Montanha russa emocional marcou últimos dias de Lula no cargo

Presidente oscilou entre a euforia e a tristeza, diante da perspectiva de deixar o Palácio do Planalto

Ricardo Galhardo, enviado a Brasília |

As últimas semanas de mandato têm sido uma montanha russa emocional para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva . Lula tem oscilado entre a euforia e a tristeza. Foram raros os dias em que não deu uma demonstração de emoção.

Por um lado, a felicidade pelos altos índices de aprovação, a sensação do dever cumprido, o reconhecimento internacional e principalmente a eleição de sua sucessora, Dilma Rousseff . De outro a indefinição quanto a seu futuro político e uma saudade antecipada do poder e tudo que o acompanha, desde o avião presidencial até o assédio de políticos e empresários.

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Um exemplo de a quantas anda a voltagem emocional de Lula às vésperas de deixar o governo ocorreu na quarta-feira. No início da tarde, Lula telefonou para o chefe-de-gabinete, Gilberto Carvalho, e ordenou: “Gilberto, você precisa limpar minhas gavetas na sexta-feira de manhã”. Com a voz embargada, o presidente não conseguiu completar a frase e chorou. Naquele mesmo dia, aparentando extremo bom humor, Lula entreteve a platéia com piadas no lançamento de uma refinaria da Petrobras em Fortaleza.

“O presidente está vivendo um momento de emoções muito agudas e, inclusive, muito saudáveis. Lula é uma pessoa muito emotiva e vai passar por uma mudança importante de rotina, de vida”, disse o secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, companheiro de várias décadas que vai continuar assessorando Lula no instituto que o presidente pretende criar.

- Divulgação
Lula emocionou-se ao pedir que esvaziassem suas gavetas e, no mesmo dia, entreteve com bom humor a plateia que acompanhou a inauguração de uma refinaria da Petrobrás
Chorão assumido, Lula chegou a criar estratégias na reta final para evitar demonstrações públicas de emoção. Uma delas foi a de ler os discursos preparados por seus assessores -- coisa rara nos oito anos de governo. O presidente acredita que ao evitar improvisos diminui a chance de lágrimas públicas.

Além disso Lula mudou o roteiro de sua última semana no governo. Ele excluiu da agenda sua cidade natal, Caetés (PE), para evitar uma sobrecarga emocional. A tática não funcionou muito bem, pois o ato de despedida em Recife, na última terça-feira, foi uma choradeira generalizada.

Segundo assessores, a ficha caiu algumas semanas depois da eleição de Dilma. Lula comentou que já não era o centro das atenções da imprensa e que o assédio havia diminuído. Nessa época, ele recebeu uma visita do ex-prefeito de Recife João Paulo, que se queixou do tratamento que estava recebendo do sucessor, João da Costa.

“O prefeito, que ajudei a eleger, não tem me tratado muito bem”, queixou-se João Paulo. “Pois vá se acostumando. Elegi a Dilma. No dia 1º de janeiro vou passar a faixa para ela e tenho certeza que se telefonar no dia 2 ela vai dizer que está ocupada e não pode atender. É assim mesmo”, respondeu Lula.

Futuro

Uma das maiores preocupações de Lula tem sido seu futuro político. Ele já disse diversas vezes que pretende continuar na vida pública mas ainda não decidiu -- ou pelo menos não verbalizou -- de que forma se dará sua atuação fora do governo. “Não quero fazer uma coisa da qual vá me arrepender três meses depois”, disse ele em uma confraternização com jornalistas no Palácio do Planalto, na segunda-feira.

Num primeiro momento, o presidente disse a pessoas próximas que se dedicaria à reforma política. A idéia era usar seu prestígio para mobilizar diferentes atores do espectro político em favor de uma reforma profunda do sistema eleitoral.

Depois da eleição de Dilma, no entanto, Lula percebeu que, sem a caneta, já não teria poder para tanto. Ele avaliou que uma derrota poderia esvaziar todo seu capital político e recuou. Na confraternização com os jornalistas, Lula disse que o PT é quem deve liderar a reforma política.

Quando começaram a circular notícias sobre o funcionamento do instituto que pretende montar em São Paulo e de suas ambições políticas para depois da Presidência, Lula mandou interromper as tratativas temendo que sua movimentação fosse interpretada como interferência no governo Dilma. O presidente tem dito aos mais próximos que pretende se recolher durante cerca de três meses para avaliar o cenário e só então voltar a campo.

Vida mundana

À família, Lula diz que pretende aproveitar para desfrutar de prazeres simples e mundanos dos quais se privou nos oito anos de poder. Entre eles ir a bares e restaurantes com amigos e assistir aos jogos do Corinthians no estádio do Pacaembu.

“Nestes oito anos, evitei roda de cerveja, roda de vinho, para não desagradar a ninguém. Se você chama um e não chama outro acaba deixando alguém magoado, desprestigiado. Agora quero aproveitar”, disse ele a um integrante de sua família.

Mas a maioria das pessoas próximas duvida que depois de oito anos de agenda e carga de trabalho intensas, com média de 12 horas de expediente por dia e mais de quase 100 viagens por ano, Lula vá se contentar em ficar de pijama vendo a vida passar da varanda de seu apartamento em São Bernardo do Campo.

“Quando o Lula me convidou para integrar o futuro instituto disse que aceitaria com o maior prazer mas pedi para que ele não fizesse nada antes do final de janeiro”, disse Vannuchi. “Mas se eu conheço o homem acho que ele não vai aguentar muito tempo e em 15 dias estará ligando para todo mundo. Esse é o meu maior temor pessoal.”

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