Governo está mais atento à produção do que à inflação

Credibilidade da política monetária cresceu desde os primeiros 100 dias de governo e preocupação maior agora é com indústria

Danilo Fariello, iG Brasília |

Dilma Rousseff atravessa os 200 dias de governo nesta quarta-feira de maneira mais confortável do que passou pelos primeiros 100 dias . Na primeira parte, o medo de um estouro da inflação era percebido por todos os corredores do governo e por economistas. No segundo período, porém, a inflação comprovou-se domável – embora ainda não completamente domada – e novos problemas surgiram, principalmente com foco na produção e na exportação, que estão cada vez mais comprometidas com o câmbio valorizado.

Reuters
Guido Mantega tem conquistado credibilidade do mercado financeiro
Na avaliação de uma fonte graduada do Ministério da Fazenda, a preocupação número 1 deixou de ser econômica para ser política. Se no cenário político nos primeiros 100 dias o governo Dilma chegou ao céu e nos seguintes passou pelo inferno , no campo econômico, essa realidade foi “inversamente proporcional”.

Segundo ele, ao fim dos 100 dias, muitos duvidavam da capacidade do governo em conter os preços – “parecia o fim do mundo”. Mas agora não existem mais essas manifestações, com cobranças mais pontuais por setores, avalia a fonte.

Situação fundamental para essa acomodação das críticas macroeconômicas tem sido a percepção de que o governo cumpre a determinação de corte de R$ 50 bilhões no orçamento de 2011 . Com os cortes, o governo já conseguiu garantir boa parte do superávit primário tido como meta neste ano, sem interromper bruscamente o Programa de Aceleração do Crescimento ( PAC ) ou o Minha Casa, Minha Vida .

Essa percepção, de que os ministérios têm feito seu dever de casa – como descreveu ao iG a secretária de Orçamento Federal, Célia Correamanteve a tranquilidade do mercado financeiro mesmo quando o suposto fiador da política monetária, o ex-ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, caiu após denúncias de enriquecimento rápido. Com a queda de Palocci, Guido Mantega definitivamente se firmou como principal voz econômica no governo Dilma .

Mesmo assim, choques de ofertas vindos do exterior fizeram com que a inflação, de fato, rompesse o teto da meta do IPCA para o ano – de 6,5% -, chegando ao pico de 6,7 % em junho, no acumulado em 12 meses . Agora, porém, a equipe econômica já vê o índice em franco recuo.

Elevaram a confiança na política monetária as declarações do Conselho de Política Monetária (Copom) de que o ciclo de aumento da taxa Selic será “suficientemente prolongado” para acomodar o IPCA dentro da meta. Isso indica que a taxa básica subirá além dos atuais 12,25% ao ano, elevação de 3,5 pontos percentuais desde o início do aperto monetário.

Discussão virou calibrar crescimento

Apesar de o mercado ainda apostar que a inflação ficará acima da meta de 4,5% também em 2012 , a discussão econômica agora se concentra na calibragem do crescimento econômico - principalmente pela oferta e custo do crédito - para que o PIB avance o máximo possível de maneira sustentável, ou seja, sem puxar os preços.

Nesse sentido, o governo Dilma deve agora centrar fogo em políticas microeconômicas, por exemplo, para aliviar a pressão cambial sobre os exportadores, melhorar as condições tributárias das pequenas empresas com a correção do SuperSimples e controlar a expansão da demanda do crédito - com meta de crescimento em 15% para este ano.

A cúpula da equipe econômica se prepara, porém, para enfrentar a pressão inflacionária pelo aumento dos salários , que se concentram tradicionalmente no segundo semestre. A expectativa de aumentos acima da produtividade, principalmente no setor de serviços, fez o BC acender sinal amarelo para o incremento dos proventos. Essa preocupação fica mais relevante diante da expectativa de aumento real de mais de 5% do salário mínimo no próximo ano, pela regra atual.

Setor externo e câmbio são preocupações

O governo ainda tem de lidar com um cenário externo bastante complexo, principalmente tendo em vista as mudanças necessárias no sistema fiscal americano e na crise grega, para citar apenas dois exemplos. Na apresentação do relatório de inflação do segundo trimestre, o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, reconheceu que, do front externo, “a única certeza é de que há muitas incertezas ainda”.

Esse cenário externo é a principal fonte de pressões da taxa de câmbio, que levou nos últimos dias o Real à máxima valorização em relação ao dólar desde 1999. É nessa frente, a cambial, que o governo pretende concentrar esforços com o lançamento do programa Brasil Maior . O plano deve oferecer benefícios principalmente para a indústria de transformação exportadora, a mais castigada pela valorização do Real.

Outra agenda que deve ganhar cada vez mais espaço no governo, principalmente depois de dissipados os maiores temores macroecônomicos, é a reforma tributária, cujas discussões já avançaram no primeiro semestre e devem tomar boa parte da agenda do Ministério da Fazenda e do Congresso até o fim do ano.

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