Nove anos depois, começa hoje julgamento do caso Celso Daniel

Foragido, Marcos Roberto Bispo dos Santos é o primeiro suspeito de envolvimento na morte do ex-prefeito de Santo André a ir a júri

Rodrigo Rodrigues, iG São Paulo |

Quase nove anos depois do crime, a Justiça começa a julgar nesta quinta-feira o primeiro acusado pelo assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel, encontrado morto em 18 de janeiro de 2002, dois dias após de ter sido sequestrado na saída de uma churrascaria da zona sul de São Paulo.

Marcos Roberto Bispo dos Santos, de 37 anos, é apontado pela promotoria como sendo o motorista de um dos três carros que teriam sido usados no sequestro do ex-prefeito. O suspeito foi preso em março de 2002 pela equipe da delegada Elisabete Sato, da Polícia Civil de São Paulo, e permaneceu detido por oito anos, sendo solto apenas em março de 2010, graças a um habeas corpus expedido pelo ministro Marco Aurélio Mello, do STF.

Na época da prisão, Bispo confessou à polícia participação no crime. Embora a advogado de defesa Adriano Marreiro dos Santos argumente que a confissão tenha sido feito mediante tortura na sede do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) em São Paulo, é com base nela que o promotor Francisco Cembranelli pretende demonstrar aos jurados a culpa do acusado.

Agência Estado
Celso Daniel foi encontrado morto em janeiro 2002
“Além de conduzir o veículo, ele também esteve na cena onde o prefeito foi encontrado morto”, disse Cembranelli, que ganhou notoriedade ao atuar no caso Isabela Nardoni, que condenou a pai e a madrasta da menina jogada do sexto andar de um prédio.

A pena mínima prevista para o réu é de 12 anos de prisão e a máxima é de 30 anos. Para conseguir elevar a pena de Bispo, o promotor sustentará a tese de que o crime foi encomendado mediante recompensa. Nesse caso, pesará contra Bispo a acusação de homicídio triplamente qualificado. Os outros dois crimes são emprego de recurso que impossibilitou a defesa da vítima, além da tese de que o crime foi cometido para encobrir outro: o desvio de recursos dentro da prefeitura petista.

Esquema de corrupção

O Ministério Público de São Paulo também sustenta que Celso Daniel foi vítima de uma organização criminosa comandada por Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, que desviava dinheiro público da Prefeitura de Santo André para sustentar campanhas políticas do PT da cidade e favorecer empresários e políticos.

Na versão de Cembranelli, a morte de Celso Daniel teria sido encomendada após o ex-prefeito ter decidido denunciar o esquema de desvios. “Existem várias referências nos autos do processo sobre esse esquema de corrupção em Santo André. Não acredito que o júri irá desconsiderar isso na hora de fazer o julgamento”, disse o promotor.

O advogado de defesa, Adriano Marreiro dos Santos, refuta as afirmações de Cembranelli e diz que o inquérito presidido pela Polícia Civil de São Paulo apontou prática de crime comum no assassinato do ex-prefeito. “A promotoria diz que não aceita as conclusões da Polícia Civil sobre crime comum, mas utiliza uma confissão mediante tortura desse mesmo inquérito para dizer que meu cliente confessou o crime. Isso é uma incoerência. O inquérito da Polícia Civil serve para a acusação enquanto confissão, mas não serve para o relatório final, que diz que foi crime comum?”, argumenta Marreiro.

Mandante

O inquérito da Polícia Civil resultou na primeira denúncia apresentada à Justiça contra oito pessoas envolvidas no crime. Dos indiciados pela comarca de Itapecerica da Serra, Marcos Roberto Bispo dos Santos foi o único que não recorreu ao Tribunal de Justiça (TJ) e, por isso, será julgado nesta quinta-feira.

O principal personagem do inquérito, o empresário Sérgio Gomes da Silva, que era ex-segurança e assessor pessoal de Celso Daniel, pediu o desmembramento do processo e será julgado separadamente. Os outros recorreram no TJ contra a decisão de serem levados a júri popular.

Agência Estado
Enterro de Celso Daniel teve a presença de Lula

Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, é apontado pelo MP como o mandante do assassinato. Ele dirigia a Pajero blindada onde Celso Daniel estava no momento que foi capturado pelos bandidos. O ex-prefeito petista estava no banco do passageiro. Na tese do MP, Sombra teria simulado o sequestro do político com a ajuda de Dionísio de Aquino Severo, que foi preso em 2002, mas resgatado de dentro de um presídio, com ajuda de um helicóptero. Após ser recapturado, Dionísio foi morto depois de dois dias de prisão no Centro de Detenção Provisória do Belém, zona leste da capital paulista.

Por conta dos vários recursos impetrados no TJ, os outros indiciados no inquérito da morte de Celso Daniel só devem ir a júri em 2012, inclusive o Sombra, que tem como advogado de defesa Roberto Podval, criminalista que também participou do caso Nardoni. Ele defendeu o casal Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá.

Assim como aconteceu no ano passado, Podval e o promotor Francisco Cembranelli devem travar mais uma disputa judicial na ocasião do julgamento do empresário de Santo André, ainda sem data definida. Sérgio Gomes da Silva aguarda o julgamento em liberdade desde 2004.

Presença

Segundo o advogado de Bispo, não é certo que o cliente vá comparecer ao julgamento desta quinta, no Fórum de Itapecerica da Serra. A Justiça não conseguiu encontrá-lo no endereço fornecido no inquérito e o acusado não foi notificado do julgamento em plenário. A defesa do réu sustenta que ele não é obrigado a comparecer ao próprio julgamento e disse que, possivelmente, a sentença se dará sem a presença dele em plenário.

“Nesse momento não estou pensando sobre a nulidade do processo, apenas na defesa. Meu cliente é inocente e há argumentos suficientes nos autos para provar. Caso ele seja acusado e não possa recorrer em liberdade, aí sim pensaremos sobre a possibilidade de pedir a anulação do julgamento em virtude da falta de intimação”, afirmou o advogado de defesa.

Na última sexta-feira Bispo teve a prisão preventiva decretada, mas não foi encontrado até agora e está foragido, segundo o Tribunal de Justiça. O julgamento ocorrerá no Fórum de Itapecerica, a partir das 9h. O juiz que presidirá a sessão será Antonio Augusto Galvão de França Hristov. Junto com o promotor e o advogado de defesa, o juiz escolherá sete jurados dos 25 escalados para participarem da sessão, que poderá se estender até a sexta-feira.

    Leia tudo sobre: celso danielptjulgamento

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG