Lula quer ser blogueiro e tuiteiro após deixar o governo

Pela primeira vez, presidente concedeu entrevista a jornalistas escolhidos em encontro de blogueiros e tuiteiros

iG São Paulo |

Na primeira entrevista que concedeu a blogueiros desde o início de seu primeiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse esperar poder deixar o governo em ordem para a chegada da ex-ministra Dilma Rousseff. Alegando que espera poder "facilitar" o trabalho de sua sucessora, Lula disse que quer "desencarnar" antes da Presidência para então ter dimensão do que foi feito e do que precisa ser feito. O presidente da República também adiantou que, após um breve período sabático - “Quero ficar quatro meses sem fazer nada' -, pretende tornar-se blogueiro e tuiteiro.

Ricardo Stuckert/PR
Presidente Lula durante entrevista a blogueiros
"É preciso deixar ir. Não se pode ser ex-presidente. É que nem vaso chinês, quando você ganha põe no lugar bonito, depois passa a ser um incômodo por não ter onde botar", disse o presidente, repetindo a comparação com uma peça de decoração cujo tamanho mais incomoda do que ajuda.

A entrevista foi transmitida ao vivo pela internet e atingiu o primeiro lugar nos assuntos mundiais de destaques do Twitter com a hashtag #lulablogs. Lula disse que, além de trabalhar para "facilitar" os trabalhos do governo que o sucederá, ao sair pretende se empenhar a favor da reforma política.

"Quero ver se preparo, ainda no meu governo, alguma coisa para deixar para Dilma em termos de marco regulatório", disse o presidente, citando que articulará com partidos políticos e com a sociedade uma reforma ainda em seu governo. “É inconcebível esse País passar mais um ano sem reforma (...) preciso convencer os partidos de esquerda para entender porque eles não querem (...) e a primeira batalha é no PT”, enfatizou.

Ao pedir a palavra final, Lula tocou em um ponto polêmico. Referindo-se ao episódio da bolinha de papel (atirada no então presidenciável tucano José Serra em campanha no Rio de Janeiro) como uma “desfaçatez”, Lula disse que o “povo não merecia aquilo” e que (José) Serra teria que pedir desculpas ao povo. “Fiquei decepcionado porque tentaram fazer uma outra história, mostrar um objeto invisível que não existia. Não precisa gente”.

Comunicação e imprensa
Além de citar os avanços e as deficiências de sua gestão, Lula discorreu ainda sobre a imprensa e o seu papel na comunicação. Citou o último seminário internacional organizado pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, na qual participaram países como Estados Unidos, França e Inglaterra, por exemplo. “Eles dizem que lá tem regulação sim, e isso não é crime”, afirmou Lula, sobre a reação da imprensa às iniciativas do governo relacionadas à regulação da mídia no País. “A coisa só pode acontecer quando tem um certo grau de maturidade para acontecer. O mais grave de tudo isso é que a própria categoria tem medo de fazer esse conselho”, ressaltou.

Lula defendeu um “certo controle na participação de estrangeiros no Brasil”. Referindo-se como “o resultado da liberdade de imprensa o País”, o presidente falou sobre as manobras de alguns veículos de comunicação feitas, segundo ele, no passado e destacou o papel na internet nesse cenário. “Agora tem a internet que desmente em tempo real. Vamos trabalhar para democratizar a mídia eletrônica para o povo fique cada vez mais sabido”, disse Lula.

Indicação ao STF
Questionado se tem uma lista de preferidos para indicar ao Supremo Tribunal Federal (STF), Lula explicou que deixou passar o processo eleitoral para definir com o presidente eleito uma escolha comum. De acordo com ele, é preciso definir o nome para ser votado antes do dia 17, dia em que o poder legislativo entra em férias. Lula destacou ainda a importância do papel do novo ministro, que decidirá impasses como a Ficha Limpa, desdobramentos do mensalão e o caso Batisti.

PNDH
Ao falar sobre a terceira versão do Plano Nacional de Desenvolvimento Humano (PNDH) e o crescimento da polêmica de setores conservadores da sociedade, que com base nas mudanças do texto da última versão acusaram o governo de ser a favor de questões como a descriminalização do aborto, Lula lembrou que as versões feitas em 1996 e em 2000, ainda no governo FHC, também abordavam a questão com o mesmo teor. “Cometi um erro porque aprovamos um texto daquela magnitude e não tivemos tempo para discutir”, afirmou. Trazendo à tona as decisões que envolvem a memória dos assassinatos ocorridos durante a ditadura, Lula disse tratar a questão ainda como uma investigação. “Eu ainda não tenho resultado mas até agora não foi encontrado nada, nenhum corpo. (...) Espero que a Dilma tenha mais sorte do que eu”.

Redução da jornada de trabalho e fator previdenciário
Questionado sobre o seu posicionamento relacionado à redução da jornada de trabalho, Lula disse que é a favor, mas que não quer fazer isso por meio de uma medida provisória. “Quando as centrais me procuraram para que mandássemos uma MP, eu disse que era preciso fazer política e sugeri transformar a redução num movimento político, coletar assinaturas em porta de fábrica para levar ao Congresso. Para assim não ser só um movimento do presidente da República”, explicou Lula, dizendo que não acha certo ser o fator dessa conquista. “Será uma conquista dos trabalhadores”, pontuou.

Lembrando que o fator passou a existir por determinação de FHC, Lula disse que eles tinham ciência de que a medida poderia “quebrar” o Brasil. “Vetei porque ia prejudicar mais. As centrais sabem que tanto eu como Dilma tentaremos achar um denominador comum para que ninguém saia prejudicado”.

Polícia Federal
A pedidos, Lula fez um balanço da Polícia Federal em sua gestão. Enfático, disse que sairá do governo com a tranquilidade de que nenhuma gestão investigou 20% mais do que a sua e que a Controladoria Geral da União é exemplo no mundo de transparência. Porém, Lula foi crítico aos deslizes cometidos na Operação Satiagraha. “Não se pode fazer uma investigação e ficar passando coisa pra imprensa todo dia (...) Não se pode colocar em risco a integridade de um inocente”, disse.

Telebrás

“Quando sair da Presidência vou contar toda a briga”, assim Lula falou sobre a “reestatização da Telebrás”. O presidente disse que não vê problemas em trabalhar em parceria com empresas privadas para viabilizar a banda larga no País, porém disse que “não quer enrolar e nem ser enrolado”. “Não quero que o governo seja o dono da banda larga, mas eles devem saber o que o governo pode fazer e que, se quiser, fará”, pontuou

Copa
Lula vê a conquista da sede da Copa de 2014 como muito importante ao País. Questionado se o projeto estava atrasado, Lula negou. “Vários Estados já começaram e eu vou dizer que tenho prazer de ter começado as obras”.

Polêmico, Lula trouxe novamente à tona a opção frustrada do Morumbi como estádio da abertura para a Copa. “Não sei por que o governo de São Paulo não brigou pelo Morumbi. Agora parece que o Corinthians vai fazer um estádio. Mas o Morumbi está pronto, essa coisa de estacionamento é bobagem. A FIFA vem pra cá com essa historia de padrão europeu para nós. Daqui a pouco vão querer fazer um teleférico para levar (o torcedor) direto ao banco.

Participaram da entrevista Altamiro Borges (Blog do Miro), Altino Machado (Blog do Altino), Cloaca (Cloaca News), Conceição Lemes (Viomundo), Eduardo Guimarães (Cidadania), Leandro Fortes (Brasilia Eu Vi), Pierre Lucena (Acerto de Contas), Renato Rovai (Blog do Rovai), Rodrigo Vianna (Escrevinhador) e Túlio Vianna (Blog do Túlio Vianna).

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