Marco Maia admite não ser candidato único à presidência da Câmara

Em entrevista ao iG, deputado do PT afirma que ¿é normal termos um debate que apresente outras candidaturas¿

Adriano Ceolin, iG Brasília

O candidato a presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), afirmou em entrevista ao iG que não adianta acertar o apoio apenas com os líderes para conseguir vencer a eleição na Casa. “Cada deputado tem sua opinião, a sua visão sobre o processo. Nós queremos e vamos conversar com todos os deputados”, disse Maia, que deu a declaração na última quarta-feira , mesmo dia em que recebeu apoio dos líderes da oposição (DEM e PSDB).

nullMaia disse também não temer a candidatura avulsa de um colega. Os deputados Aldo Rebelo (PC do B-SP) e Julio Delgado (PSB-MG) já disseram que têm intenção de disputar o comando da Câmara com Maia. “É normal termos um debate que apresente outras propostas", afirmou. Gremista nascido em Canoas, caso seja eleito, ele assumirá seu terceiro mandato na Câmara. Confira principais trechos da entrevista:

iG – O senhor não era favorito como candidato a presidente da Câmara...
Maia – É importante a sua pergunta porque nunca houve favorito no PT. Todas as candidaturas que estavam colocadas eram favoritas. Tinham condições iguais de disputar com os parlamentares.

iG – Mas a sua candidatura não foi gestada por um grupo que nos últimos tempos não estava prestigiada junto ao Palácio do Planalto?
Maia – Isso não é verdade. Eu faço parte da tendência Construindo um Novo Brasil. Eu conversei com eles. Falamos todo o momento. Tanto que o campo apresentou o meu nome e do deputado Cândido Vaccarezza. Logo o que pesou foi a capacidade talvez de um ou de outro de articular um pouco melhor o conjunto da bancada. Não pesou questão ideológica, programática ou de insatisfação. A bancada do PT é governista. Vai apoiar o governo.

iG – Está consolidado o apoio da oposição oficializado hoje (dia 22) - líderes do DEM e do PSDB anunciaram que partidos vão apoiar Marco Maia como candidato a presidente?
Maia – Nós estamos trabalhando no sentido de conversar com todos os partidos. Além disso, precisamos conversar com todos os deputados. Cada deputado tem sua opinião, a sua visão sobre o processo. Nós queremos e vamos conversar com todos os deputados. Agora é lógico que é importante falar com os líderes.

iG – Mas não adianta só acertar com os líderes.
Maia – Todos nós temos claro que é preciso conversar com os líderes, com as direções partidárias e ao mesmo tempo com os deputados e lideranças intermediárias na Casa.

iG – O senhor não teme adversários? O deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) quer ser candidato.
Maia – Isso é legítimo. É normal neste momento termos um debate que apresente outras propostas. Temos 513 deputados. Cada um deles pode ser candidato a presidente da Câmara. Faz parte do processo democrático. Nós estamos empenhados em discutir e conversar com todos os aliados para mostrar que temos condições de fazer com que todos se sintam representados.

iG - O senhor é fundador do PT?
Marco Maia - Não. Entrei no partido em 1985. Antes militei no MDB (sigla que deu origem ao PMDB).

iG - Tem alguém do PMDB que o senhor admirava naquela época?
Maia – A referência do MDB naquela época era o senador Pedro Simon (PMDB-RS). Para meu pai, era Deus no céu e Simon na terra. Ele era o grande ícone da democratização, da resistência no Rio Grande do Sul.

iG – O senhor tem algum ídolo político?
Maia – Não um ídolo específico. Mas a minha geração conviveu muito tempo admirando o (presidente) Lula. Ele sempre foi o nosso ícone. Ele sempre nos representou. Esteve à frente das nossas esperanças de juventude.

iG – Quando o senhor conheceu o Lula?
Maia – Conheci o Lula no fim da década de 80, na época do sindicado.

iG – Como o presidente Lula, o senhor também foi líder sindical. É uma experiência importante saber ouvir, negociar?
Maia – Ouvir é sempre uma boa característica. Quando você ouve muito e se aconselha muito você tem menos chance de errar nas suas decisões. Eu tenho isso como característica e como método de trabalho. Todos os espaços por que passei eu sempre levei o diálogo ao extremo.

iG – Mas tem muita pressão também?
Maia – Eu acho que é normal. Você sofre pressão em qualquer espaço ou momento da sua vida. Quando está na escola estudando você tem a pressão da prova. Quando se está no movimento sindical você tem a pressão da disputa sindical. As pressões são normais e naturais na vida de qualquer cidadão. E tomar decisões é uma questão natural. Em 1988, eu cursava a universidade e tive de abandonar o curso para ser candidato a prefeito da minha cidade (Canoas).

iG – Em que lugar o senhor ficou?
Maia – Havia seis candidatos na disputa, eu fiquei em terceiro. Depois disso, eu passei um longo período atuando no movimento sindical, o que me proporcionou viajar o mundo inteiro e obter muitas experiências e oportunidades. Depois disso fui secretário da Administração do governo Olívio Dutra

iG – Como foi sua experiência com o relator da CPI do Caos Aéreo?
Maia – Foi uma experiência rica. Me colocou frente à frente com um setor importante na sociedade, que é o setor de transportes. Me deu a experiência de também ter vivido um momento de muita tensão.

iG – Qual foi o momento de maior tensão?
Maia – Acho que o momento mais triste foi quando ocorreu o acidente da TAM (17 de julho de 2007). Inclusive teve um colega nosso que estava envolvido (Julio Redecker, PSDB-RS, falecido na ocasião). Soube da notícia num dia que iríamos entrar em recesso. Estava exausto. Quando cheguei no hotel, soube que avião havia entrado num prédio em São Paulo. Foi momento mais tenso mais complexo.

iG – O senhor foi colega de Dilma Rousseff no secretariado do governador Olívio Dutra (1998-2002)? O que o senhor achava dela?
Maia – Ela sempre foi uma pessoa muito competente, dedicada e sempre incorporava sua tarefa com muita força. Sempre trabalhou, por isso que ela era uma mulher de destaque naquela oportunidade. Por isso, ela veio coordenar a área de energia na equipe de transição.

iG – Mas o que chamava a atenção do senhor naquela época? Como era a Dilma secretária?
Maia – Ela era dedicada, mas era uma secretária como tantos outros secretários. Não dava para imaginar que um dia ela seria presidenta da República.

iG – E aqui, em Brasília, o senhor como deputado e ela como ministra, como foi retomar esse contato?
Maia – Sempre tivemos contatos. Encontrávamos nas reuniões da bancada gaúcha aqui em Brasília. Ela participava. Várias vezes estive no ministério de Minas e Energia conversando com ela. E depois na Casa Civil também. Tínhamos contatos quase que permanentes. Sempre tivemos um relacionamento muito bom. Sem nenhum tipo de crise.

iG – No entanto, agora como presidente da Câmara, o senhor deverá entrar em algumas divergências, porque estará representando um poder. Como pretende lidar com isso?
Maia – Nós temos que sempre resguardar a autonomia entre os poderes. Uma coisa é o Executivo, outra coisa é o Legislativo e outra é o Judiciário. Portanto, a nossa responsabilidade é garantir a independência e autonomia do Legislativo. Nós vamos fazer isso de forma tranquila e clara. Queremos contribuir votando as matérias de interesse da sociedade. Vamos primar pela construção de acordos e consenso, que permitam a Casa transitar esses próximos dois anos com tranqüilidade e serenidade.

iG – Logo no começo da legislatura haverá a votação da Proposta de Emenda Constitucional que estabelece o piso salarial dos policiais. O governo é contra a proposta porque envolve aumento nos gastos públicos. O senhor pretende colocá-la em votação assim mesmo?
Maia – Nós trabalhamos a proposta de criar uma comissão que vai analisar o tema da segurança na sua integralidade. Nós não resolvemos a segurança apenas concedendo reajustes aos policiais. Precisamos também de programas e projetos que dialoguem com as áreas estratégicas de segurança. Por exemplo, como aumentar o efetivo. Melhorar a nossa área de inteligência. Nós estamos preocupados em apresentar para o País uma ação alternativa que contemple ações conjuntas na área de segurança. Aí entra a votação da proposta de emenda constitucional que pode ser um instrumento importante de valorização dos nossos policiais. Na minha opinião pessoal, precisamos estabelecer uma política salarial que valorize os policiais. Agora isso não pode ser a única alternativa para resolver o problema da segurança.

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