Walter Feldman recebe salário da prefeitura para estudar Jogos Olímpicos e diz ajudar Rio, que vai sediar competição em 2016

Por um salário de aproximadamente R$ 12 mil mensais, o ex-tucano Walter Feldman completa no fim desta semana o primeiro mês de uma longa temporada em Londres. No total, serão seis meses em solo europeu, com salário pago pela Prefeitura de São Paulo, sob o título de secretário especial de Articulação em Grandes Eventos. Feldman está no exterior sob a justificativa de que irá conhecer de perto a experiência londrina na organização dos Jogos Olímpicos. O Brasil vai sediar a Olimpíada seguinte, de 2016. A sede é o Rio de Janeiro.

Ex-tucano e integrante do círculo próximo ao ex-governador José Serra (PSDB), Feldman tornou-se uma espécie “correspondente” do governo Kassab em Londres, segundo pessoas próximas à administração municipal. A transferência ocorreu logo após o ex-deputado deixar a Secretaria de Esportes, Lazer e Recreação do município, em 27 de abril. Dias antes, em 24 de abril, ele havia anunciado sua saída do PSDB, sigla que ajudou a fundar. A mudança ocorreu em meio ao esforço de Kassab para criar o PSD, mas Feldman garante que não tem planos de ingressar na nova legenda que será criada por seu chefe.

AE
Ex-secretário de Esportes, Feldman integrava os quadros do PSDB e é próximo do ex-governador José Serra
Em cerca de três semanas, o ex-secretário de Esportes já está habituado à nova rotina, deixou o hotel onde ficou hospedado por alguns dias e agora ocupa um apartamento pelo qual diz pagar 1.500 libras por semana. O teto é dividido com sua mulher Claudia, de 39 anos, e o filho dela, Claudio, de 16. O governo justifica a criação do cargo alegando que, embora a Olimpíada de 2016 aconteça no Rio, São Paulo vai colaborar com o evento oferecendo, por exemplo, estrutura para a realização de provas e para a aclimação de atletas.

Ainda assim, a nomeação despertou reações na oposição. Para o vereador petista José Américo Dias (PT), o convite de Kassab para Feldman foi um “arranjo político” para acomodar outro partido na prefeitura . “Foi a última tentativa do Kassab para tentar puxar o PMDB para aliança com o PSD em 2012”, afirmou. Com a saída de Feldman da Secretaria de Esportes, assumiu o presidente municipal do PMDB, Bebetto Haddad. O vereador petista considera o novo cargo “absolutamente desnecessário”. “Walter Feldman é qualificado, conhece o assunto, mas isso ( a necessidade de acompanhar os preparativos das Olimpíadas ) se resolve com viagens ao exterior”, afirma.

No antigo partido de Feldman, o líder do PSDB na Câmara, Floriano Pesaro, procura justificar a necessidade do cargo. “Quando se decidiu que era importante criar uma autoridade municipal para a Copa, decidiu-se que era interessante ter alguém para acompanhar o processo também das Olimpíadas, já que São Paulo nunca tinha feito eventos de alta complexidade”, disse. Segundo o vereador, a experiência de Feldman em Londres servirá principalmente para a organização da Copa em 2014. “Claro que não é para a Olimpíada, é para a Copa."

Cargo

Os detalhes do cargo ocupado por Feldman constam de um decreto editado por Kassab. No texto, o prefeito considera necessária a criação da Secretaria Especial para Articulação de Grandes Eventos tanto em São Paulo como no “âmbito internacional”, com o objetivo de contribuir para a “otimização do entrosamento das equipes”. Até abril, quando ainda estava na Secretaria de Esportes, Feldman recebia R$ 15.233,81 por mês, segundo a folha de pagamento da prefeitura. O salário atual de R$ 12 mil foi confirmado pelo próprio secretário.

Apesar de Feldman e a prefeitura garantirem que não está incluída ajuda de custo no pacote, o decreto prevê que toda “infraestrutura e apoio administrativo” necessários ao trabalho sejam providos pela Secretaria do Governo Municipal, órgão ligado diretamente ao prefeito.

Como parte da nova função, Feldman pode eventualmente sair de Londres. Foi o que aconteceu na semana passada, quando ele participou de um seminário da União Mundial das Cidades Olímpicas, sobre "como planejar legalmente um grande evento". O evento ocorreu em Lausanne, na Suíça. Como Feldman recebeu um convite do comitê olímpico para participar do evento, a prefeitura arcou apenas com a passagem aérea do secretário especial. O diretor-executivo do Instituto Rio 2016, Bernardo Carvalho, que acompanha os projetos olímpicos pela capital fluminense, também estava na lista de convidados.

Da esquerda para a direita: Ricardo Leyser, Zhang Fengchao(Presidente da Beijin Olympic City Development Foundation), sua assessora e Walter Feldman, em Lausanne, Suíça
Divulgação
Da esquerda para a direita: Ricardo Leyser, Zhang Fengchao(Presidente da Beijin Olympic City Development Foundation), sua assessora e Walter Feldman, em Lausanne, Suíça
Rio 2016

A sugestão de enviar representantes para Londres partiu do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, em uma conversa informal, segundo assessores do órgão. Tanto Kassab como o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB-RJ), receberam a mesma sugestão. Em vez de designar um representante para estar na capital britânica em tempo integral, a prefeitura fluminense tem realizado diversos intercâmbios com Londres por meio de fóruns, seminários e workshops.

Os representantes do Rio vão até Londres, participam dos eventos e retornam ao Brasil. Bernardo Carvalho, por exemplo, já realizou uma visita técnica a Londres e programa mais uma para junho com o objetivo de acompanhar a evolução das obras. “Técnicos de meio ambiente do Rio foram a Londres e técnicos de lá vieram para cá também”, afirmou. Além da área de sustentabilidade, os grupos de trabalho do Rio também observam as áreas de transporte e segurança. 

A experiência já foi testada em competições anteriores. Há quatro anos, a Prefeitura de Londres também trocou experiências com a prefeitura de Pequim, na China, onde aconteceram os últimos jogos, em 2008. Então secretário de Esportes da cidade de São Paulo, Walter Feldman também esteve em Pequim para aprender mais sobre a formação de atletas a partir do investimento na prática esportiva em estruturas de base.

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