Livro traz depoimentos inéditos de ex-porta-vozes da Presidência

Publicação lançada pela editora Massagana reúne declarações de profissionais que trabalharam no Planalto

iG Brasília |

O livro “No Planalto, com a Imprensa” -- que acaba de ser lançado no País pela editora Massagana -- reúne 24 depoimentos de ex-secretários de Imprensa e porta-vozes da Presidência da República. Registro inédito da relação dos presidentes (a partir de Juscelino Kubitschek até o presidente Lula) com a imprensa, a publicação foi organizada quatro pessoas: editor Mário Helio Gostes, o jornalista Jorge Duarte, o diplomata Carlos Villanova e André Singer, jornalista, cientista política e ex-porta-voz do governo Lula.

“A ideia começou quando o André Singer me chamou para trabalhar na Secretaria de Imprensa em 2003. Ele me pediu para reestruturar a secretaria”, disse Villanova em entrevista ao iG . “Foi nesse momento que vimos que havia poucos registros sobre o funcionamento da Secretaria”, explicou o diplomata. Segundo ele, o trabalho começou com pesquisa em diários oficiais sobre nomeações dos secretários de imprensa.

Integrante da atual equipe da Secretaria de Imprensa, o jornalista Jorge Duarte foi responsável pelas entrevistas com os 24 ex-secretários, começando no governo Juscelino Kubitschek (1955) até hoje. Apenas dois preferiram não ser entrevistados: José Maria de Toledo Camargo, do governo Ernesto Geisel (1974-1979), e Ana Tavares de Miranda, do governo Fernando Henrique Cardoso (1996-2002).

“Toledo não quis ser ouvido porque escreveu um livro sobre sua passagem pela Secretaria de Imprensa. Ele sugeriu que usássemos trechos do livro dele, mas achamos que saía do formato que estabelecemos”, disse Villanova. “Ana Tavares é uma pessoa que não gosta de dar entrevistas. Acho que ela nunca deu entrevista alguma. Ela costuma dizer que só o ex-presidente Fernando Henrique é a notícia”, afirmou o diplomata.

Diplomata com passagem por Washington (EUA), Villanova disse que se inspirou no trabalho feito pela pesquisadora Martha Kumar. Professora do Departamento de Ciência Política da Universidade de Towson, ela tem uma série de estudos sobre a relação dos presidentes norte-americanos com a imprensa. Kumar integra o conselho de administração e a comissão “Historical Association” da Casa Branca.

Segundo Villanova, o trabalho reuniu cerca de 4 mil páginas. “Nós fizemos um pente fino e conseguimos deixar em 990 páginas, em dois volumes”, disse. Além de ser um dos organizadores do livro, Singer publicou no site Observatório da Imprensa uma apresentação sobre o livro em que conta a falta de informações sobre a passagem do ex-secretários de imprensa pelo cargo. “Não temos conhecimento da data precisa em que o escritor Autran Dourado, o decano dos secretários, foi designado por Juscelino Kubitschek para ocupar a função de secretário de Imprensa. As pesquisas que fizemos, contudo, apontam para o provável ano de 1958”, relata. Confira a seguir alguns trechos de depoimentos que constam do livro.

"Nas primeiras semanas, enfrentei um problema inesperado. O jornalista indicado pelo Jornal do Brasil, Abdias Silva, que conhecida desde Porto Alegre, teve sua credencial impugnada pela Segurança. Achei descabido o fato. Mesmo para os critérios do governo, não havia problema algum em matéria de segurança. A situação era não só desagradável como equivocada. Insisti e fui informado de que a restrição decorria do fato de ser amigo de Leonal Brizola…"
Carlos Fehlberg , secretário de imprensa do presidente Emiílio Garrastazu Médici

"O Riocentro foi realmente uma fratura no governo. Um divisor de águas. (…) Minha interpretação hoje é a seguinte: o Figueiredo não se sentia suficientemente seguro para interferir cirurgicamente no complexo militar que o tinha apoiado na eleição. Havia conflitos internos. O comportamento dele nos dias seguintes, 2,3, 4 de maio, foi de extrema irritação. Eu o vi quase apoplético (…) Num daqueles dias, ainda próximo ao fato, entrei no gabinete dele minutos antes das 18 horas, ele estava pronto para deixar descer para a garagem, e o encontrei sozinho na sala, andando para lá e para cá, falando aos gritos. Tinha acabado de realizar uma reunião com os ministros da casa."
Carlos Átila , porta-voz do presidente Figueiredo

"Foi um momento muito solitário, muito emocionante, de vencer a barreira psicológica de admitir a morte e começar a trabalhar profissionalmente com ela. Comecei a escrever a nota que leria se o doutor Tancredo falecesse. Aquela nota ficou no bolso interno do paletó uns oito dias (…) A vida andou, terminou aquilo, e eu nunca tinha visto e nunca quis ver o anúncio da morte. Há dois ou três anos, estava assistindo ao filme do Cazuza, e quando vejo estou anunciando a morte."
Antonio Britto , porta-voz do presidente eleito Tancredo Neves

"Havia má vontade e preconceito. Era uma espécie de frustração porque, durante 20 anos, aquelas pessoas comateram o regime de exceção e não se conformavam com o fato de um homem, que diziam Ter sido esteio da ditadura, ser o primeiro presidente da República da abertura. Além do mais acredito que havia também o preconceito de ser do Nordeste. (…)."
Fernando Cesar Mesquita , primeiro secretário de imprensa e divulgação do governo José Sarney

"Quando embarcamos, manifestantes balançavam o ônibus, jogavam pedras. Foi meio assustador pra queme estava dentro. O presidente Sarney, sentado na primeira cadeira, depois da porta. Ao lado, o Moreira Franco. Bayma Dennis, chefe da Casa militar, gritou: "Frota, se abaixe!. De repente, uma pessoa, com uma picaretinha, dessas de alpinista, quebrou o vidro."
Antonio Frota Neto , subsecretário de imprensa do governo Sarney sobre episódio de ônibus apedrejado no Rio

"Não há mídia no mundo capaz de aplacar uma situação econômica fora de controle. A crise econômica, no final do governo, com a inflação a quase 80% ao mês, foi realmente um desastre."
Toninho Drummond , subsecretário de imprensa do governo Sarney

"Depois de 20 anos sem poder criticar, o que fazia a cabeça da imprensa era o seguinte: ela só se credenciaria junto aos leitores na medida em que exercesse esse novo poder de crítica de forma irrestrita, sem contemplação. Daí, que, por ter pago o seu tributo na resistência, a impensa se colocava naquele momento com credora da redemocratização. Como se o avanço gradual do processo político fosse, dali por diante,. um problema do governo, dos políticos e só deles."
Carlos Henrique , secretário de imprensa do governo Sarney, de abril de 88 a março de 90

" Era um vale-tudo espantoso. As redações eram majoritariamente petistas e essas pessoas se sentiam derrotadas com a eleição de Collor. Havia uma grande má vontade. O Collor contrariou tantos interesses, além de agir como agiu, ensimesmado, isolando-se, que acabou rompendo a frágil ligação que tinha com os empresários de comunicação. Eles perderam a paciência porque, afinal, não conseguiam controlar o presidente, e liberaram as redações para aquele vale-tudo. Os caras não se preocupavam nem mesmo com o princípio mais elementar da checagem das informações."
Cláudio Humberto Rosa e Silva , secretário de imprensa de Fernando Collor de março de 90 a março de 92

"Eram nove horas da noite quando pude sair do Palácio. Antes de ir para a garagem, subi até a sala do presidente. E levei um choque ao ver o batalhão de funcionários que limpava gavetas, tirava quadros, fotos, computador e objetos pessoais. Collor tinha dado ordens de deixar tudo pronto para que o vice assumisse na manhã seguinte."
Etevaldo Dias , secretário de imprensa de Collor nos dois últimos meses de governo

"Antonio Carlos Magalhães não gostava da presença de um inimigo político, Jutahy Magalhães Jr, no que se chamava então Ministério do Bem-Estar Social e ameaçava o governo com a divulgação de provas do que ele chamou de atos de corupção (…) o presidente convidou o senador a ir ao Palácio para trazê-las e discuti-las pessoalmente. Pouco antes da audiência, o presidente me chamou e disse: "Vá á sala de imprensa e traga aqui para cima, discretamente, os seus colegas repórteres e fotógrafos que queiram presenciar o meu encontro (com ACM)". (…) Quando ACM entrou no gabinete, surpreendeu-se ao encontrar lá dentro uns vinte e tantos jornalistas. Nunca vi uma perda de rebolado tão evidente."
Francisco Baker , secretário de imprensa de Itamar Franco

"Fomos a um evento no Nordeste e, logo que saímos do auditório, havia uma turma de estudantes com faixas, reclamando do ensino secundário. (…) O presidente saiu do lado das autoridades, dirigiu-se a uma criança que segura um cartaz e perguntou: "Escute, vocês estão protestando contra o quê?". "Não sei, não, porque me deram dinheiro para segurar essa faixa". E o Itamar só riu. Não saiu nada no noticiário sobre isso porque apenas eu presenciei."
Fernando Costa , subsecretário que substituiu Baker no final do governo

"Para que o porta-voz tenha credibilidde, as pessoas precisam estar certas de que ele diz o que presidente pensa, senão não é porta-voz. Nunca desci para dar um briefing sem antes conversar com o presidente."
Sérgio Amaral , porta-voz do presidente Fernando Henrique Cardoso

"Ficou patente para mim que, quando você está num governo X, a imprensa, ao criticar o governo, parece estar fazendo o papel de oposição. Ela parece ter um conluio tácito, um aliança objetiva, como diriam os marxistas, com a oposição. (…) Quando muda o governo, você vê que a mesma imprensa que criticava o governo X passa a fazer o mesmo tipo de crítica ao governo. Aí se vê que a função da imprensa é maravilhosa, é de sempre bater, criticar, apontar alguma coisa."
Georges Lamazière , segundo porta-voz do governo Fernando Henrique Cardoso

"Uma das lições mais importantes do meu período servindo na Presidência da Republica foi poder acompanhar o trabalho da Ana Tavares. Era uma verdadeira escola."
Alexandre Parolla , porta-voz de julho de 1999 a dezembro de 2002

"A principal reivindicação dos sindicatos de jornalistas e da Fenaj era o Conselho Federal de Jornalistas. O presidente, depois da audiência com a Fenaj, me disse: "É preciso tomar cuidado porque hoje a Fenaj e o sindicato já não representam mais os jornalistas como no seu tempo de sindicalista. Houve um distanciamento é preciso saber se a base apóia". (…) Aí você vê a ingenuidade: tomei a iniciativa de distribuir o texto (do projeto) no comitê de imprensa do Planalto porque ninguém tinha publicado nada. Saiu a primeira matéria na Folha : "Governo quer controlar, fiscalizar e esfolar a imprensa". Passou isso, ninguém leu, ninguém discutiu o projeto. Houve um grande erro do governo, da Fenaj, e meu, principalmente."
Ricardo Kotscho , secretário de imprensa do presidente Lula

"Não sou daqueles que se iludem acreditando que, por exemplo, no governo Fernando Henrique só havia elogios. Não é verdade, eles criticavam também. No governo Lula, também se critica. (…) Junto com a crítica vem, talvez, o empobrecimento da cobertura no sentido de que são muito iguais. (…) Li nos jornais que o presidente Lula estava na Rússia e foi fazer uma visita de turismo. Todos fizeram a mesma matéria, todos disseram que era uma visita a um museu que era muito grande, mas que foi muito rápida. Ou seja, insinuaram que o presidente passou por lá e não viu nada. (…) É tudo parecido. Eles combinam. E acho que o combinado, o famoso, pool, é um problema de competição. O medo de que um jornal dê uma informação e outro não. Já vi jornalista combinando se a tal palavra do presidente era uma gafe ou não."
Fábio Kerche , secretário de imprensa do presidente Lula

"Tenho um estilo de trabalho coletivo, gosto de trabalhar em equipe, de formar equipes. Era frequente chamar as pessoas da equipe para ouvi-las (…) o principal aspecto da gestão da crise (de 2005), aqui na secretaria, foi redobrar a cautela o cuidado com qualquer coisa que era comunicada."
André Singer , porta-voz do presidente Lula

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