Tragédias e crise na polícia marcam início de 2ª gestão Cabral

Governador esteve ausente em momentos-chave e delegou resolução de problemas. Estado vive bom momento econômico e na segurança

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Agência O Globo
No aeroporto de Galeão, Barack Obama e sua família são recepcionados pelo governador do RJ, Sergio Cabral e o prefeito, Eduardo Paes
Após terminar 2010 com o prestígio de uma folgada reeleição e da tomada do Complexo do Alemão, Sérgio Cabral vive meses de provações no começo de sua segunda gestão à frente do Rio de Janeiro. A catástrofe com cerca de 900 mortos e 400 desaparecidos na Região Serrana, vítimas das chuvas e da falta de planejamento urbano, a crise da Polícia Civil, com a queda do chefe Allan Turnowski, e a chacina na Escola Municipal Tasso da Silveira marcaram os primeiros cem dias nada tranquilos do segundo governo Cabral.

Ao mesmo tempo, o Estado vive momento econômico positivo: o Rio deve receber R$ investimentos de 181,4 bilhões até 2013, gerou mais de 190 mil empregos no ano passado, os salários médios superaram os de São Paulo e a rede hoteleira bate recordes de ocupação. A Segurança Pública em geral melhorou, com a redução dos índices de criminalidade, a adoção das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadoras) e a criação de uma política de metas para policiais.

O peedemebista soube aproveitar o momento positivo e propício a investimentos no Estado, impulsionado pela realização das Olimpíadas de 2016 e da Copa do Mundo de 2014 para garantir o crescimento do Rio. As obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) no Estado, fruto da aliança estreita de Cabral com o ex-presidente Lula e a atual presidenta, Dilma Rousseff , também contribuíram para a onda favorável, que inclui até o lançamento da animação norte-americana “ Rio ”.

Nas primeiras duas crises do ano, porém, o governador demorou a se manifestar e repassou as tarefas espinhosas a subordinados. Na inicial, em janeiro, estava fora do país, em viagem pessoal. Só chegou à área dois dias depois – como na tragédia em Angra dos Reis, no ano anterior –, e delegou o gerenciamento do caos ao vice, Luiz Fernando Pezão, que costuma assumir a gestão operacional do Estado nessas circunstâncias. No mês seguinte, diante da investigação do chefe de polícia Allan Turnowski pela Polícia Federal, coube ao secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, resolver o problema, demitindo o auxiliar.

No ataque de Wellington Menezes de Oliveira às crianças, o governador foi logo à escola, após desembarcar vindo aos Estados Unidos, e deu uma entrevista coletiva manifestando solidariedade.

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A ausência nas situações críticas, em oposição à exposição midiática em momentos positivos, talvez seja um componente da figura política de Cabral, zeloso de sua imagem pública. Nesses momentos e nas viagens – o governador passou seis meses no exterior no primeiro mandato –, o vice Pezão é seu principal aliado. Com uma eficiente equipe de imprensa e comunicação, Cabral empregou R$ 452 milhões em publicidade nos primeiros quatro anos e é competente garoto-propaganda da própria gestão.

“O governador completa cem dias, e o Rio continua sem transporte, sem saúde pública, sem educação de qualidade, sem professores nas salas em diversas matérias, sem médicos nas UPAs (Unidades de Pronto-Atendimento). Nos setores estratégicos, continuamos com o poder público sacrificando o servidor. Mas é muito competente na propaganda do governo. Economizam em Saúde e Educação o que não economizam em propaganda. Ele trabalha muito bem a imagem. É um governador muito ausente, que aparece de forma midiática, mas não assume nos principais assuntos do momento”, afirmou o deputado estadual de oposição Marcelo Freixo (PSOL).

Para o presidente da Assembleia Legislativa, Paulo Melo (PMDB), aliado de Cabral, o governo está consolidando políticas estabelecidas na gestão anterior e vive um momento “fantástico”, de acelerar as conquistas do primeiro termo. Ele defende a reação de Cabral em crises. “O governo não funciona só na figura do governador: ele é o chefe do Executivo, mas há uma máquina que deve funcionar sem ele, e Cabral dá autonomia aos secretários”, afirmou Paulo Melo.

UPP é cartão de visitas

Reeleito com 66% dos votos em outubro, com simpatia e habilidade política, o governador conseguiu costurar harmoniosa relação com o governo federal e a Prefeitura do Rio. De adversário político nas eleições de 2002, o ex-senador virou principal aliado do então presidente Lula e foi beneficiado com o maior volume de recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em um Estado. O Rio vive um momento positivo na economia.

No primeiro trimestre deste ano, Cabral deu sequência à bem-sucedida política de implantação de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), com mais três unidades (Morro São João, Morro São Carlos e Santa Teresa), chegando a 15. Os méritos são reconhecidos até por adversários, que elogiam a redução do conflito armado e de índices de criminalidade (26,6% na taxa de homicídios por 100 mil habitantes e 4.768 assassinatos em 2010, queda de 17,6% em relação a 2009, menor número desde 91).

O plano de “pacificação”, como o governo o define, é o principal projeto e cartão de visitas do governo Cabral. Esta semana, ele esteve nos Estados Unidos, onde fez palestras sobre o assunto. Na recente vinda do presidente norte-americano ao Rio, fez questão de levar Barack Obama à Cidade de Deus – citada positivamente no discurso do Theatro Municipal. A visita foi um dos pontos altos do governador neste ano.

Entretanto centenas de favelas continuam subjugadas ao tráfico, e a dificuldade da Polícia Militar em recrutar e formar novos profissionais ainda é um entrave relevante para a expansão mais rápida do programa. E a Segurança continua a apresentar enormes desafios em 2011. Além da crise na Polícia Civil, já houve casos de corrupção, erro policial e até tortura bárbara em delegacia na zona sul.

Com as cidades de Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis, principalmente, devastadas pelas chuvas e deslizamentos, o Rio mobilizou a maior parte dos investimentos nesse começo de ano para a reconstrução da Região Serrana. “O Estado está se dedicando à tragédia da Região Serrana. O volume de recursos e equipamentos destinado a isso é significativo”, admitiu o deputado de oposição Luiz Paulo (PSDB).

Segundo ele, porém, nesse começo de ano, o governo “tirou o pé do acelerador” nos gastos. “É o primeiro ano, não é eleitoral, e o governo tirou o pé claramente, tanto que em habitação ainda não gastaram nem 2% do orçamento”, disse o tucano.

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