Caminho é incerto para a recuperação dos amputados do terremoto do Haiti

O tremor de 12 de janeiro forçou cerca de 4 mil haitianos a se submeter à amputação, o que os obriga a se adaptar a uma nova vida

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Stefi Pierre, de 3 anos, dá risadinhas enquanto usa sua nova perna artificial para chutar uma bola do outro lado do quarto - momento de alegria com equipes de assistência estrangeira que mascara o futuro incerto dela e de dezenas de outros amputados no Haiti.

Os passos vacilantes e desequilibrados da menina são seus primeiros em um difícil caminho para se recuperar em um centro de reabilitação temporário que trata vítimas do terremoto de 12 de janeiro, que deixou o Haiti cheio de amputados como Stefi.

Ela e outros que perderam membros, alguns com amputações múltiplas, agora têm de encarar a realidade prática de lutar para sobreviver em um Haiti devastado e de enfrentar o estigma social em um país que nunca foi gentil com os deficientes físicos.

A mãe de Stefi, Fabian Pierre, diz estar mais preocupada com sua filha ser marginalizada do que com a cirurgia a que ela precisará se submeter em breve para corrigir a amputação feita às pressas. "Assim que ela for à escola, algumas pessoas acharão que isso é um problema", disse.

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Marc Arthur Noel, de 23 anos, faz embaixada em centro de habilitação

Cerca de 4 mil pessoas foram amputadas em consequência dos ferimentos causados pelo terremoto de magnitude 7,0 que, segundo o governo, deixou estimados 230 mil mortos.

Aqueles que perderam membros precisam de acompanhamento cuidadoso porque os cirurgiões, correndo para salvar o máximo de vidas possível, frequentemente realizaram amputações de "guilhotina" - um corte direto pela carne e ossos que não deixa pele suficiente para uma cicatrização apropriada ou lugar para acomodar um membro artificial, disse o enfermeito Bob Horton, da Merlin, um grupo britânico de assistência médica.

Alguns ferimentos infeccionaram por tratamento inadequado, uma situação desesperadora para os sobreviventes frequentemente sem-teto assim como para os médicos haitianos e estrangeiros que os tratam.

Enquanto muitos amputados, incluindo Stefi, continuam hospitalizados, outros receberam alta sem ter para onde ir além dos acampamentos temporários que mais parecem favelas e abrigam cerca de 600 mil pessoas na zona do terremoto.

Em um hospital de campanha que a Merlin gerencia em uma quadra de tênis, a coordenadora Eba Pasha disse que foi necessário realizar uma segunda operação nas vítimas que retornam com infecções.

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Jacine Pierre aprende a andar usando uma prótese

Vivian Exavier, de 35 anos, que ficou seis horas presa depois que uma parede ruiu sobre sua perna durante o terremoto, disse que seu maior medo - sem contar as réplicas - é se tornar um fardo para os amigos e a família.

Ela trabalhava como alfaiate antes da tragédia. Agora teme que não terá como se locomover de forma rápida o suficiente para manter um trabalho. "Para tudo que faço, peço ajuda. Isso é o mais difícil", disse.

Ser um deficiente físico é uma grande desvantagem no Haiti, onde mais da metade da população estava desempregada antes do terremoto. Sem ter como competir, muitos são abandonados e deixados para mendigar nas ruas, alimentando o estigma contra os aleijados.

"No Haiti, quando você é deficiente, você é esquecido", disse Michel Pean, secretário de Estado para a integração dos portadores de deficiência.

Pean disse que sua agência tem pressionado por cotas de emprego e escolas integradas para pôr fim ao isolamento de estudantes com esse tipo de problema. À medida que a capital do país, Porto Príncipe, for reconstruída, o governo deveria considerar a construção de rampas e outros meios de acessibilidade para a geração de amputados do terremoto.

Por enquanto, no workshop de próteses no porão de um mercado inacabado, pacientes fazem fila para testar suas novas pernas e mostrar apenas determinação enquanto andam passo a passo de mãos dadas com os membros das equipes de assistência.

No caso de Stefi, também há alegria. "Antes de ela ter muletas, ficava brava e chorava por causa da perna", disse sua mãe. "Desde que ganhou as muletas, corre por todos os lugares", afirmou.

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Mulher segura nas mãos de médico enquanto aprende a andar com prótese

O workshop no centro de Porto Príncipe usa ferramentas que foram salvas de uma das únicas fábricas de próteses do país, que foi bastante danificada no terremoto. A fábrica e sua parceira Handicap International estão entre vários grupos de assistência que estão preparando centenas de haitianos para membros artificiais.

Os pacientes primeiramente recebem uma prótese temporária e, depois de seis meses de ajustes, ganham uma prótese permanente feita de plástico durável. A tecnologia foi endossada durante décadas pela Comissão Internacional da Cruz Vermelha para o uso em países em desenvolvimento com terreno irregular e intermitente acesso à assistência médica.

Outros grupos usam próteses mais avançadas doadas pelos EUA, apesar das preocupações expressas pelo governo haitiano de que os pacientes não terão como reparar os equipamentos sofisticados.

Pacientes dizem não saber aonde irão nos próximos meses para o tratamento de suas feridas - sem mencionar o tratamento físico e o aconselhamento psicológico que será necessário para se ajustarem a suas deficiências.

Exavier disse preferir não pensar muito sobre o futuro. "Não ponho fé em conseguir ajuda", disse. "Ponho minha esperança em conseguir trabalho."

Por Mike Melia, de Porto Príncipe

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