Pesquisadora identifica 150 mil endereços IP de brasileiros que baixaram pelo menos 100 arquivos de páginas neonazistas na web

A guerra deflagrada entre skinheads de extrema direita e também skinheads antifacistas nas ruas de São Paulo pode se transformar em um problema de segurança pública. A opinião é da antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, que pesquisa desde 2001 as atividades dos grupos de intolerância no Brasil.

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“Enfrentamentos deste tipo já aconteceram em São Francisco, Nova York, no sul da Espanha e, em menor escala, aqui mesmo em São Paulo”, disse Adriana. “Como estes grupos elevam o ódio à categoria de sentimento mais importante, os grupos rivais decidiram que deveriam partir para o confronto para impedir que este tipo de pensamento se alastre. Isso acaba se tornando um grande problema de segurança pública”, completou.

Segundo Adriana, autora de uma tese sobre o tema em 2007, a política ocupa papel central nos confrontos violentos como o que levou à morte do punk Johni Raoni Falcão Galanciak, na madrugada do dia 4 de setembro .

“Tudo isso é absolutamente político. O nazismo sempre foi uma questão política. Até me assusta quando as pessoas querem despolitizar alguns fatos alegando, por exemplo, que é uma questão de opinião. Racismo não é opinião. É uma emoção contundente e violenta. O embate tem que ser feito na arena política e não nas ruas”, disse ela.

Segundo Adriana, a polarização entre grupos que se declaram de extrema direita contra os antifascistas nas ruas de São Paulo é uma sequela do embate político sobre temas como aborto, legalização das drogas, união civil homossexual e a revisão histórica da ditadura militar, escancarado na reta final do primeiro turno da eleição presidencial do ano passado. “Estes grupos reagem de forma violenta quando o objeto do debate são os direitos civis. O que estes grupos fazem com os gays nas ruas e avenidas de São Paulo , por exemplo, é uma forma de genocídio”, afirmou Adriana.

Segundo ela, não existe comprovação formal de que os grupos tenham vínculos com partidos políticos de direita ou esquerda. “O que podemos dizer é que alguns integrantes são filiados a partidos e algumas siglas como o Prona, por exemplo, têm mais tolerância com este tipo de pensamento”.

Rastreamento online

Em sua pesquisa sobre o uso da internet por grupos de intolerância racial, a antropóloga identificou pelo menos 150 mil endereços IP (protocolos de internet, na sigla em inglês) de brasileiros que baixaram pelo menos 100 arquivos de páginas neonazistas. O site Valhala88 (o número 88 é uma referência às letras HH, da saudação nazista heil Hitler), desativado em 2007, chegou a receber 200 mil visitas diárias no Brasil.

Em entrevista ao iG , a delegada Margarete Barreto, da Delegacia de Crimes Raciais e de Intolerância (Decradi), disse que a polícia mapeia os sites de skinheads e tem agentes infiltrados nas gangues, mas admite que nem sempre é possível evitar confrontos como o que matou Johni Raoni.

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