Lula reforça papel de protagonista da eleição

No último discurso do Dia do Trabalho, Lula pediu ao povo que tome decisões certas para que herança de seu governo siga adiante

Andréia Sadi e Adriano Ceolin, iG Brasília |

Primeiro gesto de despedida da Presidência da República, o pronunciamento de Luiz Inácio Lula da Silva sobre o Dia do Trabalho deu inicio a uma estratégia de exaltação de seu governo marcado por êxitos econômicos e sociais. A finalidade é manter-se como principal fiador da pessoa que dará continuidade às conquistas que ele obteve. Na prática, a candidata do PT, ex-ministra Dilma Rousseff.

O iG ouviu políticos governistas, da oposição e cientistas políticos que avaliaram a estratégia. O PSDB e DEM voltaram a denunciar o uso eleitoral do pronunciamento, mas acham que isso, a longo prazo, tem pouco efeito sobre o eleitorado. O PT e PMDB defendem o direito de Lula exaltar suas conquistas e esperam que Dilma seja beneficiada.

O discurso de Lula pegou de surpresa o cientista político Marco Antonio Villa, da UFSCar (Universidade de São Carlos). Parafraseando o presidente, Villa disse que “nunca antes na história do país” havia acompanhado um discurso de despedida de governo ainda no primeiro semestre do ano.

Segundo ele, o pronunciamento foi um pretexto a favor da campanha de Dilma. “Lula acha que pode fazer tudo. Ele está querendo fazer a campanha eleitoral sem ser candidato, usando a máquina pública e sabe que isso influencia o eleitor”, afirmou Villa.

De olho no desempenho da candidata, Lula poderá entrar em campo em outros discursos com tom emocional É uma tática, segundo o analista da UnB David Fleischer, que deve acontecer em datas comemorativas como o 7 de setembro, dia da Independência do Brasil. “É o primeiro de muitos discursos de despedida. É o apelo ao continuísmo”, disse Fleischer.

A fim de evitar que a estratégia seja recorrente, a oposição pretende entrar na Justiça contra Lula por causa do pronunciamento. Como iG antecipou na noite desta quarta logo após exibição da rede nacional, advogados do DEM e do PSDB vão começaram a analisar a fita. “Lula agrediu a legislação mais uma vez. Não pode utilizar o cargo para fazer campanha desta forma”, reclamou o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE).

Para o peemedebista dissidente, Lula começou a usar o pronunciamento cinco meses antes da eleição e deverá fazer isso com frequência. “Quando ele fala da continuidade é escancaradamente propaganda eleitoral”, disse Jarbas. O senador, porém, ainda não se isso terá um efeito para a candidatura de Dilma. “Ainda não dá para saber. O problema não é esse. O que está em jogo é cumprimento da lei”, disse.

O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) avalia que os pronunciamentos de Lula podem, sim, influenciar o eleitor desde já. “Ele é popular. Esses gestos, de alguma forma, sempre transferem um pouco de popularidade para a candidata dele”, disse. “Tenho a impressão que atinge o seu objetivo”, observou.

O líder do PSDB na Câmara, João Almeida (BA), pensa diferente. Apesar de dizer que o presidente tenta fazer campanha eleitoral com o uso de pronunciamentos oficiais, ele acha que Lula não consegue transferir popularidade para Dilma. “A população já entendeu que a Dilma é diferente do Lula. A longo prazo, pode ter um efeito contrário, beneficiando o Serra”, afirmou.

Os petistas ironizaram as críticas da oposição. Avaliam que, sem discurso, as lideranças do PSDB, PPS e DEM procuram caracterizar qualquer ato do presidente Lula em eleitoreiro. “É um discurso para o trabalhador, não tem nada disso”, defendeu o líder do governo, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP).

O deputado José Genoino reclama da atitude do PSDB e do DEM que, segundo ele, tentam esconder que fazem oposição ao presidente. “O pronunciamento foi muito forte e sincero. Essa oposição deveria assumir que é antiLula. Não teve nada de campanha eleitoral”, completou José Genoíno (PT-SP)

O senador Garibaldi Alves (PMDB-RN) afirmou que Lula não citou Dilma na sua fala. “Além disso, para mim é legítimo o presidente querer registrar as conquistas que obteve nesses anos”, disse o ex-presidente do Senado. Ele tentará a reeleição dividido. Apóia a oposicionista Rosalba Ciarlini (DEM-RN) para o governo e Dilma para o Planalto.

A senadora Fátima Cleide (PT-RO) também criticou a oposição e discordou que Lula tenha feito uso eleitoral do pronunciamento. “Não sei se a população entendeu que era um apelo para votar em Dilma”, disse. “Agora, a gente espera que ela seja beneficiada pelas conquistas do governo. Afinal, ela fez parte do governo também”, completou.

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