Ásia pós-tsunami oferece lições para Haiti, dizem especialistas

Um mês depois da tragédia que devastou Porto Príncipe, especialistas dizem que reconstrução na Indonésia pode servir de modelo

Leda Balbino, IG São Paulo |

Um mês depois do terremoto que assolou a região de sua capital, Porto Príncipe, o Haiti ainda não terminou de contar seus mortos. Em balanço divulgado pelo primeiro-ministro Jean Max Bellerive em 10 de fevereiro, o número ultrapassava 230 mil.

O total fica mais estarrecedor se comparado ao tsunami asiático, que chocou o mundo em 2004. O terremoto do Haiti, restrito às áreas costeiras densamente povoadas no sul do país, tirou mais vidas do que tsunami, que deixou quase 227 mil mortos em 13 países do Oceano Índico.

AP
Vista aérea mostra destruição em bairro pobre de Porto Príncipe

O terremoto do Haiti foi tão mortífero por ter o epicentro a apenas 13 quilômetros de profundidade e ocorrer na precária área metropolitana de Porto Príncipe, que abriga entre 2,5 milhões e 3 milhões de habitantes - um terço da população de mais de 9 milhões do país.

Além disso, ao tornar Porto Príncipe "plana", nas palavras de um diplomata haitiano, o tremor deixou 1,5 milhão de desabrigados, 310 mil feridos, 280 mil construções destruídas ou danificadas.

Segundo um documento preparado pelo governo do Haiti com o apoio da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), do Banco Mundial, do Sistema das Nações Unidas e da União Europeia, os prejuízos correspondem US$ 7,7 bilhões.

Com números de destruição tão ampla, a pergunta é: "Como reerguer dos escombros uma nação tão traumatizada, que perdeu praticamente 10% da população de sua capital de uma só vez?"

Para muitos especialistas, a Província de Aceh, na Indonésia, oferece lições para o desafio, servindo como modelo do que fazer - e não fazer - na reconstrução do Haiti. Com o epicentro do terremoto de 2004 a menos de 200 quilômetros de distância de sua área costeira, a região foi a que mais sofreu os efeitos do tsunami. Quase 166 mil morreram, enquanto 500 mil perderam suas casas. Cinco anos depois, a província e sua capital, Banda Aceh, estão a caminho da recuperação.

Incentivo à economia

O especialista Homi Kharas, da Brookings Institution, em Washington, diz que o terremoto do Haiti destruiu praticamente toda a economia do país por atingir a capital, Porto Príncipe, a principal fonte de sustento da população. "Por algumas estimativas, 60% do PIB pode ter sido perdido", afirmou ao iG . Por isso, ele defende que a prioridade da reconstrução seja criar empregos e fontes de sustento para a população.

"Em Aceh, as agências de ajuda concentraram seus projetos em infraestrutura, enquanto as ONGs financiaram os setores sociais e de habitação. Não houve preocupação com as atividades produtivas, os setores bancário e de finanças, o que causou pouca oferta de crédito", relata Kharas, que já foi economista-chefe da Região do Leste da Ásia e do Pacífico no Banco Mundial.

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Vista aérea mostra devastação em Aceh, na Indonésia

Para evitar esse problema, o especialista defende a reconstrução de infraestruturas onde possam surgir pequenos mercados e a restauração dos bancos para permitir que remessas e crédito fluam para a população.

Além disso, ele recomenda que o Haiti crie um mecanismo para centralizar o trabalho das organizações que querem ajudar o país. "O governo precisará desenvolver redes logísticas de fornecimento dos materiais de construção para evitar a alta da inflação", afirmou.

A medida seria necessária, argumenta, para evitar que se repita no país caribenho o que ocorreu em Aceh logo após o tsunami. Segundo ele, havia tantas organizações tentando reconstruir casas que houve escassez de materiais e, consequentemente, aumento dos preços no setor de habitação. "A inflação diminuiu drasticamente o poder de compra do dinheiro doado pelo exterior", afirmou. Na Indonésia, uma agência para centralizar os esforços de ajuda foi estabelecida em abril de 2005.

Comunidades locais

A melhor maneira de os fundos da reconstrução estimularem a economia, diz Kharas, é por meio da implementação de projetos pelas comunidades locais. "É importante consultar os diferentes grupos sobre quais são suas prioridades, assim como é essencial que eles estejam envolvidos na implementação dos projetos", afirmou.

O acadêmico Camillo Boano, professor da Unidade de Desenvolvimento de Construção e Design Urbano da University College London, também diz ser importante a participação da população haitiana no processo, principalmente para que seja criado um modelo próprio de reconstrução. "Não há como copiar totalmente em um país um processo de outro, porque há similaridades, mas as realidades econômicas, sociais e políticas são muito diferentes", afirmou.

No caso do Haiti e de alguns dos países afetados pelo tsunami, a principal diferença é o grau de organização das instituições locais, afirma o engenheiro brasileiro André Dantas. "As instituições no Haiti já eram deficientes antes mesmo do terremoto. Não existia qualquer preparação (legal, logística e organizacional) para enfrentar o evento", afirmou o acadêmico, que trabalha no Departamento de Engenharia de Recursos Civis e Naturais da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia.

A opinião é compartilhada por Kharas. "Na resposta ao tsunami, foi mais fácil para os governos nacionais usarem seus próprios recursos no esforço de reconstrução. Já o Haiti foi atingido pelo terremoto quando começava a adotar um programa de crescimento com apoio da comunidade internacional", relatou.

Por isso, opina o brasileiro Dantas, um dos maiores desafios do Haiti será restabelecer as instituições e fazer com que a comunidade internacional reconstrua o país com uma estrutura mais resistente. "É importante utilizar a reconstrução como plataforma para evitar um desastre futuro. Isso inclui não só o povo e governo haitianos, mas também todos os países e órgãos internacionais", afirmou.

***Matéria publicada pela primeira vez em 12 de fevereiro, no aniversário de 1 mês do terremoto do Haiti

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