Morre Itamar Franco, o presidente do Real

Vítima de leucemia, o vice que assumiu após o impeachment de Fernando Collor morre aos 81 anos

Denise Motta, iG Minas, e Nara Alves, iG São Paulo | 02/07/2011 11:20 - Atualizada em 03/07/2011 11:11

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O ex-presidente da República e senador Itamar Franco (PPS-MG) morreu às 10h15 deste sábado (2), aos 81 anos, após ter um AVC. Itamar havia contraído uma pneumonia grave durante o tratamento de quimioterapia ao qual era submetido desde o dia 21 de maio, contra uma leucemia. Ele estava internado na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, desde o último dia 27 de junho. O ex-presidente, que era divorciado, deixa duas filhas.

O corpo de Itamar será velado em Juiz de Fora, domingo. Na segunda-feira, segue para Belo Horizonte e depois será cremado em Contagem.

Políticos brasileiros lamentaram a morte de Itamar. A presidenta Dilma Rousseff, que decretou luto oficial de sete dias, diz que recebeu notícia da morte com "tristeza" e que senador "deixa trajetória exemplar de honra pública". O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), deve organizar uma comitiva de parlamentares para acompanhar as cerimônias fúnebres em homenagem ao ex-presidente. A informação foi dada ao iG pelo líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB-RR). Segundo ele, que confirmou presença na comitiva, os parlamentares devem seguir para Minas Gerais domingo.

O peemedebista assinalou ainda que o Senado deve realizar homenagens a Itamar durante a semana. “O País perde um grande brasileiro, um homem autêntico, que encarava a política com muita seriedade. Ele tinha uma forma peculiar de fazer política, com muita paixão”, disse.

<span>Itamar Franco lança o Plano Real, em 1994, ao lado do então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>Itamar ao lado do ex-presidente Juscelino Kubitschek, em foto sem data</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>O jovem Itamar (foto sem data)</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>Itamar Franco visita eleitores e pede votos para ser eleito prefeito, em 1966</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>Campanha vitoriosa de Itamar à Prefeitura de Juiz de Fora em 1966: ele era candidato do MDB contra a ditadura militar</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>Itamar discursa durante sua campanha para prefeito de Juiz de Fora, em 1966</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>Itamar ao lado de moradores de Juiz de Fora em 1968</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>Campanha de Itamar ao Senado, em 1974: mais uma vitória contra o regime militar</span> - <strong>Foto: Arquivo pessoal</strong> <span>Itamar faz campanha para o Senado, em 1974</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>Itamar Franco e o jovem Aécio Neves, em foto sem data</span> - <strong>Foto: Arquivo pessoal</strong> <span>Itamar Franco faz campanha pela eleição de Tancredo Neves ao governo de Minas, em 1982. Ao fundo, de chapéu, está Aécio Neves</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>O então senador Fernando Henrique Cardoso cumprimenta Itamar após sua posse na Presidência da República, em 1992</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>Na Presidência do Brasil, Itamar desfila em Brasília ao lado de Carlos Menem, ex-presidente da Argentina, em 1993</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>Itamar Franco e o ex-vice presidente José Alencar, em 1998</span> - <strong>Foto: Arquivo pessoal</strong> <span>Encontro entre Itamar Franco e Leonel Brizola, em 1999, durante a posse em Minas Gerais</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>Eleito com discurso de oposição ao então presidente FHC,Itamar Franco recebe Luiz Inácio Lula da Silva e José Dirceu logo após sua posse como governador de Minas, em 1999</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>Aécio Neves, Itamar Franco e Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, durante as comemorações dos 100 anos de nascimento do ex-presidente Juscelino Kubitschek</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>Itamar usa cavanhaque em Roma, quando foi embaixador do Brasil entre 2003 e 2005</span> - <strong>Foto: Arquivo Pessoal</strong> <span>Os então candidato do PSDB ao Senado, Aécio Neves, e ao governo de Minas Gerais, Antonio Anastasia, posam com o então candidato ao Senado pelo PPS, Itamar Franco, em 2010</span> - <strong>Foto: AE</strong> <span>Fernando Collor e Itamar Franco durante encontro em fevereiro deste ano no Senado, em Brasília</span> - <strong>Foto: Agência Senado</strong> <span>Itamar e o ex-presidente José Sarney conversam no Senado em fevereiro de 2011</span> - <strong>Foto: AE</strong> <span>Itamar Franco no Senado, ao lado de Aécio Neves, em março deste ano</span> - <strong>Foto: AE</strong> <span>Itamar Franco durante o velório de José Alencar, em Brasília, neste ano</span> - <strong>Foto: AE</strong> <span>O então vice-presidente Itamar Franco, em Brasília (25/08/1994)</span> - <strong>Foto: AE</strong> <span>Itamar Franco durantee entrevista em Belo Horizonte, em 2005</span> - <strong>Foto: AE</strong> <span>Itamar Franco em reunião com a bancada do PMDB, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em Belo Horizonte, em 2004</span> - <strong>Foto: AE</strong> <span>O ex-presidente Itamar Franco é homenageado durante sessão solene alusiva ao "Dia da Câmara", em 2009</span> - <strong>Foto: AE</strong>

Foi durante o mandato de pouco mais de dois anos – entre outubro de 1992 e dezembro de 1994 – à frente do Palácio do Planalto que surgiu o Plano Real, programa econômico responsável pela estabilização da moeda. O plano, apresentado pelo então ministro Fernando Henrique Cardoso, permitiu o crescimento e o otimismo que o País viveu nas últimas duas décadas.

Ao mesmo tempo em que enfrentava a inflação, Itamar foi alvo da língua afiada de críticos de seu governo, que apelidaram sua gestão de “República do Pão de Queijo”, uma alusão às nomeações de políticos do segundo e terceiro escalões de Minas Gerais, seu berço político, para ministérios em Brasília. Depois do mandato, de volta a Minas, Itamar exibiu um lado genioso ao decretar a moratória das dívidas do Estado.

Com a morte de Itamar, assume sua cadeira no Senado Federal o suplente José Perrella de Oliveira Costa, conhecido como Zezé Perrella, ex-presidente do clube mineiro de futebol Cruzeiro.

Trajetória

Nascido em 28 de junho de 1930 em um barco que ia de Salvador, capital baiana, para o Rio de Janeiro, capital fluminense, Itamar Augusto Cautiero Franco foi criado em Juiz de Fora.

Órfão de pai, teve infância pobre na cidade, localizada a 260 quilômetros da capital mineira, Belo Horizonte. Formou-se em engenharia e eletrotécnica pela Escola de Engenharia de Juiz de Fora, em 1955.

Antes de iniciar sua carreira política, foi auxiliar de estatística do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), topógrafo do Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS), diretor da Divisão Industrial de Juiz de Fora e do Departamento de Água e Esgoto de Juiz de Fora, eletrotécnico, industrial, engenheiro, servidor público e administrador.

Pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Itamar elegeu-se prefeito de Juiz de Fora em 1966 e 1972. No segundo mandato como prefeito, permaneceu por apenas um ano e deixou o cargo em busca de voos mais altos. Chegou ao Senado pela primeira vez em 1974, sendo reeleito em 1982. Em 1986, disputou e perdeu o governo de Minas para Newton Cardoso, hoje deputado federal pelo PMDB.

Real, Fusca e carnaval

Para candidatar-se a vice-presidente, Itamar filiou-se ao PRN em 1989, ano em que foi eleito na chapa encabeçada pelo ex-presidente e atual senador Fernando Collor de Mello (PRTB-AL). Com o impeachment de Collor, Itamar assumiu a presidência em dezembro de 1992, com inflação anual de 1.100%.

Em 1993, primeiro ano do governo Itamar, enquanto a inflação chegou a 6.000%, ministros da Economia passaram pelo desafio de estabilizar a moeda até que o ministro Fernando Henrique Cardoso apresentou a proposta de implementação do Plano Real. O plano deu certo. Com a inflação em queda, subia a popularidade de Itamar e de Fernando Henrique, eleito seu sucessor.

No mesmo ano, Itamar decidiu incentivar a venda de carros populares no Brasil e, por sugestão do presidente, a Volkswagen retomou a fabricação do Fusca, interrompida em 1986. A comercialização do carro não correspondeu às expectativas e o plano do presidente foi abortado prematuramente. Contudo, o “Fusca Itamar”, como ficou conhecido, até hoje reúne uma legião de apaixonados pelo modelo mais popular da história automotiva brasileira.

No carnaval de 1994, segundo e último ano de seu mandato, o então presidente Itamar Franco foi fotografado no camarote da Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, na Sapucaí, ao lado da modelo Lilian Ramos. A surpresa era que a jovem cearense, então com 27 anos, estava sem calcinha. As fotos da morena só de camiseta ao lado do presidente brasileiro foram publicadas em dezenas de jornais e revistas no País e do mundo. Apesar do discurso de escândalo adotado pela oposição, o episódio acabou rendendo uma série inesgotável de comentários bem humorados sobre o presidente.

Itamar inspirou cartunistas e cronistas com sua principal característica física, um topete minuciosamente penteado

De volta a Minas

Depois de deixar a presidência e eleger FHC seu sucessor, em 1994, Itamar foi eleito governador de Minas Gerais pelo PMDB em 1998. Polêmico, ele declarou moratória da dívida do Estado à União, por 90 dias, logo quando assumiu, em janeiro de 1999. Com a medida, ele comprou briga não apenas com o Governo Federal, mas também com outros Estados, temerosos com uma eventual desestabilização econômica.

Saiba mais sobre a trajetória de Itamar Franco

Um dos argumentos utilizados por Itamar para declarar a moratória foi o de que a dívida de Minas com a União, à época em R$ 16,2 bilhões, não tinha como ser paga. Cerca de um mês após o comunicado, a União renegociou a dívida de Minas. A medida, entretanto, causou turbulência na sua relação com o então presidente FHC. Itamar também se posicionou contra a privatização de Furnas, à época em que governou Minas.

Quatro anos depois, apoiou a candidatura do hoje senador Aécio Neves (PSDB-MG), que se tornou governador e foi reeleito também com o apoio de Itamar. Quando terminou seu primeiro mandato no Senado, o ex-presidente tornou-se embaixador do Brasil na Itália, onde morou até 2005, por indicação do então presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP).

Ao regressar para o Brasil, em 2006, após tentativa fracassada de disputar o Senado, Itamar decidiu deixar o PMDB. Ele foi derrotado internamente em convenção por Newton Cardoso, para quem perdeu a disputa ao Governo de Minas em 1986. Candidato ao Senado, Newton perdeu a disputa para Eliseu Resende (PFL, atual DEM).

Em 2009, Itamar filiou-se ao PPS. No novo partido, concorreu novamente ao Senado por seu Estado e venceu, com o apoio de Aécio, derrotando adversários como o atual ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel (PT). Atualmente, possuía grande influência na Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). O presidente da companhia, Djalma Bastos de Morais, ocupa o posto desde o tempo em que Itamar era governador do Estado. Itamar estava afastado de suas atividades no Senado para tratar-se da leucemia em São Paulo.

* Colaborou Fred Raposo, iG Brasília

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