Em palestra, ex-ministro Celso Amorim exalta Lula e cita Dilma duas vezes

Ex-titular do Itamaraty também centrou críticas na mídia, como o ex-presidente, e citou Lula 13 vezes em sua exposição

Thiago Guimarães, iG Bahia |

Ministro das Relações Exteriores nos oito anos de mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), o embaixador Celso Amorim palestrou na noite de segunda-feira (13) em Salvador, com discurso crítico à mídia e de escassas menções ao governo Dilma Rousseff.

Em palestra intitulada “O mundo visto por Celso Amorim”, promoção da Secretaria da Cultura da Bahia e da Universidade Federal da Bahia, aberta ao público, o ex-chanceler exaltou a política externa da era Lula – em 43 minutos de exposição, foram 13 menções diretas ao ex-presidente. Já a presidente Dilma Rousseff recebeu duas rápidas citações.

Longe das amarras do alto posto diplomático, Amorim dirigiu críticas à mídia, à “direita” e até aos “industriais da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo)”, apontando contradições desses setores ao promoverem objeções à política externa de Lula.

“Até hoje a mídia sempre diz também: o Mercosul está em crise. Às vezes os industriais da Fiesp também dizem, mas todo ano o comércio cresce”, disse o ex-chanceler, ao apontar a ênfase de Lula no “fortalecimento da integração sul-americana”.

Para uma platéia composta principalmente por estudantes e pessoas ligadas à cultura, Amorim lembrou o episódio da nacionalização do gás pela Bolívia, em 2006, quando o governo Evo Morales chegou a invadir instalações da Petrobras, e apontou oportunismo nas críticas que o Itamaraty recebeu à época pelo suposto tratamento brando dado ao vizinho.

“Eu me lembro como fomos criticados quando houve a nacionalização do gás da Bolívia. Foi curioso ver como toda a direita brasileira - desculpe usar os termos esquerda e direita, que estão meio ultrapassados -, setores conservadores brasileiros que tinham sido tão críticos à criação da Petrobras, porque eram a favor apenas da livre iniciativa, passaram a ter na Petrobras um ícone, porque interessava, porque aquilo era contra a política que estávamos fazendo de tentar negociar algo razoável para um vizinho nosso”, afirmou.

Amorim chegou a dizer que ”graças a nossa maneira de negociar não faltou uma molécula de gás no Brasil”. Há relatos, contudo, de empresas privadas – como a Pantanal Energia – que sofreram interrupções no fornecimento de gás pela Bolívia desde a nacionalização.

OMC e Alca

Para o ex-ministro, o Brasil “soube dizer não a acordos desfavoráveis” e citou como exemplo as negociações da OMC (Organização Mundial do Comércio) em Cancún (México), em 2003, e da Alca (Área de Livre Comércio das Américas). “Fomos muito criticados pela imprensa internacional e pela brasileira. Curiosamente, com o passar do tempo, aquela atitude passou a ser reconhecida como ato de independência, como capacidade de articulação diplomática.”

Outro dia estava em uma conversa com várias pessoas e alguém disse: ‘puxa vida, só tem homem’ (na conversa). Porque as mulheres estão todas no governo. Não tinha sobrado nenhuma mulher para conversar no instituto onde eu estava”, brincou o ex-ministro

Outra rodada de críticas veio durante comentário sobre a política do governo Lula para a África. “O preconceito é tão grande que as pessoas perguntavam: ‘por que o presidente Lula vai à África?’ Só passaram a aceitar o fato de que nós tínhamos que ter uma política africana, e mesmo assim criticaram até o fim o fato de nos abrirmos mais embaixadas, depois que o presidente da China passou 12 dias seguidos na África”, afirmou.

Amorim citou a “personalidade do presidente Lula” (‘Ele é uma pessoa capaz de dialogar com todo mundo’) como ativo da política externa brasileira e repetiu elogio feito por Chico Buarque à gestão. “Aquilo que o Chico Buarque resumiu, dizendo que ele gostava do governo Lula, ente outras razões, porque o governo Lula sabia falar duro com os fortes e falar manso com os fracos.”

Na única menção ao seu sucessor no Itamaraty, Antonio Patriota, e à nova gestão da política externa, disse “acreditar” na continuidade, mas com “novas ênfases”. “Acredito que é essa a posição do Brasil, essa é a posição que o Brasil tem seguido, acredito que essa é posição que a presidenta Dilma, que o ministro Patriota tem seguido, com as inovações que têm que ser feitas, com as novas ênfases”, disse, sem entrar em detalhes.

Houve ainda espaço, em afirmação sobre avanço da igualdade de gênero no País, para brincadeira sobre a participação de mulheres no governo Dilma – são dez ministras. “Outro dia estava em uma conversa com várias pessoas e alguém disse: ‘puxa vida, só tem homem’ (na conversa). Porque as mulheres estão todas no governo. Não tinha sobrado nenhuma mulher para conversar no instituto onde eu estava.”

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