Vazamento da investigação sobre cunhado de Alckmin causa alvoroço

Processo causa frisson em Pindamonhangaba (SP); MP instaurou inquérito civil para averiguar fonte de vazamento

Nara Alves, enviada a Pindamonhangaba |

O presidente da Câmara Municipal de Pindamonhangaba, Ricardo Piorino (PPS), decidiu guardar nas gavetas parte das caveiras que antes ornavam seu gabinete. Na sala onde recebe os jornalistas sobraram apenas o telefone em forma de esqueleto e outras duas esculturas cadavéricas posicionadas atrás do computador. A mudança na decoração foi necessária, ele explica, depois do vazamento de informações sobre a investigação que envolve o cunhado do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin , o mais ilustre pindamonhangabense.

Desde que o jornal Folha de S.Paulo divulgou, em dezembro de 2010, que um dos irmãos da primeira-dama Lu Alckmin, Paulo César Ribeiro, é alvo de um processo do Ministério Público, Piorino (ou Caveira, apelido que nega ter) recebe diariamente repórteres do Vale do Paraíba e dos principais veículos do País. Ele, relator da Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Merenda, tem acesso a todos os documentos confidenciais do MP, assim como os demais 10 vereadores, promotores e investigados.

O MP investiga a atuação de uma quadrilha em licitações fraudulentas da prefeitura em benefício de empresas de fornecimento de merenda escolar. Em troca, essas empresas teriam feito doações irregulares durante a campanha eleitoral. O processo corre desde 2007 e conta com mais de 1,2 mil páginas.

Caso as suspeitas sobre Paulo Ribeiro sejam comprovadas, o prefeito da cidade, João Ribeiro (PPS), e sua vice, Myriam Alckmin (PPS), poderiam ser atingidos por tabela e Piorino, como presidente da Câmara, seria o próximo na linha de sucessão. "Tem gente dizendo que eu quero ser prefeito. Eu não! Levaria dois anos só pra consertar aquilo lá", disse ao iG .

A exposição dos dados coletados pelo MP em depoimentos, diligências e escutas telefônicas tem causado constrangimento entre promotores e os que têm acesso aos documentos. Na tentativa de evitar novos vazamentos, o órgão solicitou a instauração de um inquérito civil para averiguar quem está burlando a determinação da Justiça. Enquanto isso, Piorino, por precaução, solicita sempre a presença de uma assessora de imprensa nos encontros com repórteres em seu gabinete. "Sou um homem católico, meu eleitor é da Igreja Católica, não me deixo levar por politicagem. E ela (a assessora) está de prova".

"Alckmin sempre contestou"

Uma das testemunhas do caso é o ex-vice-prefeito de Pindamonhangaba João Bosco Nogueira (PMDB), eleito pela chapa de João Ribeiro em 2005. "Ele (Paulo Ribeiro) é o chefe da quadrilha, o Silvio Serrano (ex-secretário de Finanças) é o operacional e o prefeito (João Ribeiro) deu as chaves do cofre", acusa. "E não é só isso que está saindo na imprensa, não. Tem muito mais".

Hoje aposentado, Nogueira diz que rompeu com o prefeito em 2008, quando soube das irregularidades e da movimentação de Paulo Ribeiro. Assim, no segundo mandato, o prefeito teve de trocar o vice e escolheu Myriam Alckmin para ocupar o cargo. Myriam é filha de Isabel, irmã de Geraldo Alckmin, e de Luiz Fernando Nogueira, irmão de João Bosco Nogueira.

"Ele (Geraldo Alckmin) é corretíssimo, sempre contestou a atividade do Paulo Ribeiro", disse o ex-vice-prefeito ao iG sem esclarecer, no entanto, de qual atividade e de que período se referia. Em seguida, afirmou acreditar que o governador tomou conhecimento das denúncias de irregularidades somente após o vazamento das informações do MP. O cunhado de Alckmin é empresário e suspeito de lobby em favor das empresas que venceram as licitações. O governador não comenta o caso publicamente, mas defende a apuração dos fatos.

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