Com perfil técnico e gestor, presidenta da República se choca tradição política de troca de cargos por apoios no Congresso

Mais ligada em números e resultados do que em sorrisos e tapinhas nas costas, a presidenta Dilma Rousseff colocou em prática um jogo arriscado na relação com o Congresso e os partidos da base aliada. Se na montagem do governo aceitou imposições para nomes no Ministério, deixou claro que não toleraria desvios ou erros à frente das pastas de seu governo. A curto prazo, a tática deu certo. Adiante, porém, pode ter sérios problemas de governabilidade.

Essa é a avaliação de aliados, oposicionistas e cientistas políticos ouvidos pelo iG . Eles fizeram considerações sobre a crise na Casa Civil que detonou o então principal articulador político do governo, o ex-ministro Antonio Palocci . A faxina no Ministério dos Transportes , que abalou a relação com o PR _aliado do PT desde a pré-campanha de Luiz Inácio Lula da Silva em 2001. E, por fim, as recentes crises nas pastas da Agricultura e do Turismo, comandadas pelo poderoso PMDB. Atualmente, o partido é dono da maior bancada no Senado e da segunda maior na Câmara.

Dilma entre os peemedebistas mais poderosos do partido: Temer e Sarney
AE
Dilma entre os peemedebistas mais poderosos do partido: Temer e Sarney
“A curto prazo, a presidenta não terá dificuldades. O problema é médio e longo prazos”, afirmou o cientista político Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília (UnB). “É uma linha muito fina que pode se romper com o desgaste. Se continuar batendo de frente com o Congresso poderá perder o controle da situação”, disse. Serve como exemplo a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Transportes que quase vingou na semana passada.

Num primeiro momento, Dilma soube aproveitar a onda e ganhou pontos na opinião pública ao implementar a "faxina" no Ministério dos Transportes. No entanto, mais recentemente, a luz amarela acendeu. Nas crises na Agricultura e, sobretudo, no Turismo, o PMDB demonstrou irritação com a presidenta e cobrou explicações. Dilma e o ministros palacianos (Gleisi Hoffmann, Casa Civil, Ideli Salvatti, Relações Institucionais, e Gilberto Carvalho, Secretaria Geral) reagiram rápido.

Além de sinais do governo de que a Polícia Federal exagerou nas prisões no Turismo, a presidenta fez chegar ao Congresso que não foi devidamente avisada sobre ações pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Oficialmente, a PF é subordinada a ele. Também numa tentativa de aplacar a crise Cardozo resolveu questionar a polícia sobre o uso de algemas nas prisões de funcionários indicados pelo PMDB, como Colbert Martins (PMDB-BA).

Para o cientista político David Fleisher, da UnB, as recentes crises não impedirão novas trocas de cargos por apoio no Congresso. “Isso é muito tradicional no Brasil. A presidenta tem até 20 mil cargos para livre provimento. Continuarão sendo nomeados políticos em postos da administração”, disse. “O problema é a corrupção. O uso dos cargos e influência para encher seus cofres. O PR, por exemplo, se agarrou nos Transportes porque não tem governos estaduais ou prefeituras de peso”, completou.

Aliados fiéis ao governo avaliaram que Dilma arriscou-se demais ao fragilizar suas relações com o PR e o PMDB ao mesmo tempo. No Senado, a bancada de sete congressistas do PR saiu do bloco de apoio ao governo liderado pelo PT. Comandado por Renan Calheiros (AL), o PMDB viu uma oportunidade para valorizar o passe na Casa, principalmente porque na atual legislatura as forças de oposição são menores do que eram no governo Lula.

Reaproximação do PR

Na Câmara, o PR também fez barulho e assanhou a bancada peemedebista que já andava insatisfeita. Por isso, o líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira (SP), resolveu dar declarações amistosas. “Precisamos voltar a colocar o PR no processo de discussões importantes”, afirmou. O objetivo é evitar uma extrema dependência do PMDB no Congresso.

No Senado, o senador Blairo Maggi (PR-MT) já disse que não tem compromisso de apoiar o atual ministro dos Transportes. Afinal de contas, o também senador Alfredo Nascimento (PR-AM) era o ex-ministro que acabou se demitindo por falta de apoio da presidenta. Na Câmara, pelo menos publicamente, a conversa é mais amena.

“Apesar das declarações do nosso presidente Alfredo Nascimento, nós deixamos claro que não faremos oposição ao governo Dilma”, disse o líder do PR na Câmara, Lincoln Portela (MG). “Ao mesmo tempo, reafirmamos que não há nenhuma prova material contra ele, que foi alvo de uma injustiça por parte da imprensa”, ressaltou o deputado.

Oposição se aproveita

A oposição também já percebeu que precisa se aproveitar dos problemas na base para conseguir aumentar seu poder de fogo. Nos bastidores, senadores do DEM e do PSDB tentam fazer pontes com PR, PMDB e até o PP. Ao mesmo tempo, critica a postura da presidenta nas crises.

“Ela é autoritária. Está abandonando os partidos que ajudaram elegê-la”, afirmou o líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO). “A popularidade também já começou a cair. É só ver a última pesquisa da Confederação Nacional da Indústria feita pelo Ibope”, completou o senador oposicionista.

Segundo o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu as ações de Dilma. "Ele disse que é preciso separar o joio do trigo. Ou seja quando há denuncismo da oposição e quando há irregularidades", disse o pedetista com 40 anos de vida parlamentar em Brasília. "Na minha opinião, Dilma só está cumprindo o que diz a Constituição: todos são iguais perante a lei".

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