Tarso tenta repetir Lula, mas já enfrenta resistências

Ao fim de 100 dias, governador do Rio Grande do Sul age para tentar projetar o Estado na cena nacional

Daniel Cassol, iG Rio Grande do Sul |

Depois de passar sete anos no primeiro escalão do governo federal, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, deixou evidente a inspiração na gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos primeiros 100 dias de sua administração. Com uma base aliada ampla, a criação de um “conselhão” e tentativas de diálogo com a oposição, o governador gaúcho investe no discurso de que o Estado deve  projetar sua importância no cenário nacional. Para isso, se dedica a lançar as bases de seu projeto de governo, mas começa a enfrentar críticas por uma aparente falta de ação.

Os sinais da inspiração em Lula ficaram claros antes mesmo da posse. Tarso convidou PDT e PTB, seus adversários na eleição, a integrarem o governo. Tentou ainda uma aproximação com o PP. A ampla aliança lhe garantiu maioria de 32 deputados na Assembleia.

Agência Estado
Após trégua inicial, Tarso já enfrenta críticas de adversários
O governador também criou um Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, nos mesmos moldes do “conselhão” de Lula, de quem copiou também a prática de conceder entrevistas a blogueiros. E empenhou-se em demonstrar prestígio junto ao governo federal, recebendo as vistas da presidenta Dilma Rousseff e do vice Michel Temer , além de mais de uma dezena de ministros, como José Eduardo Cardozo (Justiça), Wagner Rossi (Agricultura) e Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), além dos presidentes da Petrobrás e do BNDES.

O governador abriu diálogo com entidades historicamente parceiras do PT, como o Movimento dos Sem-Terra (MST) e o sindicato que representa professores no Estado (Cpers), mas ainda não atendeu às reivindicações que recebeu desses grupos. À oposição, também estendeu a mão: chamou deputados para reuniões no Palácio Piratini e evitou conflitos, mas começa a enfrentar as primeiras críticas mais fortes.

Críticas

Depois de um curto período de trégua, no qual Tarso vem aproveitando a maioria na Assembleia para aprovar projetos, a oposição começa a ensaiar os primeiros discursos mais fortes contra o governador. “Nosso governador vem da escola do governo federal. A orientação é comprar e cooptar a oposição”, afirma o deputado federal Nelson Marchezan Júnior (PSDB-RS).

A principal crítica está na criação de 500 cargos em comissão na administração. “Ele ainda não mostrou a que veio, a não ser para dar emprego aos companheiros”, diz o deputado tucano, que ainda acusa Tarso de ser “ditatorial”, por ter tentado mexer nas diretorias de instituições públicas, sofrendo derrotas na Justiça estadual.

Edson Brum, deputado estadual do PMDB, diz que o governo se omite diante de demandas urgentes e toma medidas contraditórias em relação à postura histórica do PT – como o abafamento de uma CPI para investigar irregularidades no Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer). “É um governo omisso em relação aos assuntos do Estado”, critica. O peemedebista diz ainda que Tarso pegou um governo em condições de fazer investimentos, mas tem agido pouco.

Brum sugere que a abertura do governador ao diálogo é apenas um jogo de cena. Ele diz que a oposição está sendo “patrolada” na Assembleia. “Nós nos opusemos à criação de cargos em comissão, mas fomos patrolados pela maioria na Assembleia. Não há diálogo. Ele está conversando sozinho”, reclama.

Encaminhamentos

Tarso e seus secretários dizem que a situação financeira do Estado não é a mesma anunciada por Yeda Crusius (PSDB) ao final do ano passado e que os quatro anos de ajuste fiscal prejudicaram a estrutura administrativa. “A situação das finanças públicas está distante da apresentada pelo último governo. Efetivamente não temos situação de déficit zero. Nós encontramos uma série de consequências de um modelo que buscava esvaziar as funções públicas do Estado, mas nem sequer foi capaz de transferir as prerrogativas à iniciativa privada”, diz o chefe de gabinete de Tarso, Vinícius Wu. Para ele, as críticas ao governo “não têm base na realidade”. “Tivemos um início de governo que mostrou dinamismo e capacidade de articulação como há muito não se via”, afirma Wu.

Estamos encaminhando corretamente as questões para fazer um bom governo. Não  há questão chave do nosso programa que já não tenha algum tipo de encaminhamento, com sucesso.

O próprio Tarso Genro admite que se governo está, por enquanto, “encaminhando as questões” para que possa deslanchar de fato. Foi o que ele disse em coletiva na última quarta-feira, ao ser questionado pela reportagem do iG . “Acho que estamos encaminhando corretamente as questões para fazer um bom governo. Não tem nenhuma questão-chave do nosso programa que já não tenha algum tipo de encaminhamento, com sucesso”, declarou.

Preocupado em elevar o Rio Grande do Sul “a um novo patamar de desenvolvimento”, como costuma afirmar, Tarso trabalha para que o Estado dependa menos da produção agrícola em sua economia. Para isso, lançou um programa de desenvolvimento econômico, voltado à atração de investimentos.

Um projeto que não deve dar resultados no curto prazo, o que seria necessário para recuperar o papel do Rio Grande do Sul no cenário brasileiro. “Se ele quisesse apenas administrar o dia a dia, acho que estaria em uma situação aparentemente melhor. Mas, do ponto de vista estratégico, estaria pior. Ele tem que preparar o governo para uma ação mais de longo prazo”, opina o ex-deputado do PT Frei Sérgio Gorgen, integrante do “conselhão” estadual.

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