No último discurso do Dia do Trabalho, Lula pediu ao povo que tome decisões certas para que herança de seu governo siga adiante

Primeiro gesto de despedida da Presidência da República, o pronunciamento de Luiz Inácio Lula da Silva sobre o Dia do Trabalho deu inicio a uma estratégia de exaltação de seu governo marcado por êxitos econômicos e sociais. A finalidade é manter-se como principal fiador da pessoa que dará continuidade às conquistas que ele obteve. Na prática, a candidata do PT, ex-ministra Dilma Rousseff.

O iG ouviu políticos governistas, da oposição e cientistas políticos que avaliaram a estratégia. O PSDB e DEM voltaram a denunciar o uso eleitoral do pronunciamento, mas acham que isso, a longo prazo, tem pouco efeito sobre o eleitorado. O PT e PMDB defendem o direito de Lula exaltar suas conquistas e esperam que Dilma seja beneficiada.

O discurso de Lula pegou de surpresa o cientista político Marco Antonio Villa, da UFSCar (Universidade de São Carlos). Parafraseando o presidente, Villa disse que “nunca antes na história do país” havia acompanhado um discurso de despedida de governo ainda no primeiro semestre do ano.

Segundo ele, o pronunciamento foi um pretexto a favor da campanha de Dilma. “Lula acha que pode fazer tudo. Ele está querendo fazer a campanha eleitoral sem ser candidato, usando a máquina pública e sabe que isso influencia o eleitor”, afirmou Villa.

De olho no desempenho da candidata, Lula poderá entrar em campo em outros discursos com tom emocional É uma tática, segundo o analista da UnB David Fleischer, que deve acontecer em datas comemorativas como o 7 de setembro, dia da Independência do Brasil. “É o primeiro de muitos discursos de despedida. É o apelo ao continuísmo”, disse Fleischer.

A fim de evitar que a estratégia seja recorrente, a oposição pretende entrar na Justiça contra Lula por causa do pronunciamento. Como iG antecipou na noite desta quarta logo após exibição da rede nacional, advogados do DEM e do PSDB vão começaram a analisar a fita. “Lula agrediu a legislação mais uma vez. Não pode utilizar o cargo para fazer campanha desta forma”, reclamou o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE).

Para o peemedebista dissidente, Lula começou a usar o pronunciamento cinco meses antes da eleição e deverá fazer isso com frequência. “Quando ele fala da continuidade é escancaradamente propaganda eleitoral”, disse Jarbas. O senador, porém, ainda não se isso terá um efeito para a candidatura de Dilma. “Ainda não dá para saber. O problema não é esse. O que está em jogo é cumprimento da lei”, disse.

O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) avalia que os pronunciamentos de Lula podem, sim, influenciar o eleitor desde já. “Ele é popular. Esses gestos, de alguma forma, sempre transferem um pouco de popularidade para a candidata dele”, disse. “Tenho a impressão que atinge o seu objetivo”, observou.

O líder do PSDB na Câmara, João Almeida (BA), pensa diferente. Apesar de dizer que o presidente tenta fazer campanha eleitoral com o uso de pronunciamentos oficiais, ele acha que Lula não consegue transferir popularidade para Dilma. “A população já entendeu que a Dilma é diferente do Lula. A longo prazo, pode ter um efeito contrário, beneficiando o Serra”, afirmou.

Os petistas ironizaram as críticas da oposição. Avaliam que, sem discurso, as lideranças do PSDB, PPS e DEM procuram caracterizar qualquer ato do presidente Lula em eleitoreiro. “É um discurso para o trabalhador, não tem nada disso”, defendeu o líder do governo, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP).

O deputado José Genoino reclama da atitude do PSDB e do DEM que, segundo ele, tentam esconder que fazem oposição ao presidente. “O pronunciamento foi muito forte e sincero. Essa oposição deveria assumir que é antiLula. Não teve nada de campanha eleitoral”, completou José Genoíno (PT-SP)

O senador Garibaldi Alves (PMDB-RN) afirmou que Lula não citou Dilma na sua fala. “Além disso, para mim é legítimo o presidente querer registrar as conquistas que obteve nesses anos”, disse o ex-presidente do Senado. Ele tentará a reeleição dividido. Apóia a oposicionista Rosalba Ciarlini (DEM-RN) para o governo e Dilma para o Planalto.

A senadora Fátima Cleide (PT-RO) também criticou a oposição e discordou que Lula tenha feito uso eleitoral do pronunciamento. “Não sei se a população entendeu que era um apelo para votar em Dilma”, disse. “Agora, a gente espera que ela seja beneficiada pelas conquistas do governo. Afinal, ela fez parte do governo também”, completou.

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