Alas rivais na sigla promovem encontros concomitantes; marineiros rejeitam mudar de partido e condenam alianças 'incoerentes'

A queda de braço entre o grupo de Marina Silva e a direção nacional do Partido Verde tem mais um capítulo neste sábado com a realização, no mesmo horário e cidade, de encontros organizados para medir força entre as alas rivais da legenda. Os dois encontros estão marcados para as 14h.

De um lado, a ex-senadora fará um evento público com lideranças na Assembeia Legislativa de São Paulo para, mais uma vez, defender mudanças internas no partido, presidida pelo vereador José Luiz Penna desde 1999. Penna, por sua vez, estará do outro lado da cidade, no Tatuapé, à frente de um evento denominado “Festa da Democracia”, para proclamar os representantes – “democraticamente eleitos”, como definido no convite – da executiva municipal. É uma resposta aos apelos por “abertura” feitos pelos marineiros desde que Penna obteve mais um ano de mandato à frente da legenda, no mês passado.

A atitude provocou revolta no grupo de Marina, autonomeado Movimento Transição Democrática e integrado por nomes como Alfredo Sirkis e Fernando Gabeira. Nos bastidores, foi aventada a possibilidade de os marineiros deixarem a legenda e fundarem um novo partido – atitude considerada complicada em razão do nome Partido Verde, visto por eles uma espécie de “bandeira mundial” com similares em outros países, como a Alemanha.

Passada a campanha, Penna e Marina agora se enfrentam dentro do PV
Agência Estado
Passada a campanha, Penna e Marina agora se enfrentam dentro do PV
Capitalizado pelos quase 20 milhões de votos que forçaram o segundo turno na última campanha presidencial, o grupo ampliou e tornou públicas as pressões por mudanças internas que faltamente refletirão no arco de alianças esboçado até o momento para 2012. Isso porque, pouco mais de um ano das eleições municipais, apoiadores da ex-presidenciável já planejam lançar candidato em todas as capitais do País.

Para isso, defendem a unificação de um discurso para evitar alianças consideradas “incoerentes” em Estados como Amazonas, coração na floresta amazônica e onde o partido não se empenhou na campanha de Marina, e Mato Grosso, celeiro do agronegócio. Rondônia e Paraíba também são apontados pelos marineiros como Estados “problemáticos”.

O objetivo é evitar que, em 2012, o partido flerte com grupos de lideranças locais como Amazonino Mendes (AM), o prefeito que disse desejar a morte de uma moradora de área de risco em Manaus, e Ivo Cassol (RO), ex-governador ligado a madeireiros e considerado inimigo político de Marina Silva na região. Em Mato Grosso, a crítica da ala ligada à ex-senadora é que o PV local privilegia figuras “secundárias” em detrimento de lideranças ambientalistas que, segundo grupo da Marina, teriam mais peso político. Em outros Estados, a preocupação dos marineiros é que o partido figure apenas como coadjuvante de disputas em torno da órbita PT x PSDB locais.

Para que isso não aconteça, o grupo considera fundamental a promoção de mudanças no estatuto do partido, redigido há cerca de 25 anos, e que prevê que os dirigentes dos Estados sejam escolhidos pela direção nacional e as municipais, por sua vez, pelas lideranças estaduais. Os marineiros exigem que os filiados à legenda tenham direito a voto. “Até hoje é um modelo provisório. É uma estrutura do século 19 em pleno século 20”, afirma Maurício Brusadin, presidente do PV em São Paulo. “O estatuto é anterior à Queda do Muro de Berlim”, ironiza.

O argumento é que o partido precisa atrair novos filiados e lideranças para ganhar musculatura para as eleições de 2012 e 2014 – quando Marina pretende se consolidar como a “terceira via” de uma eventual sucessão presidencial. “Se essa geração que está acostumada a tomar decisões e participar de debates pela internet sentir que pode ser tutelada dentro do partido, que não podem opinar, não vão ver sentido em participar da vida partidária”, diz Brusadin.

Para reunir apoio, o grupo deu início a caravanas pelos Estados, onde são realizados encontros com lideranças, políticos eleitos e filiados. A “caravana” já passou por Vitória (ES) e pela capital paulista. Os próximos encontros devem acontecer no Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG) e Porto Alegre (RS).

Segundo os marineiros, as mudanças exigidas pelo grupo não preveem, por exemplo, alteração nas posições do partido em relação a temas como liberação da maconha e direito ao aborto – questões delicadas para Marina Silva, que é evangélica.

São Paulo

Em São Paulo, onde o partido dá apoio ao prefeito Gilberto Kassab e ao governador Geraldo Alckmin – sem necessariamente fazer oposição à presidenta Dilma Rousseff – ainda não há definições sobre se o partido terá candidato próprio. A situação ainda será avaliada pelos partidários. Hoje, a sigla ocupa a Secretaria do Verde no município e a secretaria de Saneamento no Estado.

As alianças em São Paulo, segundo Brusadin, não estão descartadas, desde que o projeto do partido seja levado em conta. O ideal, diz, é que o partido o maior número possível de pessoas “vocalizando” discursos para poder ocupar tempo de TV e nos debates. O grupo de Marina avalia que, com a exposição obtida na última eleição, o PV consiga multiplicar por cinco o número de prefeitos eleitos pelo País – hoje são pouco mais de 70. Procurado, o presidente do PV não atendeu os telefonemas feitos na tarde de sexta-feira.

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