Maluf perdeu aliados, mas ainda mantém fiéis escudeiros

Apesar de ver sua popularidade cair ao longo dos anos, ex-prefeito ainda tem apoio de 500 mil eleitores e afilhados políticos

Nara Alves, iG São Paulo |

Na liturgia cristã, a promessa de aliança eterna “na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, até que a morte os separe” nem sempre é levada ao cabo. Na liturgia malufista, se ela existisse, não seria diferente. O deputado Paulo Maluf (PP-SP), que completa 80 anos neste sábado, viu sua popularidade cair com o passar dos anos, mas sabe que pode contar com fiéis eleitores – quase 500 mil – e aliados políticos.

Um dos mais fiéis malufistas é o deputado estadual Antonio Salim Curiati (PP-SP), de 83 anos. Filho de imigrantes libaneses, assim como o próprio Maluf, foi ele quem levou um prato de quibes para o ex-prefeito na prisão. Curiati enfrentou o assédio da imprensa para levar os quitutes árabes para o amigo e seu filho, Flávio Maluf. Os dois passaram 40 noites na sede da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo. Isso foi em 2005.

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Salim Curiati fez questão de levar um pratinho de quibes para Maluf na prisão

Quase 30 anos antes, Curiati já havia dado prova de sua fidelidade a Maluf. Em 1978, quando ambos eram filiados à antiga Arena, partido que originou o PP, Curiati foi o único membro da Executiva a votar contra a impugnação da candidatura de Maluf ao governo de São Paulo. Com o voto contrário, a candidatura chegou à convenção, vencida por Maluf por 617 votos a 589, derrotando o candidato Laudo Natel, indicado pelo presidente Ernesto Geisel e por seu sucessor, o general João Baptista Figueiredo.

“Maluf fazia oposição ao regime militar. Tanto é que o presidente João Figueiredo nunca o cumprimentava nos eventos oficiais. Figueiredo ficava ao lado de Maluf, mas não apertava sua mão. Se Maluf não tivesse mantido sua candidatura, não teria havido a eleição de Tancredo Neves ( primeiro presidente civil após mais de 20 anos de ditadura militar ). Ele foi o sustentáculo da eleição indireta”, conta filho de Curiati, Antonio Salim Curiati Filho (PP-SP), então com 11 anos de idade.

Eleito governador, Maluf retribuiu o apoio de Curiati, que foi nomeado secretário estadual da Promoção Social. Mais tarde, a relação gradualmente tornou-se mais íntima. Maluf foi padrinho de casamento de dois filhos de Curiati, Rita e Curiati Filho, que é advogado, ex-vereador e foi candidato a vice-prefeito na chapa de Maluf em 2004.

As famílias estiveram unidas também em 2000, quando Nicéia Pitta, ex-mulher do prefeito Celso Pitta, afilhado político de Maluf, detonou o escândalo que ficou conhecido como “Pittagate”. Em depoimento ao Ministério Público, Nicéia afirmou que o marido havia feito um acordo com um grupo de vereadores para que impedissem a instalação de uma CPI em troca de dinheiro. O então vereador Salim Curiati Filho integraria este grupo, segundo ela. A ex-primeira dama foi processada e teve de pagar R$ 40 mil em indenização para Curiati.

A extensa lista de denúncias contra Maluf parece não abalar um milímetro a aliança entre os dos clãs. “Deixa eu te perguntar: do que vive o José Serra? Como ele mantém seu padrão de vida? Pois é. Ninguém lembra que o Maluf é empresário e vem de uma das famílias árabes mais ricas do Brasil. E depois o Maluf é que é ladrão”, diz.

Malufistas, mas nem tanto

Se nas décadas de 80 e 90 Maluf viveu o auge de sua carreira pública, elegendo sucessores, deputados e vereadores, nos anos 2000 o quadro mudou de figura. Hoje, boa parte dos políticos que cresceram sob a bênção de Maluf agora procura desvencilhar sua imagem da do padrinho. Para estes, vale a máxima do Soneto da Fidelidade, do poeta Vinícius de Morais: “que seja infinito enquanto dure”.

Assim como Maluf, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (ex-DEM), é filho de imigrantes libaneses, é engenheiro formado pela Politécnica da Universidade de São Paulo e iniciou sua carreira política no PFL, sigla criada a partir da Arena. Seu berço político é a Associação Comercial de São Paulo, entidade presidida por Maluf na década de 70. Em 1997, Kassab foi nomeado secretário de Planejamento do prefeito Celso Pitta (PPB, hoje PP), e enfrentou denúncias de corrupção na pasta no “Pittagate”.

Hoje, no entanto, o prefeito paulistano prefere vincular sua trajetória ao atual vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos (ex-DEM), com quem fundou um novo partido, o PSD. Sobre Pitta, Kassab costuma dizer que integrou sua equipe por uma questão estritamente partidária.

O deputado federal Valdemar Costa Neto (PR-SP) também prefere não comentar sobre sua amizade com Maluf. Seu pai, Valdemar Costa Filho, foi secretário de Abastecimento na gestão de Maluf à frente da Prefeitura de São Paulo de 1993 a 1996. Procurado pela reportagem para comentar os 80 anos de Paulo Maluf, Costa Neto afirmou, por meio de sua assessoria, que não faz críticas ou elogios sobre filiados de outras legendas.

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Gilberto Kassab em 1997 durante evento do PFL ao lado de Paulo Maluf

O ex-deputado Celso Russomanno (PP), que nas últimas eleições entrou numa disputa interna com Maluf por indicações de candidatos em São Paulo, também não retornou às solicitações para comentar os 80 anos do ex-governador.

Nem o vereador Agnaldo Timóteo, que em 2005 fez questão de visitar o amigo na carceragem da PF, faz ressalvas quanto à importância de Maluf em sua carreira pública. “Maluf não foi importante na minha carreira política, mas foi o mais importante administrador dessa cidade. Estamos um pouco conflitados, mas isso não muda o respeito e a admiração que tenho pelo fantástico administrador Paulo Maluf”, comentou.

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