares de vítimas do conflito ainda choram seus mortos e o país até hoje não recuperou a estabilidade política. Em comparação, menos de uma semana depois do cessar-fogo anunciado em 14 de agosto, 80% das residências danificadas no sul do Líbano haviam sido vistoriadas por engenheiros e arquitetos.

Em 25 de agosto, milhares de caminhões haviam retirado todos os escombros de Dahiye. Três meses depois, 77 pontes estavam sendo reconstruídas, enquanto 12 já haviam sido entregues.

"As perdas humanas são irreparáveis, doem, mas a vida segue e temos de pensar em quem sobreviveu. Aprendemos a duras penas que depois da tragédia vem a oportunidade, disse ao iG, por e-mail, Gihad Hijazi, filho de libaneses nascido no Brasil e dono há mais de 40 anos de uma empreiteira em Tiro, no litoral sul do Líbano.

Desenvolvemos uma espécie de cultura da reconstrução. Afinal, Beirute foi destruída pelo menos sete vezes nos últimos mil anos", completou, referindo-se aos vestígios da passagem de romanos, fenícios, bizantinos, otomanos, cruzados e franceses nas cidades libanesas.

Imediatamente depois da guerra, o governo liderado por cristãos e muçulmanos sunitas disputou com o Hezbollah a primazia na reconstrução. Com ajuda internacional, o poder oficial investiu antes do final de 2006 US$ 30 milhões na realocação de 30 mil famílias deslocadas, US$ 5 milhões na retirada de minas terrestres, US$ 148 milhões em obras de infraestrutura, US$ 87 milhões em saúde, água e educação, US$ 53 milhões na despoluição da costa atingida por derramamentos de óleo, US$ 132 milhões em geração de empregos e US$ 34 milhões no incentivo à indústria e agricultura.

Além disso, adotou diversas medidas para aquecer a economia, como isenção de impostos, reescalonamento de dívidas bancárias, aumento na liquidez do sistema financeiro, subsídios e compras emergenciais em setores-chave como os produtores de tabaco e de azeite de oliva.
Mas as iniciativas de impacto mais direto junto à população partiram da Jihad al-Binaa (campanha de reconstrução), braço do Hezbollah criado em 1982, depois da primeira invasão israelense, que desde então acumulou experiência única na reconstrução de áreas devastadas por conflitos.

Um dos trunfos da Jihad al-Binaa é contar com mais de 2 mil arquitetos e engenheiros graduados no exterior, com ajuda financeira do Hezbollah, que em poucos dias estavam mobilizados para a reconstrução.

"Eles distribuíram logo de cara US$ 10 mil para pagamento de aluguel e despesas imediatas. Qualquer um podia se cadastrar, até os cristãos, sunitas e drusos. Uma semana depois do cessar-fogo um arquiteto estava lá em casa com quatro opções de projeto de reconstrução. Quando ficou pronta, estava melhor do que era antes", disse Ali Fakih, libanês com nacionalidade brasileira que divide o tempo entre a casa em Foz do Iguaçu (PR), a loja em Ciudad Del Este (Paraguai) e outra casa no sul do Líbano.

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