Segundo o partido, empresa que contratou consultoria de Palocci recebeu restituição de crédito após fazer doação para campanha

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Com dados obtidos no sistema que registra os pagamentos feitos pelo governo federal, o PSDB apontou uma triangulação entre a liberação de recursos da Receita Federal para a empresa WTorre, para a qual o ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, prestou consultoria, e a doação de campanha para a então candidata Dilma Rousseff . O partido levanta essa suspeita com base nas datas de pagamento. A oposição recorreu ao Ministério Público na semana passada pedindo investigação de suposta prática de crime do ministro com base no crescimento de seu patrimônio pessoal e apuração de suposto tráfico de influência.

A WTorre protocolou, em 2009, um pedido de restituição de crédito de R$ 6.259.531, referente ao Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) de 2007. O processo ficou parado até véspera das eleições do ano passado, quando a empresa protocolou novo pedido de crédito, no valor de R$ 2.920.770, referente ao IRPJ de 2008. No mesmo dia em que a WTorre entrou com o segundo pedido, dia 24 de agosto de 2010, a empresa fez uma doação de R$ 1 milhão ao comitê financeiro nacional do PT para Presidente da República. O mesmo valor de doação foi repetido 17 dias depois, em 10 de setembro.

Deputado Duarte Nogueira discursa da tribuna do plenário sobre novas denúncias contra Palocci
AE
Deputado Duarte Nogueira discursa da tribuna do plenário sobre novas denúncias contra Palocci
Em contrapartida, aponta o PSDB, a empresa teve o dinheiro liberado em tempo mais rápido do que o comum. Em 43 dias, o recurso previsto nos dois processos, somando quase R$ 10 milhões, foi liberado de forma seguida por uma mesma funcionária, com a diferença de quatro minutos apenas. O sistema de pagamento do governo registra duas ordens bancárias emitidas para a empresa no dia 6 de outubro de 2010, três dias após o primeiro turno eleitoral.

O PSDB questiona se foi a consultoria "milagrosa" do ministro, arrecadador da campanha da presidente Dilma, que fez com que a empresa recebesse o dinheiro em poder da Receita Federal. "Que empresa consegue ter o processo na Receita analisado e liberado em 43 dias? O outro processo estava parado havia quase um ano e, no dia do protocolo, a empresa fez doação de R$ 1 milhão", ressaltou o deputado Fernando Francischini (PSDB-PR), que divulgou as cópias dos registros do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi), dos protocolos e de doação de campanha, sobre a coincidência de datas.

"A população quer respostas e o homem público não tem vida protegida por sigilo", disse o tucano. "A presidente Dilma deve dar uma ordem a Palocci, antes que a sujeira que ronda a Casa Civil chegue ao gabinete dela", completou.

O líder do partido na Câmara, Duarte Nogueira (PSDB-SP), afirmou que essa é uma demonstração clara da necessidade de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista para investigar o aumento de patrimônio do ministro Palocci nos últimos quatro anos e a atuação de sua empresa, a Projeto. "As provas são muito fortes e o assunto precisa ser investigado", disse. "Existem indícios muito consistentes de triangulação de interesses empresariais, devolução de recursos da Receita Federal, incluindo a WTorre e empresa de consultoria do ministro Palocci com vinculação de suposto envolvimento de doação", afirmou Nogueira. 

Paralelamente à busca de assinaturas para a criação de uma CPI mista, com deputados e senadores, o líder tucano protocolou uma proposta para que a Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara realize uma apuração nos pagamentos realizados à empresa WTorre pela delegacia da Receita Federal de Administração Tributária de São Paulo, vinculada ao Ministério da Fazenda. 

O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), procurou desqualificar as suspeitas levantadas pelo PSDB. "Isso é ridículo. Não vou comentar um assunto que não tem pé nem cabeça", reagiu. "Não existe nenhum problema a WTorre ter como consultor o ministro Palocci e ter contribuído para a campanha do PT. É procurar chifre em cabeça de cavalo", disse Vaccarezza.

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