Geração da redemocratização chega ao poder

Jovens políticos e militantes que cresceram no período democrático se consideram símbolos de renovação

Nara Alves, iG São Paulo |

Eles cresceram nos anos 80, viram as Diretas Já pela TV e, em 1989, ainda não tinham idade para votar na primeira eleição direta para presidente após o golpe militar. Na adolescência, já navegavam na internet. Os jovens que hoje ocupam posições de liderança nos partidos e cadeiras no Congresso têm como ídolos seus próprios familiares, Ulysses Guimarães e Che Guevara. E consideram-se símbolos de renovação política.

Agência Câmara
ACM Neto considera-se símbolo da renovação do DEM
Aos 31 anos, o deputado federal Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA) carrega o peso de um dos mais influentes nomes do cenário político brasileiro nas últimas quatro décadas, inclusive durante o regime militar. Mesmo representando a continuidade de sua família na política, ACM Neto avalia-se promotor da reciclagem da legenda. “A renovação do DEM é uma preocupação e os jovens do partido têm o papel de provocar a outra geração”, diz. Para ele, há uma enorme diferença entre a sua geração e a de seu avô. “O senador Antonio Carlos começou a fazer política na década de 50 do século 20. Eu, no século 21. O advento da internet mudou a sociedade e obrigou os políticos a mudar suas estratégias de trabalho”, justifica.

Para ajudar na tarefa de renovação da imagem da legenda, ACM Neto conta com a ajuda de outro jovem herdeiro político, o deputado federal Efraim Filho (DEM-PB), de 30 anos, filho do senador Efraim Morais. “A antiga geração dá valor às inovações da juventude e isso é mais importante do que nunca no momento que o partido vive”, afirma. Entre as inovações propostas por Efraim está a mudança na maneira como a legenda incentiva a participação política. Antes, por exemplo, o DEM promovia um concurso de monografias. Agora, a fórmula foi adaptada para o Desafio de Vídeos, em que militantes e simpatizantes podem inscrever vídeos através do YouTube. “A evolução dos meios de comunicação foi o que mais impactou a política. A internet diminui distâncias e torna a democracia mais transparente e participativa”.

AE/ARQUIVO
Manuela D¿Ávila se inspirou em Che Guevara para entrar na política
Do lado oposto da Câmara, a deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), de 28 anos, não teve na família alguém que lhe iniciasse na política. Filha de uma juíza e um professor universitário, foi o guerrilheiro Che Guevara sua maior inspiração. Para ela, a política não é uma guerra de gerações, mas sim de ideias novas e antigas. “Nossa geração tem uma noção maior de representatividade”, diz. Manuela começou sua carreira política no movimento estudantil, foi presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e eleita vereadora em Porto Alegre em 2004, quando tinha 22 anos.

Militância

Filho de um mestre de obras nascido no interior da Bahia, o presidente do PMDB Jovem, Nestor Neto, cresceu em Salvador, na comunidade da Mata Escura, antigo quilombo onde até hoje “não há um posto de saúde 24 horas”. Os pais e seus seis irmãos nunca tiveram envolvimento com política, mas as imagens de Ulysses Guimarães na televisão despertaram seu interesse na luta por democracia.

Nestor envolveu-se no movimento estudantil de todas as escolas públicas por onde passou até a chamada “Revolta do Buzu”, um protesto liderado pelo grupo de Nestor contra um possível aumento abusivo da tarifa dos ônibus, popularmente chamados de “buzu”. “Queríamos um movimento independente, não tínhamos partido, mas depois, senti necessidade de ampliar minha atuação”, explica. Nestor, então, candidatou-se a vereador pelo PDMB em 2004. Não foi eleito, mas passou a liderar o partido no Estado onde metade dos filiados é composto por pessoas com menos de 35 anos.

Divulgação
Ale Youssef quer integrar cultura underground e política
Na capital paulista, o dono da casa de shows Studio SP e fundador do Instituto Overmundo, Ale Youssef (PV-SP), propõe a aproximação do poder público com movimentos culturais alternativos, como hip hop, grafite e skate. “A gente precisa de candidatos nessas galeras. Mas eles não têm interlocução com o mundo político. Os partidos, a UNE, têm um sistema de plenárias horroroso, estão longe dos jovens”, diz.

Ele mesmo, no entanto, não surgiu politicamente desses grupos chamados undergound. Filho de um casal de dentistas, Ale Youssef estudou em colégios particulares conservadores e cursou Direito na tradicional Faculdade Presbiteriana Mackenzie. O primeiro partido ao qual Ale Youssef se filiou foi o PT, depois foi para o PPS e agora está no PV. Agora, cogita candidatar-se a deputado federal pela legenda. Segundo ele, caso seja candidato, sua campanha não repetirá os mesmos erros potencializados pela velha estrutura partidária, que “arrecada dinheiro, compra apoio de lideranças, se apóia no curral eleitoral”.

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