Governo sofre derrota em sessão tumultuada no Senado

Em meio a troca de ofensas em plenário, oposição consegue estender sessão até meia-noite e duas MPs caducam

Fred Raposo, iG Brasília |

Diante de um plenário lotado, o governo sofreu derrota na madrugada desta quinta-feira em sessão do Senado marcada pelo tumulto. Sem José Sarney (PMDB-AP) na Presidência ou apoio da bancada peemedebista, os governistas assistiram à oposição estender a sessão até meia-noite, quando expiraram duas medidas provisórias (MPs).

A confusão começou depois das 21h, quando a oposição começou a se revezar ao microfone para gastar o tempo da sessão, durante a discussão da MP 520/2010. A MP autorizava a União a criar a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), com objetivo de administrar hospitais públicos.

A essa altura, Sarney havia deixado a Presidência e o posto foi assumido pela senadora Marta Suplicy (PT-SP). Escalado para fazer o tempo passar com pedidos para uso da palavra, discursos longos e provocações, o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) cobrou que a senadora governista Gleisi Hoffmann (PT-PR) explicasse de onde sairiam os recursos para criar a Ebserh.

Iniciou-se um bate-boca entre Ribeiro e Marta, que insistiu que a explicação fosse dada após o término da discussão. O tumulto foi intensificado às 23h30, quando o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) apresentou requerimento para encerrar a discussão e, em seguida, iniciar a votação da matéria.

Sob de protestos da oposição e gritos de “vergonha”, “a ditadura acabou” e na “marra não vai levar não”, Marta aprovou o requerimento. Apesar dos ataques oposicionistas, que acusava a presidente em exercício de extrapolar duas funções, o PMDB, principal aliado do governo, não manifestou qualquer apoio a Marta.

O senador Armando Monteiro (PTB-PE) resumiu o sentimento de omissão em relação aos peemedebistas quando, após a sessão, desabafou a um assessor: “O Sarney desapareceu!”. O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) foi dos poucos a defender a petista: “Senador Flexa, Vossa Excelência está sendo desrespeitoso com a presidente. Está passando dos limites”.

Marta aproveitou a deixa para alfinetar o tucano: “Acho que é uma questão de machismo”. Ao que Flexa Ribeiro retrucou: “Senador Lindbergh, não fale em desrespeito aqui porque Vossa Excelência não é o melhor senador para falar sobre este assunto”.

O clima de animosidade só foi amenizado às 23h40, quando o líder do governo na Casa, Romero Jucá (PMDB-RR), pediu a suspensão dos trabalhos por cinco minutos para negociar um acordo e evitar que as MPs caducassem. Porém, a discussão se estendeu para além da meia-noite, quando Marta decidiu encerrar a sessão.

Alguns parlamentares lamentaram as brigas. O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) ironizou: “Se fossemos todos para o Conselho de Ética, muitos poderiam não estar aqui”. Na saída do plenário, Marta recebeu a solidariedade do líder do PT, senador Humberto Costa (PE).

“Foi uma situação inédita”, assinalou Marta, procurando encobrir a tensão com uma fala calma e pausada. “Estou me acostumando a lidar com situações como essa. A oposição está no papel dela. Da minha parte cumpri exatamente o regimento”.

Já o senador Flexa Ribeiro manteve o tom provocador: “Regimentalmente demos uma demonstração de que democracia não se faz na base de chicote. O governo sentiu o complexo de cinderela: tudo acabou à meia-noite”.

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