"Estou fazendo minha parte", diz Reguffe sobre cortes em gabinete

Deputado do PDT abriu mão de benefícios. Ao iG, ele conta quais são seus projetos e ideias: "Política não é negociação

Adriano Ceolin, iG Brasília |

Depois de abrir mão do pacote de benesses que todo parlamentar da Câmara tem direito , o deputado federal José Antônio Reguffe (PDT-DF) enfrentou a cara feia dos colegas que não fizeram o mesmo. “Mas tento ser educado com todo mundo”, disse em entrevista ao iG .

nullReguffe reconheceu que poderá ter dificuldades em conseguir apoios para votar projetos de sua autoria. Ele, no entanto, afirmou que vai atuar “sem concessões” aos seus princípios. “As pessoas dizem para mim que política é negociação. Para mim, política é questão de convicção”, disse.

Confira os principais trechos da entrevista:

iG - Como foi a reação dos colegas deputado diante das medidas que o senhor tomou?
José Antônio Reguffe – A minha preocupação é fazer a minha parte e cumprir os compromissos de campanha. E vou fazer isso sem concessões. É claro que um outro parlamentar pode não gostar, mas tento ser educado com todo mundo. O importante é ser firme. Fazer a minha parte de acordo com minha consciência. Quero terminar esse mandato e ter orgulho do que fiz aqui.

iG – Quais são seus principais compromissos?
Reguffe – Minha campanha se baseou em três compromissos principais. A primeira coisa que debati mais na minha campanha foi a reforma política. Acho que não pode ser uma reforma de fachada, uma reforminha ou uma pseudo-reforma. Temos de fazer uma reforma que mude a cara da política deste País.

iG – E os outros dois?
Reguffe – Meu segundo compromisso firmado era reduzir os gastos do meu mandato. Como fiz na Câmara Legislativa quando era deputado distrital, cumpri a promessa de abrir mão dos salários extras, reduzi a minha cota de atividade parlamentar e abri mão do auxílio-moradia e das passagens aéreas até por ser um deputado do Distrito Federal. O meu terceiro compromisso é lutar pela redução da carga tributária, que eu considero abusiva.

iG – Como o senhor pretende conquistar apoios dos seus colegas para aprovar projetos?
Reguffe – Penso que cada deputado deve votar de acordo com a sua consciência. Eu vou colocar as minhas propostas e esperar que elas sejam aprovadas. A minha preocupação é fazer minha parte de verdade e cumprir os compromissos de campanha que assumi com meu eleitor. Então, eu vou fazer isso sem concessões. Se os outros não quiserem aprovar, paciência. As pessoas dizem para mim que política é negociação. Para mim, política é questão de convicção. Essa coisa de política é negociação leva tudo para um caminho muito errado. Faz as pessoas defenderem coisas que elas não acreditam. Estou na política para defender o que eu acredito.

iG – Em 2002, o deputado federal mais votado do Distrito Federal foi José Roberto Arruda (Ex-DEM). Quatro anos depois, ele se elegeu governador no primeiro turno. Em 2010, acabou renunciando depois de ser preso em meio a um escândalo de corrupção. Oito anos depois daquela eleição, o senhor é eleito o mais votado. O que acha que mudou na cabeça do eleitor do Distrito Federal?
Reguffe – Atribuo a minha votação ao mandato que fiz na Câmara Legislativa. Foi um reconhecimento ao meu trabalho.

iG – O senhor votou no salário mínimo de R$ 560. O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, que é do seu partido, pediu para o senhor votar de acordo com o governo, nos R$ 545? Como foi isso?
Reguffe – O ministro realmente me ligou, mas não chegou a me pedir nada. Ele só perguntou qual seria minha posição. Disse a ele que votaria contra a proposta do governo dos R$ 545 e que iria votar pelo salário de R$ 560. Jamais votarei algo contra o programa do partido que eu assinei. Agora, o que não está no programa do partido está na consciência de cada um. Jamais votarei contra minha consciência. Todos votos que eu darei serão votos da minha consciência.

iG – O senhor começou na política muito jovem, ainda durante a faculdade. Disputou três eleições. Em cada uma delas, conseguiu aumentar seus votos. Como o senhor soube resistir às seduções do poder, às propostas de financiamento de campanha por empresas e empresários?
Reguffe – Posso encher a boca para dizer hoje que eu fiz campanhas sem ter uma única pessoa remunerada, sem ter um único centavo de empresário e sem fazer caixa 2. Posso dizer isso em alto e bom som. A minha campanha não teve caixa 2. Já houve empresários que quiseram me ajudaram. Às vezes até sem interesse em troca. Às vezes queriam ter apenas um representante como eu. O problema é que, quando você aceita uma doação de empresário, gera uma suspeição sobre você e sobre a pessoa. Uma suspeição na política é própria condenação do político. Os exemplos são tão péssimos do ponto de vista ético que fazem com que a sociedade passe a criminalizar a atividade política. E isso faz mal para a sociedade. Isso vai acabar da política as pessoas de bem. Acho que as coisas vão mudar quando cada um fizer a sua parte. E é isso que eu tento fazer.

iG – Já pensou em desistir diante das dificuldades que o senhor tem para atuar desta forma?
Reguffe –
Já pensei sim. Durante meu mandato como deputado distrital, várias vezes eu pensei em não continuar. Agora eu acho que as coisas vão mudar quando cada um fizer a sua parte. Enquanto achar que posso ser feliz na política, eu vou continuar. Se um dia achar que não vai me fazer mais feliz, eu saio da política sem nenhum problema. Acho que as políticas não devem ficar na política a vida inteira. Política tem de ser um serviço e não uma profissão.

iG – O senhor foi deputado distrital, agora é federal. Quais são seus planos para o futuro?
Reguffe – O maior desejo que eu tenho é chegar ao fim do mandato e poder encontrar as pessoas nas ruas, olhar nos olhos delas e ver que elas tiveram orgulho do mandato que eu tive como deputado federal. O mesmo orgulho que eu vejo as pessoas terem do meu mandato de deputado distrital. Isso não tem dinheiro do mundo que pague. E a forma não tem mistério: é só cumprir meus compromissos de campanha.

iG – Mas o senhor não tem um projeto político?
Reguffe – O político que fica pensando muito no que ele vai fazer no futuro não tem a devida consciência que tem no presente. Eu não quero acordar e ficar pensando vou ser isso ou aquilo. Quero acordar e fazer o que tenho de fazer para honrar o voto que me deram na última eleição. A minha preocupação não está com 2014. Está com 2010 ( ano que ele foi eleito ).

iG – O senhor acha que o Lula já cumpriu o papel dele e não deveria voltar à Presidência?
Reguffe – Eu não gosto desta coisa da pessoa ser candidato e ficar muito tempo no poder. Acho que a política tem de ser constantemente oxigenada. Entre as minhas propostas para a reforma política, estão o fim da reeleição para cargos executivos e o limite máximo para uma reeleição para cargos legislativos. Isso é para dar chance a mais gente. Então eu acho que o Lula já teve dois mandatos. Pode até ser que volte. Não discuto o Lula. Minha discussão é sobre o conceito.

iG – O que o senhor acha da Dilma?
Reguffe – O governo dela me surpreendeu positivamente neste início. Ela acertou ao querer fazer um ajuste nas contas do Estado, cortando despesas de custeio. Tomou medidas moralizadoras como vetar o uso de jatinhos para os ministros voltarem aos seus Estados no fim de semana. Agora só espero que esse governo não queira fazer parlamentares votar contra a consciência deles.

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