Pagot promete abrir sigilo para comissão da Câmara

Ao falar mais uma vez ao Congresso sobre crise nos Transportes, diretor afastado do Dnit voltou a negar denúncias de corrupção

Severino Motta, iG Brasília |

Depois de prestar ontem um depoimento morno por quase cinco horas no Senado, o diretor afastado do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antônio Pagot, comprometeu-se hoje a assinar um documento abrindo seu sigilo bancário e fiscal para a Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara. Em novo depoimento, Pagot aceitou assinar documento encaminhado pelo deputado Vanderlei Macris (PSDB-SP) sobre o assunto. Ontem, Pagot já havia dito que seus sigilos estavam abertos para órgãos de fiscalização, mas não assinou nenhum termo nesse sentido.

Agência Senado
Pagot manteve tom técnico durante depoimento que deu nesta terça-feira ao Senado
Na audiência de hoje, ele respondeu a perguntas sobre seu patrimônio pessoal e disse ser proprietário de uma pequena área em Itacoatiara, no Amazonas. "Lá não é possível se criar nem 20 cabeças de gado. E metade eu doei para a Cooperativa de lá". O diretor afastado do DNIT também falou que atua na compra e venda de gado, mesmo sem possuir fazenda. "Ou comprava boi ou comprava terra. Eu compro os bois e engordo na propriedade de terceiros e atuamos como meieiros", disse.

Ele afirmou que, no ano passado, possuía cerca de 2 mil cabeças de gado, sendo que metade foi vendida. "Tudo isso consta do meu imposto de renda", afirmou. Pagot ainda rebateu acusações sobre seu envolvimento com factorings. Ele alegou que seu irmão, José Carlos Pagot, passou por dificuldades financeiras e teve que recorrer a empréstimos nesse tipo de empresa. "Muitos confundem meu irmão comigo na hora de fazer essas denúncias", disse.

Durante a audiência, o deputado Fernando Francischini (PSDB-PR) - que é delegado e foi o responsável por questionar o patrimônio de Pagot, alegando que as fazendas e negócios com factorings seriam alvo da imprensa na semana que vem - disse que o diretor afastado está com a vida em risco e perguntou se ele não aceitaria ingressar num programa de proteção a testemunhas para revelar o suposto esquema de fraude nos Transportes. Pagot responder. Francischini, por sua vez, não insistiu no tema.

Denúncias

O diretor afastado do Dnit voltou a negar a existência de um esquema de corrupção no Ministério dos Transportes e passou cerca de uma hora explicando a estrutura do DNIT e como são realizadas as licitações e execução das obras. De acordo com ele, há "muitas vezes a mudança do escopo", sendo verificada a instalação de pólos-industriais ou investimentos em determinadas regiões. "Com isso se precisa criar uma nova rotatória, uma pista lateral, entre outras coisas", explicou.

 Sobre a decisão da presidenta Dilma de afastá-lo do cargo, Pagot emendou: "Não sei porquê não fui demitido e não estou demissionário", afirmou. Ele voltou a dizer que está em férias e que seu futuro depende da presidenta. "Não sei se não estarei ( demitido ) quando voltar de férias", disse.

Durante a audiência, Pagot respondeu a perguntas feitas pelo seu correligionário Anthony Garotinho (PR-RJ). O deputado queria saber se Dilma errou ao afastá-lo, uma vez que todas as acusações de corrupção foram negadas, se ela agiu politicamente ou se há uma conspiração contra a cúpula do ministério dos transportes ou contra o PR. "Não é conspiração ( contra a cúpula do ministério ). Se a presidente está agindo politicamente? É política-administrativamente? É conspiração contra PR? Também não acredito nisso", disse.

Garotinho não ficou satisfeito com as repostas de Pagot e chegou a dizer que "não há crianças" na Câmara dos Deputados. "Como é possível haver corrupção, demitir o número 1 da pasta e o número 2 assumir?", questionou.

Pagot evitou entrar em polêmicas com Dilma, o ex-ministro Alfredo Nascimento e o atual, Paulo Passo. Se limitou a dizer que Passos tem grande potencial de trabalho, que não se considera traído e espera que a "CGU ( Controladoria-Geral da União ) e PF ( Polícia Federal ) joguem luz" sobre o suposto esquema de corrupção que ele diz não existir.

Mudanças

Como fez o novo ministro dos Transportes, Paulo Passos , Pagot também defendeu mudanças no processo de licitação de obras, sendo necessária a apresentação do projeto executivo, e não somente o básico, como vem sendo feito.

No início da audiência, Pagot ainda comentou que o DNIT está com seu maquinário defasado, sendo necessária uma reestruturação da parte de informática, para ampliar os mecanismos de controle no órgão. "A CGU ( Controladoria-Geral da União ) chega com computador de última geração e nós com computadores de vaga lembrança, nem memória tem", disse.

O diretor afastado também comentou que fez uma reunião com todos os superintendentes do DNIT, pedindo que qualquer ingerência ou pedido feito por políticos fosse negado e o assunto levado a ele. "Dei respaldo a eles para trabalhar da melhor maneira, com preços competitivos e obras de qualidade. Se o fiscal não trabalhou bem em sua planilha ele tem que responder, pois teve o respaldo necessário."

Pagot disse que há muita burocracia no licenciamento ambiental de obras, e que "cartéis se escondem dentro de ONGs", encarecendo os empreendimentos e "prejudicando o contribuinte brasileiro". Pagot alegou ainda que "homens e mulheres" deixaram o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) legislar, criando uma "burocracia extrema" e fazendo com que o orçamento para os "condicionantes ambientais" cheguem a 22% do valor da obra.

"Este ano gastaremos R$ 500 milhões com condicionantes ambientais. Isso atrapalha, atrasa. E não tem nada a ver com preservação ambiental, pois preservação se cumpre. Há também interferência de ONGs para que os licenciadores coloquem condicionantes, que tem encarecidos obras. Há obras de que as condicionantes ambientais custam 22% do valor total", disse.

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Ontem, Pagot já havia frustrado as previsões de que poderia abrir fogo contra o governo. Em vez disso, saiu em defesa da presidenta Dilma Rousseff e de outros membros do governo. Ele negou que Dilma tenha sido "omissa" em relação ao andamento de obras tocadas pela pasta, na época em que era ministra da Casa Civil do governo Luiz Inácio Lula da Silva . Dilma, na época, era coordenadora do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que depois se tornaria uma de suas principais bandeiras de campanha.  "A ministra-chefe da Casa Civil não foi omissa em momento algum" , afirmou.

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