Exilado, irmão de Celso pede justiça e quer Sombra condenado

Bruno José Daniel Filho foi obrigado a viver na França com a família depois de receber várias ameaças de morte após o crime

Rodrigo Rodrigues, iG São Paulo |

O assassinato do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, em 2002, levou os irmãos do petista a exigirem investigações profundas sobre a ligação da morte com o suposto esquema de corrupção instalado na prefeitura do município da região metropolitana de São Paulo.

Em busca de respostas para o que ocorreu com o irmão, Bruno José Daniel Filho, o irmão mais velho do ex-prefeito petista, foi aos jornais exigir transparência nas investigações. A reação foi suficiente para que Bruno Daniel e a mulher começassem a receber ameaças de morte, o que obrigou toda a família (o casal mais dois filhos), em 2005, a pedir asilo político na França, onde moram há cinco anos.

Agência Estado
Bruno José Daniel, irmão do ex-prefeito de Santo André, ao lado da mulher, Marilena Nakano. A família se exilou na França e sobrevive com ajuda de amigos e bicos
A vida deles em Paris está distante do glamour que a cidade luz aparentemente oferece aos turistas. Os primeiros dias da família na capital francesa foram de muito sacrifício, segundo Bruno, ao terem que dividir apartamento de três quartos com até onze exilados de outras nacionalidades, convivendo, inclusive, com ratos que insistiam em aparecer na moradia.

Anos mais tarde, com a crise econômica de 2008, conseguir um emprego fixo se tornou um desafio ainda pior. A baixa remuneração oferecida pelo governo francês não é suficiente para pagar as contas de casa, o que obriga a família a sobreviver de bicos em universidades da região. Durante três dias o iG tentou contatar a família por telefone, sem sucesso. A falta de dinheiro obrigou Bruno Daniel, sua mulher e os dois filhos, a mudarem de casa várias vezes, deixando-os sem dinheiro até para pagar a conta de telefone ou o serviço de voz via internet.

A único forma de contato foi por e-mail, em que a mulher de Bruno Daniel, Marilene Nakano, intercedeu pelo marido, que concedeu entrevista sobre o desejo de justiça da família no julgamento desta quinta-feira:

iG: O que vocês esperam do julgamento desta quinta-feira? Acha que o julgamento do primeiro acusado terá influência na decisão do júri de Sérgio Gomes da Silva, o Sombra?

Bruno Daniel: Esperamos que seja feita justiça e que o acusado seja condenado pelo júri popular. Caso o acusado Marcos Roberto Bispo seja condenado a partir da argumentação do Ministério Publico de São Paulo, isso devera impactar no julgamento de Sergio Gomes da Silva. E se o acusado estiver presente no julgamento, cremos que fatos novos e contradições podem surgir, o que poderá reforçar todo o trabalho já feito pelo MP.

iG: Embora esse seja o primeiro julgamento, a decisão sobre os demais envolvidos está longe de uma resolução. Como vocês avaliam esse período tão longo para julgar os envolvidos?
Bruno Daniel: Este processo é exemplar para mostrar que os sistemas político, policial, penitenciário e judiciário brasileiros necessitam de reformas profundas. Para ficar em apenas alguns exemplos, meu irmão foi torturado e assassinado há quase nove anos e só em 2010 foi tomada a decisão de levar o caso a júri popular. Importante testemunha foi assassinada na prisão; a investigação realizada pelo DHPP, órgão policial encarregado da enquete sobre sua morte, foi vergonhosa. As circunstâncias dessa e de outras sete mortes que podem estar relacionadas com a de meu irmão não foram adequadamente esclarecidas. O sistema político não foi capaz de sair das promessas e de colocar concretamente na agenda a discussão dessas reformas, fundamentais para que se aperfeiçoe nossa tão frágil democracia.

iG: O caso vai completar nove anos no início de 2011. Acham que ainda é possível fazer justiça tanto tempo depois?
Bruno Daniel : Levar o caso a júri popular foi um passo fundamental, mas que foi dado não sem que tivéssemos lutado muito por isso. As investigações realizadas pelo Ministério Público são muito consistentes e abrem caminho para que, a partir de agora, comecem a ser desatados vários nós do assassinato de meu irmão.

iG: Quais as contradições que vocês enxergam na defesa do Sombra, que alega ser inocente?
Bruno Daniel : Até onde conhecemos, o que a defesa de Sombra conseguiu até o momento foi aproveitar imperfeições de nosso sistema institucional para protelar o processo até aqui. Não nos parece que tenha dado nenhuma resposta consistente àquilo que foi apontado nas investigações do MP.

iG: O governo brasileiro ajudou vocês de alguma forma na concessão de asilo na França?
Bruno Daniel : Em hipótese alguma. Basta para isso lembrarmos da opinião de Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Lula, quando anunciamos que tínhamos recebido o estatuto de refugiados do Estado francês. Segundo ele, não havia razão para termos saído do País. Teria se enganado a França ao nos conceder o refúgio para preservarmos nossas vidas?

Agência Estado
O presidente Lula, até 2002 apenas candidato do PT, durante ato em memória de Celso Daniel, ao lado da esposa Marisa Letícia e de outros petistas como José Dirceu
iG: Como está a vida de vocês na França? Como sobrevivem e pagam as contas? Conseguiram algum trabalho nesse período?

Bruno Daniel : A vida de nenhum exilado é fácil. A nossa não foge à regra. No exílio vivem-se questões de diferentes naturezas, subjetivas e objetivas. O fato de não poder pisar em solo brasileiro faz com que a distância que nos separa do nosso País fique ainda maior. Em termos objetivos, são outros os tempos de exílio. Não é a mesma coisa que no tempo da ditadura. A França vive uma crise profunda, e enorme parte da população sofre muito com isso. Nós estamos no meio de tudo isso. Não é fácil sobreviver e pagar as contas. Nada fácil depender de alocações do Estado francês, de ajuda de parentes e amigos (muitos dos quais contribuíram para termos trabalho por aqui) e da dilapidação de parcos recursos que juntamos a partir de nosso trabalho no Brasil. Para alguém que sempre se sustentou com sua profissão, isto não é uma questão trivial.

iG: São quatro anos vivendo na França, não é isso? Quais as maiores dificuldades que vocês enfrentaram em solo francês?
Bruno Daniel : São quase cinco anos vivendo na França. Não ter trabalho fixo e moradia estável é a maior dificuldade. Já moramos em cinco lugares diferentes e são incontáveis os pequenos trabalhos, contatos para procurar trabalho, projetos de pesquisa rejeitados etc. Um enorme esforço para conseguirmos trabalhar, apesar de contarmos com uma rede super solidária.

iG: Guardam alguma mágoa do PT sobre a morte do Celso Daniel?
Bruno Daniel : Não, não guardamos mágoa, pois ela não nos levará a lugar algum. Para nós, muitos de nossos ex-companheiros do PT morreram simbolicamente. É difícil fazer esse luto. A esperança que veio junto com a primeira vitória do Lula para presidente nos foi brutalmente abalada. Tivemos que buscá-la em outro lugar pra continuar lutando por aquilo em que acreditamos. Sentimos, isso sim, tristeza, ao vermos que nada de substantivo tenha sido feito para aperfeiçoar a democracia brasileira. Ao contrário, pudemos ver em muitos casos retrocesso: ameaças ou desqualificação do trabalho da imprensa, falas no sentido da eliminação de partidos de oposição, corrupção, uso da máquina pública para fins político-partidários e para enriquecimento ilícito, esquemas de financiamento de campanhas irregulares etc.

iG: Como acompanharam e receberam a vitória de Dilma Rousseff na França?
Bruno Daniel : A mídia na França tem uma visão de Lula e de Dilma mitificada. Nós, que vivemos esse lado tão difícil de nosso País, sabemos que essa vitória vem carregada de muitos problemas e desafios. Se a nova presidente do Brasil não for capaz de enfrentar, continuaremos sendo um País muito injusto. Esperamos que a sociedade civil não abaixe seus braços e siga na luta.

iG: Vocês pretendem voltar para Brasil em algum momento?
Bruno Daniel : Lógico que pretendemos voltar e a saudade de casa, da família dos amigos é enorme. Depois, o Brasil, com todos os seus problemas, é ainda o nosso País. Mesmo exilados, jamais deixamos de ser brasileiros e de desejar lutar, mesmo que à distância, para que seja um País justo.

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