Para preservar Dilma, PT enterra debate político

Temas polêmicos e discussões sobre o governo ficarão fora da primeira reunião do Diretório Nacional petista no novo governo

Andréia Sadi, Clarissa Oliveira e Ricardo Galhardo |

Decidido a evitar que disputas internas dificultem os primeiros meses da presidenta Dilma Rousseff no cargo, o PT enterrou o debate político em sua primeira reunião desde o início do novo governo. Tradicional palco de discussões sobre os rumos do partido, o Diretório Nacional petista vai reunir seus 81 membros no próximo dia 10 de fevereiro sem qualquer pretensão de tirar do encontro uma resolução crítica sobre as linhas de ação esperadas da administração federal.

O objetivo é evitar que se repita o que ocorreu no início do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva , quando as principais críticas ao governo – centradas e temas como a política econômica e as taxas de juros – partiram do próprio PT. No máximo, as correntes internas vão negociar previamente a divulgação de uma resolução política única (no pior dos cenários majoritária), com caráter basicamente protocolar.

Agência Estado
Tradicionalmente, reuniões do PT são marcadas pelo debate amplo. Na foto, Maria da Conceição Tavares, José Dirceu e Lula, e reunião no fim da década de 90
Tradicionalmente, a reunião do Diretório Nacional petista dura cerca de dois dias e é precedida por um encontro da Executiva Nacional. Desta vez, ela não vai durar sequer um dia – ocupará somente a manhã do dia 10, enquanto a parte da tarde será dedicada à cerimônia que devolverá a Lula o título de presidente de honra do partido .

“Vai ser só festa”, disse o secretário nacional de Organização, Paulo Frateschi. Lula já confirmou presença no evento. Dilma também foi convidada, mas até agora não há garantia de que ela vá comparecer.

O caráter meramente festivo contrasta com o primeiro encontro do Diretório Nacional do PT depois da posse de Lula. Realizado em um hotel em São Paulo na segunda quinzena de abril de 2003, o encontro foi marcado por fortes críticas dos radicais petistas à política econômica "conservadora" do então ministro da Fazenda Antonio Palocci, às altas taxas de juros e à escolha do ex-banqueiro Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central.

Embora na época o partido fosse dominado pela extinta corrente Campo Majoritário – que hoje leva o nome Construindo um Novo Brasil e da qual o próprio Lula era integrante –, a resolução política aprovada naquela reunião não economizou críticas ao governo. Apontou, por exemplo, falhas na gestão do programa Fome Zero, concebido para ser a principal vitrine do primeiro governo Lula.

As críticas levaram à queda do então ministro José Graziano e à substituição do Fome Zero pelo Bolsa Família, sob o comando de Patrus Ananias. Na época as críticas eram lideradas por um grupo de parlamentares entre os quais estavam a ex-senadora Heloísa Helena e os deputados Luciana Genro e Chico Alencar que, em 2005, deixaram o PT para fundar o PSOL.

Membro do Diretório Nacional e coordenador da CNB, Francisco Rocha, o Rochinha, diz que se dispõe até mesmo a votar contra a divulgação de uma resolução política aprofundada sobre o atual governo, caso algum setor do partido decida incluir o tema na pauta da reunião. “Este governo está começando agora. A minha avaliação é a de que ninguém no partido está preparado para fazer um debate desses neste momento”, disse.

Sem polêmica

Na pauta da reunião, os maiores destaques ficarão por conta de temas como a recomposição da Executiva Nacional - nomes como os ministros José Eduardo Cardozo e Iriny Lopes deixaram a instância para integrar o ministério de Dilma. "Temos uma série de deliberações formais para tomar/marcar, como substituir pessoas da Executiva que foram ocupar cargos no governo, marcar a data do encontro nacional dos delegados que vai discutir mudança no estatuto do PT”, disse o presidente do PT, José Eduardo Dutra.

Agência Estado
Discussão sobre possível volta de Delúbio foi retirada da pauta
Mas todo o debate sobre questões potencialmente polêmicas está sendo empurrado para frente. Algumas discussões políticas poderão ocorrer na segunda reunião do Diretório Nacional, em abril, embora qualquer assunto que possa alimentar as disputas internas ficará para setembro, quando o PT realizará um Congresso Nacional Extraordinário.

É o caso da reincorporação do ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares, que foi expulso em 2005 no auge da crise do mensalão e retomou nas últimas semanas a articulação para voltar aos quadros petistas. Como o iG revelou no último dia 15, o ex-tesoureiro já começou a receber o apoio de colegas de partido . Ontem, o secretário de Comunicação do PT, André Vargas, disse ao iG que Delúbio foi "injustiçado" e tem o direito de voltar a militante . Chegou a se falar em analisar o caso na reunião de fevereiro, mas o assunto foi retirado da pauta.

 Além disso, o diretório deve confirmar a decisão da Executiva Nacional de adiar para depois de setembro o processo de escolha dos novos coordenadores dos setoriais petistas. Divididos por temas como reforma agrária, transportes e cultura, os setoriais são dominados hoje pelos movimentos sociais e se transformaram nos últimos espaços para os chamados radicais do PT.

Temas como a dívida de R$ 27 milhões herdada da campanha de Dilma também devem ser abordados superficialmente, na melhor das hipóteses. O aperto nas finanças, entretanto, se refletiu no formato do evento. A ideia é organizar um ato sem pompa, no teatro do Sindicato dos Bancários, em Brasília. De acordo com Rocha, o local tem capacidade para 400 pessoas. "Mas vai ficar gente em pé com certeza", disse o dirigente.

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