Relação entre governo e Força estremece após fala de Lula

Lí­der da Força, deputado Paulinho (PDT) fala em 'erro grave' do governo e avisa: "derrotar aliados é complicado"

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

A declaração do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva , que chamou de “oportunista” a pressão feita pelas centrais para que o governo eleve o valor do salário mínimo, deixou ainda mais estremecidas as relações entre o governo Dilma Rousseff e as lideranças sindicais.

A Força Sindical, que sob Lula passou a integrar a base de apoio ao governo petista, tomou a dianteira nas críticas à equipe econômica de Dilma, que não demonstra estar disposta a conceder reajuste maior do que os R$ 545 para o salário mínimo – as centrais sindicais exigem R$ 580.

A relação ficou mais tensa após o governo anunciar que vai enviar ao Congresso a proposta de reajuste com ou sem apoio das entidades .

Agora, ao defender a posição do governo, Lula joga o peso de sua popularidade sobre a mesa de negociação e dá respaldo para a sucessora, na avaliação de sindicalistas envolvidos na negociação.

Com isso, esvazia o discurso assumido até aqui, sobretudo pela Força Sindical, de que Dilma promovia um rompimento com o antigo líder , que deixou a Presidência com mais de 85% de aprovação. "Companheira Dilma, você que tem fazer a sua escolha como Lula fez a dele. Ele ficou conosco e deixou a Presidência com quase 85% de aprovação", pedia a Força, em nota publicada em seu site.

Com a fala de Lula , o tom adotado agora pelos sindicalistas é que essa primeira queda-de-braço o governo já venceu. Preveem, no entanto, que o clima para as futuras negociações – sobre, por exemplo, o fim do fator previdenciário, o aumento para os aposentados e a redução da jornada de trabalho – tende a ser mais pesado a partir de agora. As centrais, que também pleiteiam a correção da tabela do Imposto de Renda, foram algumas das principais apoiadoras da candidatura de Dilma Rousseff à Presidência.

“Derrotar inimigo é uma coisa. Mas derrotar aliados é complicado”, avisa o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força.

O envio da proposta de ajuste do salário mínimo para R$ 545 ao Congresso será uma espécie de teste do governo recém-empossado com sua base de apoio na Câmara e no Senado. Mas poderá provocar desgastes entre o movimento sindical, hoje aliado do governo Dilma.

Segundo Paulinho, o governo, ao tomar essa postura, perde, logo no começo, a chance de facilitar a relação com as centrais. “A relação poderia começar com um entendimento agora. É um primeiro erro grave”, afirmou.

As ameaças e a distensão com o Planalto acontecem num momento em que a Força já sinaliza uma aproximação com o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) , em São Paulo. Quem acessasse o site da entidade, na terça-feira, por exemplo, encontrava na lista de notícias um destaque para os investimentos de R$ 80 milhões anunciados pelo governo paulista para a construção de creches na capital.

AE
Guido Mantega, Carlos Lupi e Gilberto Carvalho, escaladas para participar das reuniões com as centrais sindicais
Ao mesmo tempo, a entidade anuncia que o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes vai promover, na quarta-feira (9), paralisações de até duas horas em 19 empresas, reivindicando a correção da tabela do Imposto de Renda e o salário mínimo de R$ 580.

Paulinho, que disse estar decepcionado com o começo da gestão Dilma, tenta, até o momento, preservar o ex-presidente Lula das críticas, e centrou os ataques ao ministro da Fazenda, Guido Mantega – que já foi ironizado e comparado ao tucano Fernando Henrique Cardoso em nota assinada pelo deputado.

O dirigente disse que pegou mal, entre os sindicalistas, a declaração do ex-presidente, mas afirmou que Lula se contradiz com o que havia combinado com as centrais durante a campanha.

Na ocasião, em um encontro com as lideranças, Lula chamou de “demagogia” a proposta do então presidenciável José Serra (PSDB) de elevar o salário mínimo para R$ 600.

“Ele disse que poderíamos ficar tranquilos que o governo ia dar aumento real do mínimo”, disse.

Além da Força, outras centrais também reagiram à declaração do ex-presidente. Em nota, a União Geral dos Trabalhadores (UGT) classificou a frase como “infeliz e indevida”.

Já a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) destacou, em seu site, uma declaração de seu presidente, Wagner Gomes, segundo quem Lula perdeu uma “ótima oportunidade de ficar calado”.

Até mesmo a Central Única dos Trabalhadores (CUT), aliada histórica do PT, elevou o tom contra o governo e deixou a última reunião com os ministros de Dilma, afirmando que os argumentos contra o aumento do salário mínimo – segundo os quais haveria risco de inflação e perigo fiscal – eram “fora da realidade”.

Para manter o valor do mínimo em R$ 545, o Planalto recorre ao acordo assinado pelas próprias centrais de que o reajuste deve ser calculado de acordo com a inflação e o Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes. Como 2009 a economia quase não variou, por conta da crise, as centrais pedem que haja uma exceção para este ano, lembram que banqueiros e empresários receberam incentivos no auge da crise e pedem o mesmo tratamento.

Diante da negativa do governo, as centrais passaram a ameaçar levar militantes nas ruas para pressionar o governo.

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