Insatisfação com titular dos Transportes, imposto por Dilma, cresce à medida que sigla se distancia da base governista

Protagonista da crise que atingiu o Ministério dos Transportes, o Partido da República (PR) já discute a desfiliação do titular da pasta, o ministro Paulo Sérgio Passos. Imposto pela presidenta Dilma Rousseff , Passos não teve o aval dos caciques da legenda para assumir o ministério. Mas o desconforto dos parlamentares da sigla com o ministro vem crescendo, nas últimas semanas, à medida que o PR se distancia da base do governo.

A desfiliação de Passos chegou a ser debatida na reunião da bancada, na casa do vice-líder governista, deputado Luciano Castro (RR), na noite de terça-feira. Participaram do encontro 36 dos 40 deputados do partido, além dos sete senadores - incluindo João Ribeiro (TO), licenciado do mandato por motivos de saúde.

O iG apurou que, na reunião, a insatisfação com Passos rachou o partido. Parlamentares reclamam que a “faxina” nos Transportes demitiu ou afastou pelo menos 24 funcionários ligados ao PR, além do próprio ex-ministro Alfredo Nascimento, mas sequer arranhou Passos. Também se queixam de que o ministro, incentivado por Dilma, teria se empenhado para promover a “limpeza” na pasta.

Ao final do encontro, que segundo relatos foi marcado por arroubos “emotivos” e “acalorados”, a bancada optou por aguardar a reunião da Executiva Nacional do partido, a ser marcada para os próximos dias, que deve decidir o destino do ministro na sigla.

Embora evitem falar abertamente em expulsão, alguns parlamentares admitem desconforto com Passos. “O termo expulsão é forte. Talvez fosse mais no sentido de afastamento, algo temporário”, diz o senador Blairo Maggi (MS). “Mas o fato é que ele não representa o PR no governo. Acho que ele deveria tomar a iniciativa e deixar a sigla por conta própria”.

O líder do PR, deputado Lincoln Portela (MG), minimizou a insatisfação da sigla com Passos. “A reunião foi apenas consultiva. Houve parlamentares que, no calor da discussão, defenderam a desfiliação. Mas foram só uns dois ou três que se manifestaram no sentido de tirá-lo do partido”, afirma o líder.

Portela se diz contrário à expulsão de Passos, por não haver “comprovação de que ele infringiu as regras do partido”. Mas o responsabiliza pela crise que derrubou Alfredo Nascimento. “A fraude de R$ 18 milhões, que está sendo investigada, aconteceu nos dez meses em que o Nascimento estava fora da pasta. Neste período, quem comandou o ministério foi o Passos”.

"Não seremos oposição", diz líder

A situação do ministro no partido vem se agravando conforme cresce a insatisfação dos parlamentares com próprio governo. O PR considera que o governo usa “dois pesos e duas medidas” na forma como lida com as crises. Entende que Dilma foi mais dura com a pasta controlada pela sigla do que com outros ministérios, que também foram alvo de denúncias.

Sinal do distanciamento do PR com a base é que, na terça-feira, Lincoln Portela não compareceu ao almoço da liderança governista com legendas aliadas. Sequer justificou a ausência ao governo. “Há uma tendência de sairmos da base”, diz o líder. “Vamos definir isso até a semana que vem, na reunião da Executiva. Mas é certo que não seremos oposição”.

Para o deputado Luciano Castro, a reunião da bancada ficou marcada pela “contestação” ao governo. “O uso de dois pesos e duas medidas repercutiu dentro do partido”, diz o vice-líder governista. “Fica o sentimento de que o governo não quer o PR”.

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