Quadra de deputados vira set de filmagem de 'Faroeste Caboclo'

Bloco na 111 Sul foi modificado para ambientar encontro entre João do Santo Cristo e Maria Lúcia, da música do grupo Legião Urbana

Fred Raposo, iG Brasília |

João do Santo Cristo já era bandido, destemido e temido no Distrito Federal. Mas até então nunca tinha passado perto de um apartamento de deputado federal. Pois há menos de dois meses foi exatamente o que o anti-herói da música “Faroeste Caboclo”, do grupo Legião Urbana, fez para escapar da polícia: usou o Bloco I, da quadra 111 Sul, em Brasília, onde ficam residências da Câmara dos Deputados, como rota de fuga. Depois, escalou um ar condicionado do prédio vizinho e voou janela adentro.

João do Santo Cristo já foi coroinha, delinqüente juvenil, aprendiz de carpinteiro, ladrão, traficante e peixe de ascendente escorpião. Mas nunca um personagem real. Criação da mente do letrista e músico Renato Russo, João é materializado nos dias de hoje nas redondezas da 111 Sul apenas porque sua estória vai virar filme homônimo à canção do Legião, previsto para ser lançado no ano que vem.

Na versão cinematográfica, é ali, ambientado numa Brasília oitentista, que João do Santo Cristo (Fabricio Boliveira) encontra pela primeira vez Maria Lúcia (Isis Valverde), seu par romântico. "A Maria Lúcia morava no apartamento 101 do Bloco H", explica a produtora Larissa Rolim.

"Mas ocorreram várias cenas no prédio vizinho, da Câmara, por ser um dos poucos edifícios originais da década de 80". Em Brasília, foram selecionadas 20 locações, alternadas entre as cidades satélites e o Plano Piloto. Outras tantas foram filmadas na Bahia. Mas a quadra 111 Sul acabou sendo considerada a “menina dos olhos” da produção do filme.

Do chão de mármore da portaria às luminárias do prédio e fechaduras dos apartamentos, sua arquitetura mantém as mesmas características de quando o bloco foi construído, em 1969. A quadra foi levantada pelos institutos que na época cumpriam o papel que hoje cabe à Previdência Social.

Após ficarem prontos, a União cedeu os blocos G e I para servir de moradia para os parlamentares. Eles são alguns dos poucos imóveis que a Câmara que não têm planos de reformar.

Larissa conta que se cogitou rodar as cenas da quadra 111 Sul na 308 Sul. Lá, os edifícios também são originais. "Mas não havia espaço entre os prédios para filmar a cena de perseguição", assinala a produtora. Ela explica que a pré-produção do filme levou cinco meses.

Dois dias de filmagem foram dedicados ao bloco dos deputados. Um domingo de abril e uma sexta-feira de maio. As datas foram escolhidas a dedo. Tinham que ser dias de menor movimentação, de preferência quando parlamentares e moradores estivessem fora dos apartamentos.

“A mobilização é na quadra inteira. Muda a rotina das pessoas”, conta Larissa. "Deixamos a luz da quadra de esportes acesa durante a noite. Para ajudar nas filmagens, alguns moradores acendiam as luzes da sala e iam dormir no quarto ao lado”.

Do BMW ao Opala

A paisagem também mudou. Mercedes, BMWs e Audis deram lugar a Opalas, Brasílias, Corcéis e outros veículos "de época". Orelhões telefônicos da quadra foram removidos temporariamente, simplesmente porque não existiam ali há 30 anos. O que não dava para ser retirado, como as câmeras de vigilância e o computador da cabine na portaria, desaparecia com alguns movimentos de câmera.

A previsão é que a filmagem seja concluída no fim de julho e o filme chegue aos cinemas no início de 2012. Aí então quem sabe, ao ter sua história contada em centenas de salas escuras e refrigeradas do país, João do Santo Cristo consiga finalmente levar sua mensagem à presidenta. E assim ajudar toda essa gente que só faz sofrer.

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