"Não foi adequado", diz Marta ao iG sobre bronca em José Sarney

Em entrevista ao iG, senadora do PT explica por que pediu para Sarney tratar Dilma como 'presidenta' e não 'presidente'

Adriano Ceolin, iG Brasília |

A senadora Marta Suplicy (PT-SP) chegou ao Senado fazendo barulho. Venceu a disputa interna do partido para ficar com a 1ª vice-presidência da Casa, exigiu cumprimento do tempo de discurso do seu ex-marido Eduardo Suplicy (PT-SP) e até deu uma bronca pública no presidente José Sarney (PMDB-AP) por ter tratado Dilma Rousseff como "presidente" em vez de “presidenta".

nullSem imaginar que a postura “durona” teria repercussão, ela fez um mea culpa e avaliou que deveria ter falado com Sarney pessoalmente e não por meio do microfone do Senado. “Eu me penitencio. Não foi adequado (pedir para tratar Dilma como presidenta)”, afirmou Marta, em entrevista exclusiva ao iG .

Deputada federal entre 1995 e 1998, Marta tem experiência de parlamento. De volta ao Congresso após 12 anos, ela resolveu retomar a bandeira dos direitos humanos. Sua primeira ação foi desarquivar o projeto de Lei 122, que criminaliza a prática de homofobia (ódio ou aversão a homossexuais).

Leia os principais da entrevista:

iG: Como a senhora pretende atuar no Senado?
Marta Suplicy : Comecei atuando no desarquivamento do PL (Projeto de Lei) 122, que faz parte da minha história de vida: a luta contra discriminação. Entretanto, a bagagem que eu chego ao Senado hoje é muito ampla. Eu espero poder ter uma contribuição forte na questão da reforma tributária e na reforma política. Também precisamos ir além nas questões das regiões metropolitanas. Hoje você não pode solucionar a questão do transporte, do lixo, da segurança, da violência se não tratar das questões conjuntamente. Os grandes centros urbanos estão gigantescos e em colapso. É preciso ter uma mudança da federação na forma de se administrar

iG: Agora essa é uma pauta de candidata a prefeita ou ao governo do Estado?
MS
: Não penso nisso (em candidaturas). Eu trago da minha experiência como prefeita. Há uma impossibilidade de se administrar conglomerados urbanos sem haver um tratamento regionalizado. Sejam eles ricos, como a cidade de São Paulo, ou regiões que têm desenvolvimento aquém das suas possibilidades. Isso tem muito no Estado de São Paulo. Há regiões inteiras que poderiam dar um salto enorme se houvesse um planejamento econômico específico.

iG: Historicamente, o Senado é uma Casa conservadora. Como a senhora pretende defender um projeto de combate à homofobia?
MS: Eu acredito que existe um caldo cultural em relação ao PL 122, que é combate à homofobia, muito mais maduro do que em relação a outros temas. Quando ocorreu aquela situação terrível na Avenida Paulista (em que jovens foram agredidos supostamente por serem homossexuais), não vi ninguém falando que aquelas pessoas estavam corretas e que deveriam ficar impunes. É muito diferente uma briga de bar do que presenciamos na televisão como agressão homofóbica. É disso que se trata esse PL. Não é contra falas religiosas em cultou ou em sessões fechadas. Queremos assegurar o direito de as pessoas homossexuais não serem discriminadas no trabalho, não sofrerem xingamentos ou agressões.

iG: A senhora é atualmente a 1ª vice-presidente do Senado. Acredita que o cargo possa ajudar a influenciar mais nessa pauta?
MS
: Não tivemos ainda a experiência da instalação da Mesa. Vou ter de ver como é o funcionamento da Mesa. Então eu não posso responder essa questão ainda. Acredito que esses projeto (contra a homofobia) caminha independentemente da minha participação na Mesa Diretora do Senado. É um projeto que já está há cinco anos no Senado. Está maduro.

iG: O ex-governador José Serra defendeu hoje um salário mínimo de R$ 600. Como pretende ajudar o governo a votar um valor menor?
MS
: Quando se é oposição, é muito fácil fazer essa defesa. Muito mais contundente foi o que o presidente Lula fez quando governou o país. Em oito anos, ele garantiu 75% do valor real do salário mínimo e com um planejamento que não causou inflação. O impacto fiscal da proposta do Serra será três vezes mais que o atual reajuste. Isso compromete a capacidade do governo. Agora o que mais me estranhou é que eles sempre foram contra. E isso (a proposta de R$ 600) vai estourar todas as contas. Essa postura não combina com o PSDB, um partido que sempre pregou a austeridade.

iG: A senhora já teve a oportunidade de presidir uma sessão no Senado e foi rigorosa com o tempo de discurso dos senadores. Vai ser assim sempre?
MS:
Eu pretendo ser justa e razoável, dando oportunidade a todos. Há ocasiões com 27 inscritos. Tem muita gente nova querendo discursar. Então, dar o dobro de tempo que a pessoa tem não é justo. Tem de ser o limite de 10 minutos estourando. Não dá para ter 40.

iG: A senhora não poupou nem o senador Eduardo Suplicy (PT-SP)?
MS
: Foi dentro desta perspectiva (de e cumprir tempo). Ele já estava há 40 minutos na tribuna. Não falado 40 minutos. Ele tinha falado 10 minutos, mas com os apartes chegava a 40. Havia uma lista grande e a tarde já caminhava. Então dentro da tentativa de justiça de tempo fiz a minha intervenção. Essa não pode ser uma Casa em que alguns falam horas e outras ficam sem falar.

iG: E como foi aquela intervenção que a senhora fez com o presidente Sarney, alertando-o para tratar Dilma Rousseff como presidenta e não presidente.
MS:
Eu me penitencio. Não foi adequado. Porque era algo que eu acredito e acho que seria muito bom falar presidenta em todos os momentos. É muito simbólico. Mas acho que eu deveria ter falado (com o presidente Sarney) pessoalmente. E não imaginei que fosse sair de forma tão direta. Não gostei.

iG: A senhora se arrepende, então?
MS
: Não diria desta forma. Eu me penitencio. Falei com o presidente Sarney depois. É sempre uma pessoa muito gentil.

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