Italianos já planejam boicotes contra Brasil, diz associação

Diretor de ONG que representa parentes de vítimas de terrorismo na Itália afirma que medidas não afetarão relação entre países

Matheus Pichonelli, iG São Paulo | 05/01/2011 08:00

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Em meio à expectativa quanto à libertação do ex-ativista Cesare Battisti, italianos já estudam possíveis boicotes contra produtos brasileiros, segundo o diretor de Relações Internacionais da Associação Italiana das Vítimas do Terrorismo (Aiviter), Luca Guglielminetti. Ao iG, ele afirmou que a entidade vem recebendo nos últimos dias mensagens de pessoas afirmando estarem dispostas a restringir a compra de produtos ou atividades turísticas brasileiras como forma de retaliar a decisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de não extraditar Battisti.

A afirmação ocorre um dia após italianos terem protestado contra a concessão do refúgio ao italiano, condenado por quatro homicídios em seu país. Embora aponte a existência de um movimento em favor dos boicotes, Guglielminetti diz ser pessoalmente contra ações nesse sentido. Ele diz acreditar também que essas medidas serão pontuais e insuficientes para prejudicar as “importantes” relações comerciais entre os dois países. “Sabemos também que muitos brasileiros não concordam com a decisão de Lula”, disse.

A despeito da tensão entre Brasília e Roma desencadeada ao longo do episódio, o próprio primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, declarou nesta terça-feira (4), que a decisão do governo brasileiro não afeta “as boas relações” com o país.

O diretor da associação afirmou que muitas manifestações contrárias à decisão têm sido feitas em mensagens enviadas por e-mail à Embaixada brasileira em Roma ou em protestos em frente ao local. Ele admite, no entanto, que essas manifestações são usadas por partidos políticos italianos que “manipulam parentes de vítimas”.

“Nós representamos mais de 300 familiares de vítimas de terrorismo, e estamos fora de jogos partidários: queremos apenas defender o direito e a memória dessas vítimas através da justiça e da história”, afirmou.

“Hoje mesmo vimos na TV um protesto na frente da Embaixada brasileira em Roma em que havia mais políticos do que cidadãos ou familiares de vítimas. Diferentes partidos, de direita e esquerda, fizeram manifestações em horários diferentes, só para passar a mesma mensagem: ‘queremos Battisti na Itália’”.

Ainda assim, a entidade espera que, com manifestações e e-mails, haja pressão para que a presidenta Dilma Rousseff reveja a decisão tomada pelo antecessor de manter Battisti no Brasil. Para isso, pede que seja levado em conta o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) de que o ativista deveria ser extraditado – o mesmo STF, no entanto, entendeu que cabe ao presidente da República o parecer final sobre o caso.

"Acho que a Corte Internacional de Haia poderia dar uma resposta positiva para a Itália, mas isso levaria muitos anos. Nesse meio tempo, esperamos que a nova presidenta do Brasil possa considerar a extradição de Battisti, como pede o Supremo Tribunal brasileiro”.

Em meio à polêmica, Battisti segue detido na penitenciária da Papuda, em Brasília, para onde foi levado em 2007 após deixar a França, onde vivia desde que fugiu da prisão na Itália após ser condenado pelo assassinato de quatro pessoas, entre 1977 e 1979. A Itália pedia ao Brasil extradição do ex-ativista, mas o pedido foi negado pelo governo brasileiro, que confirmou a concessão do refúgio ao italiano na semana passada, sob a alegação de que sua “situação pessoal” estaria ameaçada em seu país.

Na terça-feira, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cezar Peluso, determinou o desarquivamento do processo relativo à extradição do ex-ativista, que havia sido enviado para a Seção de Baixa e Expedição no início de 2010 após o STF ter julgado o caso no final de 2009.

O processo foi desarquivado para a anexação de dois pedidos: o da defesa de Battisti, cobrando a soltura imediata do ex-ativista; e o da defesa da Itália, impugnando esse pedido. Somente após a juntada dos documentos é que o processo será encaminhado à Presidência do STF, para uma decisão – que pode ser tomada por liminar do presidente ou em conjunto com os demais ministros, que voltam do recesso em fevereiro.

Para a defesa da Itália, a decisão de Lula de não extraditar Battisti não é autoexecutável e ainda cabe ao STF analisar sua compatibilidade com o julgamento da Corte que determinou o retorno de Battisti para a Itália. Já segundo a defesa de Battisti, Peluso poderia determinar a soltura do ex-ativista sem desarquivar os autos.

A opção pelo desarquivamento indica que o caso pode voltar a ser discutido pelo plenário do STF após o fim do recesso do Judiciário, que termina no final do mês. Peluso já sinalizou que não deve decidir nada até o fim do recesso e que encaminhará os pedidos recentes ao relator Gilmar Mendes.

*Com informações da Agência Brasil

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