Prefeito de São Bernardo tenta influenciar no negócio que envolve R$ 10 bilhões. Terça-feira ele fará voo no francês Rafale

Apesar de estar fora do governo federal desde que se elegeu prefeito de São Bernardo do Campo (ABC paulista) em 2008, Luiz Marinho (PT) tenta influenciar no projeto mais caro do governo federal: a compra de 36 caças para a Força Aérea, orçada em R$ 10 bilhões.

Marinho reconhece não ter conhecimento técnico sobre os aviões. Afirma estar em busca de investimentos para o município. Com os suecos, diz ter feito um acordo para criação de um centro de tecnologia, em São Bernardo do Campo, no valor de US$ 50 milhões.

Nesta terça-feira (3), Marinho viaja para a França onde visita a sede da empresa Dassault, que produz o Rafale _ até então favorito para vencer a concorrência. Em março de 2010, ele esteve em Estocolmo para conhecer o caça Gripen, da Saab.

“Meu conhecimento técnico é igual o do (Nelson) Jobim. Estamos empatados”, disse em entrevista ao i G . Ele contou que, após a ida a Estocolmo, procurou integrantes do governo para defender o Gripen, mas disse que não foi recebido por Jobim.

“Falei com o presidente Lula e com alguns ministros. No entanto, não tive a chance de conversar com o ministro Jobim. Ele fechou todas as portas”, afirmou. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Marinho voou no caça sueco Gripen, em março de 2010
Divulgação
Marinho voou no caça sueco Gripen, em março de 2010

iG: Por que o senhor resolveu participar dessa discussão sobre a compra dos caças?
Luiz Marinho: A gente trabalha de acordo com as possibilidades que a cidade possa ter. Eu fui procurado pelo pessoal da Suécia. Em São Bernardo do Campo, há uma fábrica da Scania, que tem origem sueca.

iG: O senhor foi procurado já como prefeito ou ainda como ministro?
Marinho: Já como prefeito. Falaram que gostariam muito de apresentar o Gripen. Num primeiro momento, resolvi colher informações. Tratava-se de uma discussão muito distante da realidade de um município.

iG: O senhor ficou surpreso?
Marinho: Sim. Preferi analisar bastante, mas eles insistiram muito para que eu fosse conhecer a fábrica na Suécia e fosse voar no Gripen até como forma de ajudar a desmanchar uma versão de que o avião era de papel, que não existia. Acabei decidindo fazer essa viagem. Eles me disseram que se fossem vitoriosos fariam investimentos em São Bernardo. Em seguida, fizeram um seminário aqui na cidade e disseram que, independentemente de ganharem ou não a disputa, fariam um centro de desenvolvimento de tecnologia na cidade.

iG: Falaram em algum valor?
Marinho: Da ordem de US$ 50 milhões em cinco anos. E se forem vencedores da disputa dos caças, o investimento será ainda maior para a produção de componentes do Gripen em São Bernardo.

iG: Quando o senhor foi convidado chegou a procurar alguém do governo federal?
Marinho: Troquei idéias com várias pessoas do governo, falei com o então presidente Lula.

iG: O que o presidente Lula disse?
Marinho: Ele me disse: “O que você tem a perder em não ir? Você não tem nada a perder. Vai conhecer. Não sabemos qual decisão iremos tomar”.

iG: Mas o governo chegou a anunciar uma preferência pelo Rafale.
Marinho: É verdade. A avaliação, inclusive, é que a decisão já estava tomada. Bom, eu fiz a viagem, voei no Gripen.

iG: E como foi?
Marinho: A Força Aérea brasileira prefere o Gripen. O ministro Nelson Jobim (Defesa) prefere o Rafale. Aparentemente, o presidente Lula tinha preferência pelo Rafale. Já a presidenta Dilma ainda não deu sinais do que ela prefere.

iG: Ela deve começar de novo o processo de concorrência.
Marinho: A presidenta me disse ldurante a campanha eleitoral que a intenção dela era analisar bem o processo para tomar a decisão.

iG: A impressão que o senhor teve é que ela deve estender essa discussão?
Marinho: Eu acho que vai, mas é puro ‘achometro’. Vai entrar para o segundo semestre com certeza e podendo até se alongar mais. Agora, a minha intenção é buscar compromissos e parcerias para haver investimentos na cidade, independentemente de quem seja o vencedor.

iG: O senhor faz relatórios dessas viagens? Procurou pessoas do governo federal?
Marinho: Falei com o presidente Lula e com alguns ministros. No entanto, não tive a chance de conversar com o ministro Jobim. Jobim fechou todas as portas. Então fazer o quê. Eu liguei para ele, mas não me retornou.

iG: Mas o senhor não tem conhecimento técnico. Como faz a análise de um voo desses?
Marinho: Meu conhecimento técnico é igual o do Jobim. Estamos empatados. Na verdade, o voo é mais conhecimento pessoal. Não agrega na informação porque a gente não tem conhecimento técnico. Meu conhecimento técnico é zero em relação a isso. É só mais a emoção e a coragem de voar que muita gente não tem

iG: O senhor não tem ser usado pelas empresas?
Marinho: Meu foco é muito claro é trazer investimentos para a cidade e para a região. Ser Rafale, Gripen ou Boeing o vencedor não tem problema.

iG: É a prefeitura quem está bancando a viagem?
Marinho: Não. Estou viajando a convite das empresas.

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