Leia a íntegra do discurso de Lula

Lula chora ao falar sobre término de seu mandato. Discurso aconteceu durante celebração do Dia do Trabalhador, promovida pela CUT

iG São Paulo |

"Meus queridos companheiros da União Geral dos Trabalhadores, da Nova Central Sindical dos Trabalhadores e companheiro da Central dos Trabalhadores do Brasil,
Companheiro Ricardo Patah,
Companheiro Calixto,
Companheiro Wagner Gomes,
Companheiro Suplicy,
Companheiro Aloizio Mercadante,
Deputados federais Aldo Rebelo, Carlos Zarattini e Roberto Santiago,
Nosso companheiro...
Trabalhadores e trabalhadoras,
Minha querida companheira Dilma Rousseff,

Hoje é um dia histórico para a classe trabalhadora mundial e para a classe trabalhadora brasileira. Nós estamos festejando um dia em que, para que nós tivéssemos a situação que nós temos hoje, alguns trabalhadores, no século passado, morreram para garantir que a gente trabalhasse oito horas por dia. Tem muita gente nova que não sabe o sacrifício que foi feito para que a gente atingisse a jornada de trabalho que nós temos hoje. Houve um tempo em que homens e mulheres trabalhavam 16 horas como jornada de trabalho, e na hora em que homens e mulheres se revoltaram contra isso, muitos foram sacrificados, perderam a vida, e hoje nós estamos aqui comemorando a jornada de oito horas e comemorando o projeto que os dirigentes sindicais conseguiram dar entrada na Câmara dos Deputados, de redução da jornada de trabalho de 40 horas para os trabalhadores brasileiros, para que a gente possa colocar mais gente no mercado de trabalho.
Então, isto aqui não é simplesmente um ato político. Isto aqui é um ato de homenagem a pessoas que nós nem conhecemos, mas que fizeram a luta necessária para que a gente pudesse estar aqui hoje, e estar aqui hoje com dirigentes sindicais da qualidade do Calixto, do Patah e do Wagner, estar aqui hoje com trabalhadores da qualidade dos trabalhadores brasileiros. Eu queria, aproveitando esta oportunidade, dizer para vocês que é o meu último ano como Presidente da República e, portanto, o meu último ano como participante do 1º de Maio exercendo o cargo de Presidente da República.
Eu queria dizer para vocês, companheiros Wagner, Patah e Calixto, que eu estou aqui com muito orgulho. Muito orgulho porque está para terminar o meu mandato e quando eu olhar na cara de cada dirigente sindical, na cara de cada trabalhador ou trabalhadora e a gente analisar o que aconteceu nesses sete anos de governo, a gente vai poder, de cabeça erguida, dizer que valeu a pena a classe trabalhadora acreditar e eleger um metalúrgico, que valeu a pena os trabalhadores elegerem um metalúrgico para presidir este país. O meu orgulho é maior porque este país já elegeu empresários, já elegeu fazendeiros, já elegeu generais, já elegeu advogados, já elegeu professores, mas precisou eleger um trabalhador metalúrgico para a gente fazer o que precisava ser feito neste país para a classe trabalhadora brasileira.
Em primeiro lugar, em primeiro lugar, com exceção da China, não existe nenhum país que criou a quantidade de empregos que nós criamos nesses sete anos de governo. Só para vocês terem ideia, com a crise de 2008, a maior crise econômica que vocês viram e que tiveram notícia, uma crise econômica que quase quebra os Estados Unidos, uma crise econômica que quase quebra a Europa, com países fortes como Alemanha, França, Inglaterra, Itália e tantos outros, uma crise econômica que trouxe sérios problemas ao Japão... Essa crise – vocês estão lembrados que eu disse em 2008 –, essa crise será uma marola no Brasil. Ela não vai causar, no Brasil, os estragos que causou nos Estados Unidos. Só para vocês terem ideia: no ano passado, nos Estados Unidos, 7 milhões de trabalhadores perderam o emprego; na Europa, mais de 7 milhões perderam o emprego; e aqui no Brasil nós criamos, no ano passado, 905 mil novos postos de trabalho. E vamos terminar, vamos terminar o nosso mandato... (O pessoal está com medo. Eu só queria lembrar ao pessoal que se tem uma coisa que eu estou acostumado é a correr risco num palanque. Fique tranquilo que eu... Fique tranquilo que eu não avançarei a faixa amarela.) Bem, o que é importante é que nós vamos terminar este ano com a economia brasileira gerando, em oito anos, 14 milhões de empregos novos para homens e mulheres deste país, 14 milhões de empregos.
Eu, eu fui dirigente sindical nos anos 70 e, modéstia à parte, fui um bom dirigente sindical. Fizemos as greves mais importantes dos anos 80. Aqui tem companheiros que participaram comigo daquelas greves. Chegamos a fazer 41 dias de greve. A gente voltava a trabalhar sem ganhar quase nada. No meu governo – os dirigentes sindicais aqui são testemunha –, sete anos consecutivos em que todos os acordos feitos pelos sindicatos garantem aumento real para o trabalhador brasileiro, significando aumento do poder aquisitivo do salário brasileiro. O povo está ganhando mais, não ainda o que precisava ganhar, não tudo aquilo que ele necessita, mas ele ganha mais.
Vocês lembram que não tinha crédito para o pobre neste país. Vocês estão lembrados que não tinha crédito para pobre neste país. Pobre e aposentado não conseguiam entrar num banco para pegar R$ 50 emprestados. Nós criamos o crédito consignado e hoje, Eduardo Suplicy, Aloizio Mercadante e companheira Dilma, são R$ 115 bilhões que estão na carteira do crédito consignado, emprestando dinheiro a um povo que antes não tinha condições sequer de entrar em um banco.
Mais importante do que isso, mais importante do que isso é que quando nós criamos o Bolsa Família, disseram que a gente estava dando esmola e quem dizia que a gente estava dando esmola eram aqueles que podiam comer do bom e do melhor e jogar fora mais comida do que tinha na casa dos pobres. Eles não sabem o que uma mãe é capaz de fazer com R$ 100, entrando no supermercado e levando comida para os seus filhos e para a sua mulher [casa]. Somente aqui em São Paulo, Dilma, somente aqui em São Paulo mais de 1 milhão e 100 mil famílias recebem o Bolsa Família, este que é o estado mais rico da Federação e que a única política social que tem neste estado é a política feita pelo governo federal.
O companheiro Patah falou da Educação, e eu fiquei feliz quando você falou da Educação, porque eu e o José Alencar somos os dois únicos dirigentes deste país – ele, vice-presidente e eu, Presidente –, nós dois não temos um diploma universitário. Na história do Brasil é a primeira vez que um Presidente e um vice não têm diploma universitário. Entretanto, o meu orgulho, Patah, é que quando eu deixar a Presidência, eu passarei para a história como o Presidente da República que mais fez universidades e mais fez escolas técnicas na história do país. São 14 universidades federais novas – são 14 universidades federais novas –, são 105 extensões universitárias pelo interior do país. Em cem anos, em cem anos, toda a elite brasileira, toda a elite brasileira construiu 140 escolas técnicas. Nós, em oito anos, vamos construir 214 escolas técnicas profissionais neste país. E eu tenho certeza que nós precisamos [de] muito mais porque o Brasil praticamente não fez as escolas que precisava fazer no século XX e nós estamos em dúvida [dívida].
Está aqui o companheiro da UNE, que sabe que nós fizemos uma revolução: nós criamos um programa chamado ProUni. O ProUni, este ano, coloca na universidade 726 mil pessoas. Jovens – homens e mulheres da periferia deste país – que não teriam condições de estudar, vão estudar com bolsa parcial e bolsa integral do governo federal. Mais importante do que isso é que quando nós criamos o ProUni diziam que nós estávamos nivelando a Educação por baixo. Depois de três anos, na primeira pesquisa que fizeram, em 15 áreas os melhores alunos eram os alunos do ProUni, com moleques, ou melhor, meninas e meninos da periferia deste país chegando à universidade e se formando doutores. Estamos levando para o Norte e para o Nordeste, para que o Brasil seja mais igual, para que o Brasil seja mais justo, para que o Brasil possa recuperar o tempo perdido.
Mais importante ainda, companheiros e companheiras, talvez na história do Brasil eu seja o Presidente da República que tenha coragem, no final do seu mandato, de frequentar quatro 1º de Maio, de quatro centrais sindicais diferentes e em todas elas poder olhar na cara de cada companheiro dirigente e chamá-lo de companheiro, olhar na cara de cada mulher e de cada homem e chamá-los de companheira ou companheiro, e a maioria dos Presidentes não teria coragem sequer de vir ao 1º de Maio porque eles sabem que eles não cumpriram o que eles prometeram. E eu tenho consciência do que nós fizemos neste país e do que nós poderemos fazer ainda.
Eu queria terminar contando uma história para vocês, uma coisa muito séria para vocês. Vocês estão lembrados... estes meninos que estão aqui, estão com o braço doendo de carregar faixa contra o FMI dez anos atrás. Quando eu entrei no governo, eu disse que era importante a gente tirar o FMI do Brasil. Eu mesmo carreguei muita faixa. Hoje, com muito orgulho, com muito orgulho, o Brasil é um país respeitado. Eu chamei o Presidente do FMI, em 2007, e disse para ele que nós não queríamos mais o FMI aqui no Brasil. Não só nós mandamos eles embora, como nós, agora, emprestamos US$ 14 bilhões para o FMI. Nós, que ficávamos dependendo do FMI, que éramos devedores, hoje nós somos credores do FMI, numa demonstração da maturidade deste país.
Nós, companheiros e companheiras, sabemos que precisamos fazer muito mais, sabemos que temos que fazer muito mais para recuperar um século perdido, para melhorar a vida do povo, para melhorar o salário, para arrumar mais empregos, para arrumar, na verdade, o futuro deste país. E vocês sabem que para a gente continuar fazendo isso é preciso que a gente continue os programas que nós estamos fazendo, afinal de contas este país nunca fez a quantidade de casas que nós estamos fazendo. Este ano, é um milhão de casas e, para o próximo período, 2 milhões de casas, sobretudo a maioria para as pessoas que ganham até três salários mínimos, pessoas que não podiam comprar casa neste país. Esta moça, esta moça, ela teve muito a ver, teve muito a ver com a Coordenação do governo para que a gente pudesse chegar aonde nós chegamos.
Quando eu deixar a Presidência da República, no dia 31 de dezembro, à meia-noite, eu voltarei para casa com a consciência tranquila, que aqueles trabalhadores e trabalhadoras que eu chamava de companheiros quando eu era candidato, eu posso olhar na cara deles e chamá-los de companheiros e estar de volta junto com eles para continuar a luta em defesa da soberania do nosso país.
Um abraço, companheiros, e bom dia para todos vocês."

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