Lula se afasta para conter críticas de interferência no governo

Ex-presidente, que prepara viagens ao Egito e Tunísia, promete 'se meter menos no Brasil'

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

Visitas ao Egito e Túnisia a convite dos movimentos que desencadearam a onda de revoluções populares no Oriente Médio, dois documentários e um livro sobre os êxitos de seu governo, e cuidado para não esbarrar, pelo menos publicamente, em temas que dizem respeito estritamente ao governo e à presidenta Dilma Rousseff . Vencido o prazo autoimposto de seis meses para “desencarnar” da Presidência, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu concentrar esforços na agenda internacional e em ações que evitem tentativas de equiparação entre seu governo e o do tucano Fernando Henrique Cardoso.

“Vou me meter menos no Brasil porque aqui tem governo”, disse o ex-presidente, em uma visita do Sindicato dos Bancários de São Paulo, na última quarta-feira. Lula, que nos últimos meses se tornou alvo de críticas por supostas intromissões no governo Dilma, estará entre os dias 11 e 13 deste mês na Tunísia e no Egito, ou seja, no olho do furacão da onda de revoltas que está varrendo governos no Oriente Médio. Nos dois casos ele foi convidado por movimentos que lideraram as rebeliões.

AE
Ao mesmo tempo em que prepara visitas ao Oriente Médio, ex-presidente investe em ações para fazer frente ao que aliados descrevem como tentativa de 'reabilitar' de FHC

Na Tunísia, Lula foi convidado pelo Partido Democrata Progressista, um dos pilares dos protestos que levaram à queda do ditador Bem Ali e que agora integra o governo de transição. No Egito, Lula fará uma palestra na Biblioteca de Alexandria a convite da Fundação Nebny, que apoiou a rebelião contra a ditadura de Hosny Mubarak. O convite é assinado por Wael Ghonim, presidente do Google no Oriente Médio e um dos símbolos do movimento contra Mubarak, além de outros quatro jovens que lideraram os protestos.

Nos dois eventos o tema será a democracia participativa. A conexão de Lula com os rebeldes do Oriente Médio faz parte da estratégia para reforçar o nome do ex-presidente no exterior.

No âmbito interno, Lula prepara a realização de dois documentários. O primeiro sobre as visitas que recebeu no Palácio do Planalto. Com ênfase para catadores de papel, sem-terra, sem-teto e integrantes de outros movimentos populares que até então nunca tinham entrado no centro do poder. O segundo sobre as dezenas de conferências temáticas realizadas em oito anos de governo com participação dos mais diversos setores da sociedade. Nesses casos, o objetivo é acentuar o caráter democrático e de diálogo dos mandatos petistas.

Além disso, o ex-presidente prepara um livro com relatos de “50 ou 60” representantes de setores da sociedade que vão falar sobre as benesses alcançadas no governo Lula. O livro será a primeira etapa de um projeto maior de criação de uma editora ligada ao ex-presidente.

Tanto os documentários quanto o livro cumprem a tarefa de preservar a memória dos governos Lula, uma obsessão do ex-presidente que, antes mesmo de deixar o cargo, obrigou todos os ministérios a fazerem uma espécie de inventário de realizações. Líderes petistas e pessoas próximas ao ex-presidente dizem ter detectado um movimento na mídia para desconstruir o governo Lula e reabilitar Fernando Henrique Cardoso, com objetivos eleitorais.

Outra iniciativa nesta área é um museu que possa abrigar o acervo acumulado por Lula na Presidência. Para evitar que o museu se transforme em uma espécie de monumento a ele mesmo, Lula quer fazer um museu da democracia, interativo como o Museu do Futebol e o Museu da Língua Portuguesa, onde com ajuda da tecnologia o visitante possa ser lançado no meio de um comício pelas Diretas Já ou uma assembléia de metalúrgicos do ABC.

Ricardo Galhardo/iG São Paulo
Uma das medidas previstas pelo ex-presidente é deixar a sede do Instituto Cidadania
Ingerências

Lula tem se mostrado preocupado com as críticas sobre supostas ingerências no governo Dilma. Para evitar esbarrões, o ex-presidente pretende extinguir até o final de julho o Instituto Cidadania e criar uma entidade nova. Criado em 1990, logo depois da derrota para Fernando Collor de Mello em 1989, como plataforma de um “governo paralelo”, o Instituto Cidadania tinha como objetivo original fomentar propostas de políticas públicas como os projetos Fome Zero, Mais e Melhores Empregos e Mais e Melhores Moradias. Como se trata de um governo de continuidade, a apresentação de propostas pode parecer interferência.

A configuração jurídica da nova entidade já foi decidida. Será um novo instituto, cujo nome ainda não foi definido. Havia dúvida sobre a adoção de uma fundação ou uma ONG. No âmbito externo, o instituto deve ter um plano de trabalho pronto para a África até o final de julho e outro para América Latina. Na África o foco é o desenvolvimento macroeconômico. Na América Latina, a integração.

A pequena margem de manobra na área externa fez com que o instituto se limitasse a atuar no projeto de reforma política e iniciar a elaboração de projetos para a juventude, principalmente nas periferias, nas próximas semanas Lula deve se reunir com o rapper Mano Brown. A estrutura básica de funcionamento do instituto será financiada por recursos próprios mas o ex-presidente pretende captar patrocínios para projetos pontuais.

Frentes

Segundo assessores, uma vez “desencarnado” da Presidência, Lula vai atuar em quatro frentes. Além de comandar o instituto, o ex-presidente manterá sua empresa de palestras, pelas quais cobra até R$ 250 mil. A terceira frente se refere ao acervo e ao museu. A quarta, mais delicada e que suscita mais cuidados e críticas, é a de presidente de honra do PT e agente político.

No ano que vem Lula deve rodar o país a pedido do PT para ajudar os candidatos do partido nas eleições municipais. É também nesta condição que o ex-presidente tem mantido uma intensa agenda de encontros e conversas com os principais atores políticos, a exemplo da ida a Brasília para ajudar na crise envolvendo o ex-ministro da Casa Civil Antonio Palocci, alvo de críticas da imprensa e da oposição.

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