Ex-presidente havia comentado em seu aniversário que falaria com a senadora; mas ao saber do câncer, delegou tarefa à presidenta

Na última quinta-feira, quando recebeu um grupo de amigos para comemorar seu aniversário de 66 anos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que procuraria pessoalmente a senadora Marta Suplicy (PT) para pedir que ela desistisse da pré-candidatura à Prefeitura de São Paulo em favor do ministro da Educação , Fernando Haddad.

O caso: Dilma pede que Marta abandone pré-candidatura em São Paulo

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Marta Suplicy e Dilma Rousseff durante as eleições 2010
AE
Marta Suplicy e Dilma Rousseff durante as eleições 2010

O ex-presidente avaliou que as novas críticas a Haddad em função de falhas no Enem e a proximidade do prazo final para inscrição dos candidatos às prévias do PT, que se encerra no dia 7, poderiam dar ânimo às pretensões da senadora.

Dois dias depois, no entanto, Lula foi surpreendido pela descoberta de um câncer na laringe, que só fez aumentar as avaliações de que sua ausência, mesmo que temporária, fragilizaria a posição de Haddad em um momento decisivo aumentando as chances de uma disputa interna com resultados imprevisíveis.

A idéia inicial era que Lula fosse o autor do pedido para preservar a presidenta. A descoberta da doença levou a uma mudança de planos. Segundo relatos, assim que soube do câncer, Lula orientou Dilma a procurar Marta rapidamente e resolver logo a situação.

Na segunda-feira, quando Dilma esteve em São Paulo para visitar Lula no hospital antes de embarcar para a cúpula do G-20 em Cannes (França), a presidenta e a senadora tiveram um encontro rápido na ala de autoridades do aeroporto de Congonhas.

Dilma foi objetiva. Disse que Marta seria mais útil ao governo na condição de primeira vice-presidente do Senado e pediu que ela abandonasse a disputa passando a apoiar Haddad. A presidenta afagou a senadora mas não ofereceu qualquer cargo.

Marta também foi curta. Evitou uma resposta direta e disse que consultaria sua base no PT. “Até o final da semana tomarei uma decisão”, disse a ex-prefeita.

Um apelo da presidenta é algo que tem que ser levado em conta. Outros candidatos estão se inscrevendo mas é evidente que isso é um fato novo”

Segundo dirigentes petistas, mais surpreendente do que o pedido foi a decisão de Dilma de tornar público um assunto partidário por meio da ministra da Comunicação Social, Helena Chagas, em Cannes.

“Era tudo do que a Marta precisava, uma porta para sair de cabeça erguida”, disse um dirigente petista.
Foi a terceira vez que as duas conversaram sobre a eleição em São Paulo. Nas duas vezes anteriores Marta deixou claro que não abriria mão da disputa, apesar da fragilidade de sua situação interna.

A senadora estava totalmente isolada no PT. Ela rompeu com seu grupo original durante a campanha pelo Senado, no ano passado, e ultimamente contava apenas com o apoio do deputado estadual João Antonio e do federal Candido Vacarezza na disputa com Haddad.

Há algumas semanas Marta também rompeu com João Antonio e Vacarezza, responsabilizando a dupla pelo vazamento de uma reunião na qual foi discutida a possibilidade de desistência.

Apesar disso, a senadora acreditava na força das pesquisas de opinião e na empatia com a militância.
Hoje, a opinião geral no PT é que Marta vai aceitar o pedido de Dilma.

“Se tivessem feito isso (o pedido público) antes, Marta já teria saído”, disse um cardeal petista.

Para o presidente nacional do partido, Rui Falcão, embora Marta seja uma liderança emblemática e tenha toda a legitimidade para pleitear a prefeitura, a palavra da presidenta pesa. Segundo ele, tudo indica que Haddad será o candidato.

“A presidenta Dilma fez o que achou mais conveniente e um pedido dela tem um peso. Se Marta aceitar o pedido poderá participar das campanhas do PT nacionalmente”, disse Falcão.

O presidente do diretório municipal do PT, Antonio Donato, também destacou o peso da palavra presidencial e disse que, embora as prévias estejam mantidas, uma possível renúncia de Marta deve levar os outros pré-candidatos a uma reflexão.

“Um apelo da presidenta é algo que tem que ser levado em conta. Outros candidatos estão se inscrevendo mas é evidente que isso é um fato novo”, disse ele.

Por enquanto o único inscrito oficialmente é o deputado Carlos Zaratini. O também deputado Jilmar Tatto, o senador Eduardo Suplicy, Marta e Haddad ainda não formalizaram suas pré-candidaturas.

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