Quem sai do DEM para PSD é covarde e traidor, diz Onyx Lorenzoni

Único deputado federal gaúcho pelo DEM, ele prega que partido só vai sobreviver se afirmar claramente que é conservador e liberal

Daniel Cassol, iG Rio Grande do Sul |

Qual é o traço comum da maioria absoluta das pessoas que estão ingressando nessa barca do Kassab? São pessoas que querem mamar nas tetas do governo"

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, o ex-presidente de honra, Jorge Bornhausen, e todos aqueles que estão saindo do DEM e aderindo ao Partido Social Democrático (PSD) são “covardes”, na avaliação do deputado federal gaúcho, Onyx Lorenzoni.

O Rio Grande do Sul, de Onyx, é um dos poucos Estados em que o PSD não conseguiu filiar nenhum político de peso nos últimos meses.

“Quem sai do DEM hoje é covarde, porque não teve coragem, força nem principio para ficar e lutar”, diz o deputado.

Crítico da maneira como a oposição se comportou ao longo dos oito anos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva - por não ser dura o suficiente e por não ter apresentar claramente um projeto alternativo, segundo ele -  Onyx Lorenzoni admite que seu partido pode viver um período de crise que pode durar alguns anos. Mas, acredita, pode ter força nas eleições de 2014, se souber ocupar o vazio deixado pela oposição.

E quando isso acontecer, afirma o único deputado gaúcho do DEM, o partido de Kassab terá fracassado. “Como ele deixa de ser prefeito no ano que vem, quando a eleição de 2014 começar a ser travada, o senhor Gilberto Kassab será ex”, provoca.

Em entrevista concedida ao iG ,  o deputado - que foi um dos principais líderes da oposição durante a crise aérea, em 2007, afasta a possibilidade de o DEM terminar ou se fundir ao PSDB: “Só na cabeça de petista ou de pessoas que não acreditam no processo democrático”. Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

Roberto Tenório/Divulgação
Onyx Lorenzoni: "Pela palavra do seu líder maior, Gilberto Kassab, o partido não é nem de direita nem de esquerda. Não é nada, é uma coisa que não tem destino. "
iG - Até o momento, o PSD não anunciou nenhuma filiação no Rio Grande do Sul, onde o DEM conta com um deputado estadual e um federal. Por que isso acontece, na sua opinião?

Onyx Lorenzoni - No caso do DEM do Rio Grande do Sul, temos um trabalho de formação política que nós fazemos de maneira continuada há mais de dez anos, que nos dá muita consistência na questão doutrinária e ideológica. Vários políticos do partido, ex-prefeitos, ex-deputados, foram sondados, mas ninguém entrou nesta barca, porque é uma barca vazia, do interesse imediato e que não tem destino nenhum. Acho até que o leme desta barca está ruim, porque vai ter qualquer nome, menos esse. A informação que tenho é de que o nome é do PTB, que incorporou a sigla há cerca de cinco anos.

Na sua visão, o PSD não tem uma linha política definida?

O PSD é um partido de insatisfeitos. E o insatisfeito de hoje tem tudo para ser o insatisfeito de amanhã. Aqui no Rio Grande do Sul, temos uma tradição política muito forte. Gaúcho não é de misturar as ideias. Na minha opinião, esse partido vai ter muitas dificuldades no Rio Grande do Sul. Vai ter dificuldade, por uma razão objetiva. Esse partido tem que ter registro até o dia 5 de outubro, se não vai ser um dos maiores micos da história política brasileira.

Como o senhor vê a situação do DEM, que perdeu um terço de seus quadros, como o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, e o presidente de honra, Jorge Bornhausen?

Roberto Tenório/Divulgação
O deputado federal pelo DEM do Rio Grande do Sul, Onyx Lorenzoni, durante reunião na Câmara, em Brasília
Neste quadro de fragilidade política brasileira, onde as pessoas não têm mais preocupação de princípios, é a antítese do que penso na política. Eu te digo que nós, do DEM, os que ficaram, vão permanecer e vão lutar. Não está escrito em lugar nenhum que é preciso se render a fisiologismo. Eu me nego. Qual é o traço comum da maioria absoluta das pessoas que estão ingressando nessa barca do Kassab? São pessoas que querem mamar nas tetas do governo. Não acho que isso seja digno. Quanto mais o eleitor brasileiro amadurecer, mais ele vai penalizar esses políticos.

Eu prefiro fazer outro caminho. Sei que os partidos conservadores na Europa tiveram que fazer toda uma reciclagem. Passaram dez, quinze anos e voltaram ao poder. Eu acho que é isso. Temos que ficar com responsabilidade, respeitando a vontade do eleitor. Quem determina ao político qual espaço que ele vai ocupar é o eleitor. Essas pessoas que estão saindo do DEM são traidores e estão desonrando o voto que receberam. Se o eleitor soubesse que essas pessoas sairiam da oposição para ir para a base do governo, não seriam votados.

O senhor não acredita na possibilidade de extinção do DEM ou de fusão com o PSDB?

Não. Só na cabeça de petista ou de pessoas que não acreditam no processo democrático, o que não é o meu caso, para falar em extinção ou fusão. O espaço político brasileiro precisa de um partido de centro-direita, de perfil liberal claro. Isso precisa existir. O PSDB hoje é um partido de centro-esquerda. Brinco com meus amigos petistas que nada é mais parecido com um tucano do que um petista no poder.

Na última eleição, quase não se conseguia distinguir a diferença entre Serra e Dilma . Por isso o desempenho do Serra no primeiro turno foi tão ruim. Se não fosse a Marina Silva não haveria segundo turno. Precisamos criar um outro espaço. O DEM nasceu com a responsabilidade de trazer novas ideias, oxigenar a vida partidária no Brasil. Tivemos tropeços, é verdade. Mas não vamos nos acovardar. Quem sai do DEM hoje é covarde, porque não teve coragem, força nem principio para ficar e lutar.

Sei que os partidos conservadores na Europa tiveram que fazer toda uma reciclagem. Passaram dez, quinze anos e voltaram ao poder. Eu acho que é isso. Temos que ficar com responsabilidade, respeitando a vontade do eleitor. Quem determina ao político qual espaço que ele vai ocupar é o eleitor. Essas pessoas que estão saindo do DEM são traidores e estão desonrando o voto que receberam”

Entre me render por oportunismo, preciso ficar lutando na trincheira que a população me mandou estar e na que acredito. Tenho compreensão de que DEM, PSDB e PPS, partidos com imensas diferenças, têm a responsabilidade de buscar pontos de identidade para cumprir o papel de oposição que a população nos deu. Mas isso não retira o fato de que somos diferentes e preservar isso é preservar espaço político na vida nacional.

O DEM precisa continuar vivo. Momentos de crise permitem que a gente reavalie nossos métodos, busque força no interior das lideranças, abra espaço para novos líderes e saia de uma oposição congressual, que é ineficaz. O partido deve ter a humildade de entender que precisa voltar para a rua, ter candidato à Presidência da República e levantar novas bandeiras. Se tivermos a humildade de enfrentar esse desafio, retornamos na eleição de 2014 com muita força.

Houve muitos erros no DEM?

Sem dúvida. Inclusive, no momento da própria criação do DEM, quando muitas pessoas que criaram não tiveram a humildade de consultar a base do partido. Foi feito de cima para baixo.

A mudança foi ruim?

Talvez hoje, a analise é de que a mudança era desnecessária. Eu preferia ficar com o “liberal” no nome. Não tenho o medo de enfrentar o debate. As teses liberais fazem bem para o País. Tanto fazem bem que, durante 15 anos, o PT demonizou as privatizações. Mas a solução encontrada para resolver minimamente o problema da infraestrutura aeroportuária foi privatizar.

A máscara do PT caiu, porque privatização não é princípio ideológico, é instrumento de gestão. Até posso concordar que, lá atrás, a forma como as privatizações foram feitas tiveram equívocos. Mas não nos princípios. Na crise financeira de 2008 e 2009, a saída encontrada pelo PT na presidência foi o velho discurso liberal, reduzir impostos.

Divulgação
Onyx acha que o PSD não terá sucesso no Rio Grande do Sul: "Temos uma tradição política muito forte. Gaúcho não é de misturar as ideias"
Com a aprovação do governo Lula e a vitória de Dilma, muito se disse que a oposição deveria abrandar seu discurso. O senhor defende o contrário?

Mas claro, por uma razão bem objetiva. Qual foi a razão do fracasso do Serra? Será que o PSDB não aprende? A razão do fracasso deles foi querer ser parecido. Entre o original e o genérico, o eleitor é mais sábio que os sábios e vota no original.

No momento em que o Geraldo Alckmin se apresenta como uma alternativa um pouco mais descolorida que o Lula ou que o Serra se apresenta como um gestor mais preparado que a Dilma, o eleitor não é bobo. Entre não ter nada a ganhar e muito a perder, o eleitor ficou com o original. No segundo turno, quando se acirra... aí me lembro de um evento de campanha em Porto Alegre, quando alguém disse que, se tivéssemos feito oposição nos quatro anos como havíamos feito nos últimos quatro meses, o resultado seria diferente. Eu vi a cabeça do Serra balançando. Ele concordou, porque se deu conta tardiamente de que vacilou no passado. A minha proposta do DEM é que, ao contrário de buscar reproduzir o governo petista, mostre que o Brasil tem outro caminho, muito melhor.

No Rio Grande do Sul, uma eventual aliança com o PSDB nas eleições municipais não seria difícil, em razão da relação conflituosa do seu partido com o governo de Yeda Crusius?

O problema do DEM no governo anterior jamais foi com o PSDB. Nossa relação sempre foi excelente. Nosso problema tem nome e sobrenome: Yeda Rorato Crusius, e sua falta de caráter e de palavra. Só esse. Tanto que agora com o Nelson Marchezan Jr. (deputado federal) como presidente do PSDB estadual, nossa relação é cotidiana. Somos amigos pessoais, os comandos dos dois partidos têm afinidades. Caminhar ao lado do PSDB é muito tranquilo. Nosso problema não existe mais, porque a ex-governadora, na eleição para o diretório do PSDB, fez 10% dos votos. Portanto, 90% do partido tem discordância dos métodos dela, e assim temos 90% de chances de caminharmos juntos nas próximas eleições.

Eu não acredito nesse partido do Kassab. Primeiro, porque não vai ter esse nome. Vai ser o “partido do Kassab”. E como ele deixa de ser prefeito no ano que vem, quando a eleição de 2014 começar a ser travada, o senhor Gilberto Kassab será ex. E ex é ex, foi um dia, mas ficou na história”

Mas o senhor sempre fez críticas à atuação do PSDB como oposição.

A minha crítica foi ao método utilizado enquanto oposição, no governo Lula e nas campanhas. Quando se é companheiro de jornada, isso não significa ser submisso. Tem que apontar os erros na frente. Quando o PSDB precisou, até placa mandei fazer para o Serra. O que quero é buscar solução, que essa relação de parceria continue entre o PSDB, o DEM e o PPS. Eu vou lutar e estou disposto a enfrentar qualquer debate para manter o DEM de pé.

Mas não existe uma corrente interna no DEM que defende a fusão com o PSDB?

Quem defende a fusão do DEM com o PSDB não respeita os 44 milhões de votos contrários ao governo Lula e não entende nada de política. Não podemos misturar o partido social democrata com o partido de inspiração conservadora e liberal. Isso não faz sentido. Além disso, não há na história do Brasil uma fusão de duas grandes forças políticas, nunca aconteceu desde 1950 para cá. Não tem por que acontecer agora. A oposição precisa se multiplicar, não diminuir. Tem que trabalhar junto, mas sem perder a identidade.

Pelo o que o senhor fala, seu prognóstico é de que o DEM se fortaleça e o PSD fracasse?

Eu não acredito nesse partido do Kassab. Primeiro, porque não vai ter esse nome. Vai ser o “partido do Kassab”. E como ele deixa de ser prefeito no ano que vem, quando a eleição de 2014 começar a ser travada, o senhor Gilberto Kassab será ex. E ex é ex, foi um dia, mas ficou na história.

Ele ficaria cerca de dois anos sem um cargo.

Pois é. E se concorrer a governador de São Paulo, a tendência é que fique mais quatro anos.

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