Política tem papel central em brigas de skinhead, diz antropóloga

Pesquisadora identifica 150 mil endereços IP de brasileiros que baixaram pelo menos 100 arquivos de páginas neonazistas na web

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

A guerra deflagrada entre skinheads de extrema direita e também skinheads antifacistas nas ruas de São Paulo pode se transformar em um problema de segurança pública. A opinião é da antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, que pesquisa desde 2001 as atividades dos grupos de intolerância no Brasil.

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“Enfrentamentos deste tipo já aconteceram em São Francisco, Nova York, no sul da Espanha e, em menor escala, aqui mesmo em São Paulo”, disse Adriana. “Como estes grupos elevam o ódio à categoria de sentimento mais importante, os grupos rivais decidiram que deveriam partir para o confronto para impedir que este tipo de pensamento se alastre. Isso acaba se tornando um grande problema de segurança pública”, completou.

Segundo Adriana, autora de uma tese sobre o tema em 2007, a política ocupa papel central nos confrontos violentos como o que levou à morte do punk Johni Raoni Falcão Galanciak, na madrugada do dia 4 de setembro .

“Tudo isso é absolutamente político. O nazismo sempre foi uma questão política. Até me assusta quando as pessoas querem despolitizar alguns fatos alegando, por exemplo, que é uma questão de opinião. Racismo não é opinião. É uma emoção contundente e violenta. O embate tem que ser feito na arena política e não nas ruas”, disse ela.

Segundo Adriana, a polarização entre grupos que se declaram de extrema direita contra os antifascistas nas ruas de São Paulo é uma sequela do embate político sobre temas como aborto, legalização das drogas, união civil homossexual e a revisão histórica da ditadura militar, escancarado na reta final do primeiro turno da eleição presidencial do ano passado. “Estes grupos reagem de forma violenta quando o objeto do debate são os direitos civis. O que estes grupos fazem com os gays nas ruas e avenidas de São Paulo , por exemplo, é uma forma de genocídio”, afirmou Adriana.

Segundo ela, não existe comprovação formal de que os grupos tenham vínculos com partidos políticos de direita ou esquerda. “O que podemos dizer é que alguns integrantes são filiados a partidos e algumas siglas como o Prona, por exemplo, têm mais tolerância com este tipo de pensamento”.

Rastreamento online

Em sua pesquisa sobre o uso da internet por grupos de intolerância racial, a antropóloga identificou pelo menos 150 mil endereços IP (protocolos de internet, na sigla em inglês) de brasileiros que baixaram pelo menos 100 arquivos de páginas neonazistas. O site Valhala88 (o número 88 é uma referência às letras HH, da saudação nazista heil Hitler), desativado em 2007, chegou a receber 200 mil visitas diárias no Brasil.

Em entrevista ao iG , a delegada Margarete Barreto, da Delegacia de Crimes Raciais e de Intolerância (Decradi), disse que a polícia mapeia os sites de skinheads e tem agentes infiltrados nas gangues, mas admite que nem sempre é possível evitar confrontos como o que matou Johni Raoni.

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