Senador que foi da ALN hoje vê erro nas escolhas de Marighella

Amigo e ex-motorista do revolucionário, Aloysio Nunes Ferreira emociona-se com áudio da entrevista histórica reproduzida pelo iG

Fred Raposo, iG Brasília |

Futurapress
Ferreira era estudante de direito em São Paulo quando conheceu Marighella na sede do PCB, em meados da década de 60
Depois de ouvir o áudio de uma entrevista que Carlos Marighella deu, em 1967, a uma rádio cubana – cuja íntegra foi disponibilizada hoje pelo iG –, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), que durante a ditadura militar (1964-1985) foi companheiro do revolucionário na Ação Libertadora Nacional (ALN), aponta “equívocos” do guerrilheiro em sua avaliação da sociedade brasileira na época.

Emocionado após ouvir a voz do amigo, Ferreira diz que Marighella, assim como seus seguidores, tomaram "o desejo dele pela realidade”. “É difícil separar o carinho que tenho pela figura do Marighella, a admiração pelo patriota que ele foi, dos equívocos profundos que a entrevista revela e dos quais até compartilhei na época”, conta o parlamentar.

Ferreira assinala que o erro mais grave do ex-companheiro foi deixar de fazer “uma análise objetiva da situação brasileira”. “O povo brasileiro já era urbano, mas Marighella queria a luta rural. Imaginar que o povo iria se unir a uma ação armada é não compreender espírito brasileiro na época, que queria era o seu bem estar”, avalia.

Em meados da década de 60, Ferreira estudava direito, quando conheceu Marighella na sede do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em São Paulo. “Andava muito com ele para cima e para baixo”, lembra o tucano, que chegou a atuar como motorista do guerrilheiro. “A memória que tenho é a de um homem caloroso, bem-humorado, fascinante como intelectual e como militante”.

Além das ressalvas que faz em relação ao pensamento do revolucionário, Ferreira acrescenta que contribuíram para a manutenção do regime a pressão que o PCB e movimentos esquerdistas, como o brizolismo, exerciam pela implementação das reformas de base no país e a estratégia de propaganda da ditadura usada pelos militares.

“Houve um tensionamento tão desmesurado do quadro político, que a direita acabou se apropriando das teses democráticas”, afirma. “Com isso, o golpe teve grande apoio popular e as pessoas acabaram sendo incentivadas por uma propaganda ufanista e patrioteira, além do sucesso do milagre econômico”.

Divisão no PCB

Sobre a possibilidade de Marighella deixar o PCB, o senador recorda que a divergência do ex-companheiro com o PCB – na qual o revolucionário defendia a luta de guerrilha, ideia rejeitada pelo partido – remetia a pelo menos um ano antes da entrevista dada aos cubanos. Segundo ele, o tema foi debatido em um congresso do partido em São Paulo, em 1966.

“Esse debate acirrou as duas posições”, lembra Ferreira. “Marighella não tinha interesse de permanecer dentro do partido. Achava que a forma do partido estava superada. Acreditava que a ação revolucionária serviria de estopim para outras ações que se desenrolariam a seguir. Dentro do PCB não poderia existir divisões desse tipo”.

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