Operários que construíram Congresso trabalhavam 540 horas num mês

Candangos ganhavam a partir de meio salário mínimo. Câmara levantou dados após encontrar recados de meio século escritos em laje

Fred Raposo, iG Brasília |

A descoberta de seis mensagens escritas a lápis por operários, há mais de 50 anos, revelou uma rotina exaustiva de trabalho e de baixa remuneração na construção do Congresso Nacional. Com base em recados com nomes e datas encontrados em um ex-canteiro de obras sob a cúpula da Câmara dos Deputados, a Casa fez um levantamento das folhas de pagamento de março e maio de 1959 – um ano antes da fundação da capital.

As listas de ponto, organizadas por uma empresa terceirizada da época, mostram que alguns operários trabalhavam até 540 horas por mês. Por dia, os trabalhadores somavam mais de 15 horas de serviço, se incluídas as horas extras. Há casos de operários que não tiraram um dia sequer de folga nos 31 dias em cada um dos dois meses pesquisados.

As folhas de pagamento apontam ainda que os salários variavam entre 3 mil e 6 mil cruzeiros – valor que correspondia ao salário mínimo da época. “Era pouco mas dava para viver bem, juntar um dinheirinho”, recorda Claudionor Pedro dos Santos, 72 anos, que era contratado para registrar o ponto dos funcionários.

Localizado pela Câmara, ele conta que chegou a Brasília com 18 anos, vindo de Maceió, em Alagoas. Ele diz que, entre 1957 e 1959, trabalhou 7.968 horas. “O pessoal não reclamava de nada. Havia muita solidariedade”, afirma Santos, que na época da construção de Brasília morou em um acampamento com a família. “A maioria nem com a família vinha”, diz.

A rotina do operário José Silva Guerra, um dos autores dos recados, foi 208 horas de trabalho em março, além de 98 horas extras. Na parede, ele escreveu: “Que os homens de amanhã que aqui vierem, tenham compaixão dos nossos filhos e que a lei se cumpra. Duraleques ce de Lequis. José Silva Guerra. 22/4/59”.

Brasília seria inaugurada quase um ano depois, no dia 21 de abril de 1960, após construção em tempo recorde, sob a tutela do então presidente Juscelino Kubitschek. A inscrição “Duraleques ce de Lequis”, deixada por Guerra, é uma corruptela da frase em latim “Dura Lex, Sed Lex, explica o diretor do departamento técnico da Câmara, Reinaldo Carvalho Brandão.

“Originalmente, ela quer dizer: ‘A lei é dura, mas é a lei’”, afirma Brandão. As mensagens foram descobertas, na terça-feira da semana passada, por dois funcionários da Câmara que procuravam a origem de um vazamento de água no Salão Verde. Os escritos refletem sentimentos de saudade da família e de esperança em relação ao futuro do país.

Pasta de dente

“Saudades palavra que nunca morre, quando morre, quando morre, fica arquivado no coração. Brasília 18-9-59”, anotou um operário, cuja assinatura é ilegível. “Brazilia de hoje. Brazil amanhã”, assinalou outro candango. Um terceiro recado, assinado por “Nelson”, de Goiânia, diz: “Amor palavra sublime que domina qualquer ser humano”.

Os textos foram escritos nas placas de concreto das vigas de sustentação da laje do Congresso. “Não é normal abrir um caixão perdido como esse”, ressalta Brandão. No “caixão perdido”, de aproximadamente 4 metros quadrados, foi encontrado também um tubo vazio de pasta de dente da marca “Gessy Cristal”, sabor “menta fresca” com flúor.

O presidente da Câmara, deputado Marco Maia (PT-RS), afirmou que pedirá um estudo para analisar a possibilidade de transformar o ex-canteiro de obra em um ponto de visitação turística. “É um marco histórico importante”, exalta Maia.

Direto do Ceará

Tímidos, os dois funcionários da Câmara que encontraram os escritos passaram o dia ao lado do buraco. Getúlio Dias Ferreira, 55 anos, e Francisco Alves da Silva, 36 anos, seguraram as escadas para jornalistas, historiadores, engenheiros e técnicos que entraram e saíram do ex-canteiro de obras.

Mas, em meio a tantos especialistas, talvez tenham sido os únicos a captar mais intimamente o verdadeiro significado das mensagens deixadas pelos pioneiros de Brasília. “O que mais me tocou foi o sentimento de saudade”, diz Alves, que veio para Brasília à procura de trabalho, e deixou família no Ceará. Exatamente como os candangos, há meio século.

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