Para ex-presidentes do PT, cargo é sinônimo de desgaste e pressão

Desde o escândalo do mensalão, ocupantes do cargo que hoje é de José Eduardo Dutra sofreram com exigências da função

Andréia Sadi, iG Brasília |

Em meio a expectativas para uma renúncia do presidente do PT, José Eduardo Dutra, o partido tende a recomeçar neste fim de semana um processo espinhoso: a escolha do novo presidente da legenda. Responsável pela ponte entre o governo e as demandas do partido, o cargo de presidente do PT exige dedicação integral e passou a ser um desafio de equilibrista. No poder há mais de oito anos, o PT balançou durante crises e escândalos que derrubaram e afastaram seus dirigentes. Ao relembrar a temporada no cargo, os ex-presidentes são unânimes: a tarefa é árdua, desgasta, pressiona e exige dedicação integral.

"Ser presidente do PT é caminhar no fio de navalha", resume ao iG o ex-presidente do partido José Genoino, hoje assessor especial do Ministério da Defesa. Presidente do partido quando estourou a maior crise do governo Lula , o escândalo do mensalão, em 2005, Genoino foi acusado de envolvimento nas denúncias de corrupção e renunciou. "Foi uma época muito difícil porque fui atacado pelo que eu era e não pelo que eu fiz. Não fiz nada ilegal. A presidência do PT é um posto de muita visibilidade ", afirma Genoino.

Sua renúncia foi anunciada durante reunião do Diretório Nacional, no dia 9 de julho de 2005, no Hotel Braston, em São Paulo. O partido estava disposto a apoiar o então presidente, mas foi surpreendido com a notícia de que José Adalberto Vieira da Silva - assessor do irmão de Genoino, José Nobre Guimarães – havia sido preso. Silva foi detido no episódio dos "dólares na cueca" – foram aprendidos com ele R$ 437 mil em dinheiro vivo, R$ 200 mil em uma mala e US$ 100 mil escondidos na cueca.

Diante da crise, Lula precisou intervir para solucionar o problema do comando do PT. Convocou o então ministro da Educação, Tarso Genro, que assumiu interinamente. No entanto, sem apoio de setores do Campo Majoritário - nome dado na época à corrente petista Construindo um Novo Brasil (CNB), a mais forte dentro da sigla - Tarso acabou se retirando da disputa.

Sem ele, Lula apelou para Ricardo Berzoini, então secretário-geral do partido. “Fui presidente devido a circunstância, não almejei o cargo, mas foi uma experiência política incrível”, diz ele. Depois de assumir o partido abalado pela crise do mensalão, Berzoini foi atingido pelo escândalo dos “aloprados”. O apelido foi dado por Lula para descrever petistas presos em 2006, tentando comprar um dossiê para prejudicar candidatos tucanos na eleição daquele ano. O caso chegou perto do círculo próximo ao presidente do PT, que se licenciou até que as investigações terminassem.

Alternativas

Berzoini chegou a manifestar ao PT e a Lula que não tinha interesse em disputar um novo mandato de presidente do partido. Lula tentou emplacar o nome do assessor da Presidência Marco Aurélio Garcia, que havia exercido interinamente as funções de Berzoini durante a crise dos aloprados. Mas a resistência de setores da bancada federal do partido dificultou a tarefa. A pedido de Lula, Berzoini acabou se reelegendo para o cargo em 2007, encerrando seu segundo mandato no ano passado. "Ocupar a presidência é uma atividade tensa, quem ocupa o cargo precisa saber que existe esta tensão adicional. Eu fui convencido a assumir o cargo", avalia Berzoini.

Quando o PT teve de substituir o deputado, nomes como Luiz Dulci e Gilberto Carvalho foram sondados, mas não convencidos. Dulci recusou o convite. Já o veto a Carvalho partiu de Lula, que preferia ver seu chefe de gabinete envolvido na campanha para eleger Dilma Rousseff .

Ex-presidente da Petrobas e da BR Distribuidora, José Eduardo Dutra colocou-se à disposição do partido. Ele renunciou ao cargo na estatal em agosto de 2009 e foi eleito em novembro. Empossado em fevereiro de 2010, ele brincou com a troca ao dizer que, ao abrir mão do salário na estatal, sua mãe o perguntou se "ele não tinha juízo".

Arquivo/US
Berzoini precisou se afastar do cargo por causa da crise dos aloprados e chegou a pedir para não disputar novo mandato
Negociações

Dutra é citado pelos amigos como um dos responsáveis pelo sucesso da campanha de Dilma. Para se dedicar integralmente ao cargo, abandonou a candidatura a deputado federal e acumulou a coordenação da campanha com a presidência do PT. Aceitou, no entanto, a vaga de primeiro suplente do senador Antonio Carlos Valadares (PSB). Quando Dilma foi eleita, a especulação era a de que Valadares seria promovido a ministro para abrir vaga a Dutra no Senado, o que não aconteceu. Segundo petistas, Dutra teria ouvido que aceitar a vaga seria “entrar no Senado pela porta dos fundos".

Dutra compôs a coordenação da campanha com Antonio Palocci e José Eduardo Cardozo e ficou responsável, principalmente, por responder aos ataques da oposição durante a campanha eleitoral. Bem-humorado, o presidente do PT usava diariamente o Twitter para rebater a críticas, mas abandonou o microblog após pedir licença do cargo, em março passado.

Um pouco antes do afastamento, uma das últimas aparições públicas de Dutra foi durante o carnaval nas ruas do Rio de Janeiro, nos principais blocos da festa, como o Boi Tá tá e Bola Preta. Dutra tem uma filha que mora na cidade. Em Minas Gerais, mora sua mãe, Dona Clóris, que completou 80 anos no mês passado. Dona Clóris é paciente da médica Marisa Andrade Chaves, 62 anos , que estudou com Dilma no primário.

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