Dilma enviou ministros ao Congresso para conter dissidências na votação de amanhã; líder do governo fala em vantagem de 100 votos

A um dia da votação da proposta que reajusta o salário mínimo, o governo reagiu ao aumento das pressões e se lançou em uma campanha de última hora para tentar conter as dissidências dentro e fora da base. Preocupados com o risco de a traição ao projeto do Planalto ser maior do que se espera, governistas passaram o dia todo envolvidos em negociações com aliados e oposicionistas. Vários setores da base deixaram evidente a insatisfação com o reajuste para R$ 545 sugerido pelo governo. Ainda assim, o Planalto investiu no discurso de que terá maioria para a votação marcada para esta quarta-feira.

Coube ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, dar o tom geral encampado pelo governo. Enviado à Comissão Geral da Câmara para defender a proposta do Planalto, o ministro disse que o governo não tem condições, do ponto de vista fiscal, de elevar o valor acima de R$ 545 . Se o mínimo chegasse a R$ 600, disse ele, haveria um impacto de R$ 16,5 bilhões no Orçamento de 2011. "Temos uma limitação de ordem orçamentária", disse o ministro.

Enquanto isso, o líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) - que reuniu líderes aliados para dimensionar o risco de traição, conforme antecipado pelo iG -  procurou investir no discurso otimista. "Acho que nós teremos uma maioria muito folgada", disse Vaccarezza, em conversa com o iG no fim da manhã. Mais tarde, depois de assistir à movimentação dos partidos da base, a conta do governo era a de obter uma vantagem de 100 votos na votação desta quarta-feira.

Líderes da base se reuniram para quantificar dissidências
AE
Líderes da base se reuniram para quantificar dissidências

Como parte da estratégia, Dilma enviou emissários ao Congresso, para negociar com os partidos da base e da oposição. A prioridade foi reforçar o discurso em favor do reajuste para R$ 545, evidenciar o impacto de um aumento maior nas contas públicas e reiterar a tese de que não serão aceitas divergências à proposta.

O ministro de Relações Institucionais, Luiz Sérgio, e o secretário da Fazenda, Nelson Barbosa, também foram recrutados. Participaram, por exemplo, de reuniões das bancadas de partidos como DEM e PSB.

Mais tarde, entretanto, o DEM manteve o discurso em favor da proposta de R$ 560. "Esta Casa saberá reconhecer que o caminho é olhar para a voz das ruas", disse o líder ACM Neto (DEM-BA) , em discurso no plenário. O também oposicionista PSDB seguiu a mesma linha: "O governo está fazendo o sacrifício não na parte que lhe cabe, mas sacrificando o trabalhador e o impedindo de ter o aumento real de uma série histórica de 16 anos, que vem desde 1995, e esse governo da presidente Dilma vai interromper", acusou o líder tucano, deputado Duarte Nogueira (PSDB-SP).

No PSB, nomes como o deputado Abelardo Camarinha (PSB-SP) dirigiram-se à reunião munidos de estudos indicando fontes alternativas de receita , que em tese ajudariam a bancar o salário mínimo de R$ 560.

As dissidências á tomam forma até mesmo no partido da presidenta Dilma. Ontem, o deputado Eudes Xavier (PT-CE) declarou publicamente que pretende votar contra a proposta do governo , conforme relatou a coluna Poder Online . O PT, entretanto, fechou questão em torno da proposta do governo, o que põe em risco os deputados que votarem por um mínimo maior que R$ 545.

As centrais sindicais ajudaram a aumentar a temperatura com protestos organizados na Câmara nesta  terça-feira . Enquanto isso, o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves, procurava minimizar as divergências, alegando que a atual política de valorização do mínimo, firmada entre as centrais e o governo anterior, elevará por si só o valor para R$ 613 dentro "de alguns meses" .

*Com informações de Flávia D'Angelo, iG São Paulo, e da Agência Estado

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